19 de nov de 2015

Kit Black: Viajantes de Mundos

Quarto capítulo: O Caminho da Ilusão (parte I).


Eu só queria uma chance para falar,
Quebrar o silêncio,
Verdades que você nunca quis escutar,
Que guardo em meu peito.
E se o que eu sinto é tudo que você quer,
Abra seus olhos,
Porque você procura em outro alguém qualquer...


Eu sou o disco que você não quer mais ouvir,
Sabendo que vai doer,
Sabendo que é sobre você.
Eu sou a história que você não quer mais contar,
Sabendo que é sobre nós dois,
E o que aconteceu depois,
Do nosso...

-Alyson?
-Oi, o que, onde?
-Você estava cantando… –Declarou Cloe.
Ela piscou os olhos, que ficaram fechados por um bom tempo desde que começou a ouvir música. Devia estar realmente viajando quando começara a cantar a música “Silêncio” do NX0. Nunca que ia começar a cantar num avião, com as duas melhores amigas, o namorado e um estranho, se estivesse no seu juízo perfeito.
-Desculpem-me. Já parei.
-Está se desculpando por quê? Sua voz é linda. –Afirmou Ken, que estava um pouco atrás.
-Pare com isso.
-O quê?
-De tentar me agradar.
-Tenho cara de quem mentiria sobre esse tipo de coisa?
-Quer que eu responda com sinceridade?
-Não precisa…
-Ele está falando sério, Ly, você canta muito bem. –Gritou Crós, da cabine de controle. –Eu até me permitiria bater palmas… Se as minhas mãos não estivessem ocupadas, claro.
-Me “acordaram” por causa disso?
-“Acordamos” você porque estamos quase chegando. Só precisamos de um lugar para pousar. –Ken explicou, continuando: -Aliás, você não disse que estava agitada demais ontem para descansar?
-Pois é… Esquece isso. –Ela alegou, levantando-se e chegando perto dele.
-Pode deixar. Tenho coisas mais importantes para pensar. Como me virar no tal “teste”… -Ele fez o sinal de aspas com as mãos. -… do Crós, por exemplo.
-Vocês estão mesmo decididos a fazer isso, não é?
-Temos que ser realistas aqui… Eu não sei se posso viver sentindo a sua falta… Crós está nos dando uma grande oportunidade, porque os que vão participar do “teste” estavam em uma lista muito… seleta. Se eu não fizer isso, dificilmente vamos voltar a nos ver. E, pessoalmente, nem eu, nem as meninas estamos dispostos a perder você. Então, esse é o jeito que eu encontrei de evitar a nossa separação.
-Não quero que nenhum de vocês se machuque… –Ela argumentou, baixando a voz: -Acha que é só você que tem o direito de se preocupar? Se algo acontecer com vocês vou me culpar pelo resto da vida… Que pelo visto nem muito longa vai ser.
-Pare de ser tão pessimista. Vou tomar cuidado, e cuidar delas também. –Ken replicou, no mesmo tom de voz.
-Faria isso se fosse outra pessoa no meu lugar?
-Talvez. Mas por você… Eu realmente faço qualquer coisa. Eu seguiria você até o inferno se fosse necessário.
Alyson revirou os olhos: -Deixe de ser tão exagerado... Até porque duvido muito que eu vá para o inferno, mesmo que seja pelas minhas próprias pernas e vontade.
-Você entendeu… Sabe que tenho que fazer isso.
-Vou com você…
-Sentem-se, consegui a permissão para pousar. –Alertou Crós.
-Resolvemos isso depois, está bem? –Ken acariciou o rosto dela por alguns segundos e a abraçou com força. –Tenho algo para resolver agora… Não se assuste. –Disse por fim, soltando-a.
-Me assustar com o quê?
Ken foi interrompido por um solavanco violento que o fez dar um encontrão na parede, por pouco não acertando Alyson, que por sua vez tinha desequilibrado e, se não fosse pelo instinto de gato, teria caído feio.
-Você está bem? –Questionou ela para Ken.
-Eu acho. E você?
-Idem. Está tudo no seu devido lugar… Os ossos, principalmen…
Outro solavanco e os dois foram ao chão. Um gemido, e Ken percebeu que, desta vez, ela havia quebrado algo. –Crós! –Resmungou, enquanto se colocava sentado, ao lado de Alyson, que apertava o nariz com força, resmungando algo como “droga, acho que quebrei o nariz”, e via o sangue esparramar-se nas mãos dela.
-Eu disse para sentarem, não disse? –Ponderou o feiticeiro.
Os dois se entreolharam e partiram um para cada lado, temendo outra colisão. –Já vamos.
Ken sentou-se na cadeira do co-piloto e botou o cinto, olhando de relance para trás. –Não podia ter um pouco mais de cuidado?
-O que eu posso fazer se vocês não me ouvem? A Ly está bem?
-Ela acha que quebrou o nariz… -Um grito vindo da parte de trás mostrou que isso era evidente. –É, ela quebrou sim.
-Maravilha. –Uma outra guinada brusca mostrou que eles tinham conseguido chegar ao solo. Seria um milagre se o hidroavião ainda estivesse inteiro. E, depois de tantas lombadas e da aterrissagem forçada, Ken duvidava fielmente que isso fosse possível.
Todos deixaram o transporte, Alyson com a cabeça levemente inclinada para trás, com um chumaço de algodão absorvendo o sangue que saía em abundância do nariz ferido, carregando a mochila nas costas e com o fone do MP3 pendurado incomodamente nos ombros. Cloe vinha ao seu lado, segurando a caixa de primeiros socorros, com sua mochila pendendo de um dos lados, dando um chumaço de algodão limpo para Alyson quando esta precisava. Sacha estava um pouco atrás, e pelo tom esverdeado que o seu rosto fino exibia, não devia estar passando muito bem. No fim vieram Crós e Ken. O primeiro indiferente e o segundo com uma carranca mal-humorada e os cabelos desarrumados.
Cloe parou a metros de distância do hidroavião e virou-se. As partes inferiores do avião, que deveriam deslizar sobre a água, foram arrancadas, e seus destroços se espalhavam a quase três metros de distância da aeronave. –Meu avião…
Cabum!!!
A explosão ocorreu tão de repente que todos deram graças por terem saído rápido, e se afastado mais rápido ainda. Cloe fitou os escombros, perplexa, e conseguiu murmurar num silvo: -Meu pai vai me trucidar.
-Desculpe. –Pediu Crós. –Não sou muito especialista em pousos de emergência.
-Deixe para lá… Não sou muito ligada a coisas materiais mesmo.
-O que houve? –Questionou Ken.
-Sei lá, estava tudo bem e repentinamente eu perdi a maior parte do controle que eu tinha sobre a máquina.
-Como se você já tivesse muito controle, né? –Reclamou Alyson, com uma voz estranha, prova que a lesão tinha sido séria.
-Pare de reclamar, se estivesse sentada no seu banco isso não teria acontecido. Agora sossegue, deixe-me ver se machucou muito. –Ele chegou na sua frente e tocou o nariz partido, fazendo-a dar um grito de dor.
-Se continuar desse jeito vou chegar a Diamante sem uma gota de sangue no corpo. Não teriam me ressuscitado para eu morrer de hemorragia, que diferença pode fazer uma heroína morta? –Resmungou a jovem, saindo de perto do mago, que a puxou novamente pelo braço e retrucou: -Não se mexa.
-O que você vai fazer?
-Nada de mais… Só isso aqui. –Antes que ela pudesse evitar, Crós agarrou o nariz dela e torceu. Ouviu-se um “crack” desagradável e mais um berro de dor, e a garota deu alguns passos para trás, deixando-se cair sentada, segurando com força o nariz arrebentado.
-Filho da…
-Olha pelo lado positivo, agora ele está no lugar certo. –Comentou Crós, ouvindo a menina choramingar baixinho. –Quer que eu limpe o sangue também?
-Não, fique longe de mim, seu sádico insensível!
-Sádico e insensível, eu?
Ela lançou-lhe um olhar quase homicida. –Não podia ter me curado de um jeito menos doloroso como, por exemplo, aquele feitiço que você usou em mim antes?
-Não temos tempo para isso. –Disse. –Até porque eu sou um sádico, homicida cruel que salvou a sua vida só para ter o prazer de te matar com as minhas próprias mãos.
Os outros três riram discretamente com a zombaria, e Alyson sibilou algo como “vai ter volta”, levantando-se, virando as costas e tentando tirar as placas de sangue coagulado do rosto com algodão embebido em álcool.
Eles se puseram a caminho do Stonehenge, que despontava a alguns metros de distância do grupo, sob o sol nascente das 7 horas. Alyson ia atrás dos outros, ainda reclamando baixinho e para si mesma do nariz quebrado. Ken reparou nisso e parou instantaneamente, esperando que ela emparelhasse com ele.
-Melhorou?
-Está ardendo. Já quebrou o nariz para ter idéia de como dói? –Ela falou, deixando que ele passasse o braço esquerdo pela sua cintura.
-Não. Mas uma vez quebrei todos os dedos da mão direita. –Ele mostrou a mão. Nunca tinha reparado, mas agora que ele disse, Alyson pôde ver nitidamente que ela era um pouco… Sutilmente estranha. Como se houvesse algo fora do lugar. Talvez Ken não tivesse tido tanta sorte como ela. Talvez não houvesse ninguém para colocar cada ossinho torcido ou quebrado no seu devido lugar. Agradeceu mentalmente a Crós pelo puxão que fizera o membro voltar ao lugar certo. Inconscientemente pegou a mão dele acariciando-a. Agora podia sentir, os ossos um pouco atrofiados sobre a pele macia.
-Não dói?
-Nem um pouco.
-Como consegue manejar a espada?
-Tenho meus truques… E não é tão ruim quanto parece, consigo usá-la normalmente.
Ela deixou escapar um suspiro de alívio. –Que bom. E eu achando que estava má.
-Errar é humano.
-O que houve… Com a sua mão?
-Um nome que eu não preciso repetir para você.
-Driguem… Aquele cretino.
-Ele descobriu onde Kira estava. Eu fui tentar salvá-la e acabei com a minha mão esmagada entre o corpo dela e a parede… Doeu pra caramba.
-Quem é Kira?
-Se lembra que eu disse que precisava resolver uma coisa… Bem, ela está envolvida no assunto.
Alyson fitou-o com os olhos castanho-esverdeados arregalados e se desfez do abraço. Tudo indicava que tinha tomado uma decisão precipitada… -Meu Deus, você não é…
-Não sou o quê?
-Ai, eu sabia que era muita sorte minha…
-Do que você está falando?
-De você! Eu devia ter imaginado que é casado!
Ele virou tão bruscamente que por algum milagre sua espinha ficou no lugar. Seu rosto se crispou numa careta dolorosa. –Alyson, eu…
Um barulho de motor distraiu-o completamente. Um jipe cor-de-areia parara ao seu lado, levantando uma nuvem de areia. Dele saltou uma mulher loira, de olhos verdes e 20 anos. Ela trazia duas malas grandes e vestia uma camiseta preta e calça jeans. Olhou para o motorista, dizendo um tank you muito educado, ao qual o motorista respondeu com uma frase que Alyson não compreendeu (Já não é pedir demais que numa situação dessas, ela lembrasse que “tank you” significa “obrigada a você” em inglês?).
-Kira. –Ken murmurou. O jipe foi embora e ela ficou, toda sorridente, observando-o. Deixou as malas no chão, e com alguns passos curtos venceu a pequena distância que os separava, abraçando-o com força. E, para o desespero de Ly, ele retribuiu o abraço, com afeto e amor. –Senti a sua falta.
-Eu também senti… Irmão.
Alyson, que já ia recomeçando a andar novamente, contendo-se para não chorar, virou-se de novo e encarou os dois, pasma. Os olhos, o cabelo, a cor da pele… Irmãos.
Como pôde ter sido tão estúpida a ponto de desconfiar de Ken? Ele não a deixaria esquecer disso tão cedo. Pigarreou baixinho para chamar a atenção deles e retrucou: -Não vai me apresentar a sua irmã?
Ele levantou a cabeça enquanto Kira se adiantava e apertava a mão de Alyson com entusiasmo. –Oi, você deve ser a Alyson, certo? Meu irmão sempre falou bem de você. Aliás, ultimamente foi a única de quem ele falou. –E continuou, fazendo o movimento com a boca, sem som “esse palerma é apaixonado por você, não desperdice”. Apesar do esforço para que ele não entendesse, Ken conseguiu sacar o que ela disse e a agarrou pelo cotovelo, puxando-a para o seu lado e sussurrando em seu ouvido: -Para com isso, está me deixando sem graça!
Alyson sorriu. Como era boba.
-Vou pegar as malas. Esperem só um minutinho…
Ela demorou mais que isso, possivelmente de propósito.
-Você é louca, paranoica, ou o quê? –Questionou Ken para Alyson. –Casado, eu? Como posso ser casado se desde os meus 15 anos só tenho olhos para você? Pirou de vez?
-Me desculpe. Foi um lapso.
-Uma crise de ciúmes, você quer dizer.
-O que eu posso fazer? Você disse que era órfão, que Driguem destruiu toda a sua família.
-Foi o que achei… Até um ano atrás. Quando descobri que eu tinha uma irmã gêmea e ela morava em Tókio. Infelizmente, não sabia que ela podia se defender muito bem sozinha. –Ele levantou a mão atrofiada fazendo uma careta triste. –Ela puxou o meu lado da família.
-Sinto muito… Não pensei. Desculpe-me por ter duvidado. –Ela lhe deu um beijo breve nos lábios. –Pode perdoar essa cretina que ainda te ama?
-Posso. Mas escute minhas palavras quando digo que vou encarnar em você por causa disso pelo resto de nossas vidas.
-Que consolo.
                                T ZT ZT ZT 
Hiei bocejou e se espreguiçou pela enésima vez. Piscou os olhos. Estava exausto, não dormira absolutamente nada. Estava com um mau pressentimento. As caras de Aaron e Pandora, ao se despedirem às portas da Sede Black, não ajudavam. Não sabia que jamais veria os amigos novamente. Não sabia que sua vida estaria para mudar a partir daquele dia. Desconhecia o futuro negro que vinha a sua frente, agourento, que riria em sua cara quando o jovem trombasse com ele.
Mitaray olhava concentrado para a clareira na sua frente. À sua esquerda, ficava o caminho sinuoso e curto que desembocava na entrada do chamado Caminho da Ilusão, ao qual teria que enfrentar, em breve. Mas sua atenção não estava nesse canto. Ela voltava-se para o espaço amplo à sua frente, onde o verde e baixo gramado cintilava abaixo de um grande arco de pedra gravada. Era um monólito estranho… Emanava um poder avassalador. Sabia o que viria de lá, dali a alguns segundos. Sabia quem viria de lá. Nunca admitiria para o amigo ao lado, mas estava entusiasmado. Muito mais que ele.
Junto aos dois ainda se encontravam Iris e uma pequena fada, de 10 centímetros de altura, olhos verdes profundos e um cabelo liso e alourado. Usava uma roupa feita de folhas: algo parecido com um top e uma saia esvoaçante. As asas eram delicadas e transparentes. Estava sentada confortavelmente nos ombros de Iris.
A tensão estava no ar. Todos os outros candidatos a entrar na Equipe já haviam se dirigido à entrada do Caminho. Só havia eles ali. Aguardavam boas noticiais… Aguardavam Crós, e aqueles que o acompanhavam.
Iris cruzou os braços. Precisava esperar, querendo ou não. Não podia coordenar a prova só. Sabia de suas limitações. Sabia que tinha que evitar o máximo possível se transformar. Sabia que lhe custaria muita energia. Estava fraca… Estava cansada. Tivera uma semana longa e cansativa, e sem tempo para recuperar as forças gastas.
A jovem era filha de uma fada. Vinha de uma linhagem direta de Hera, a Deusa Fada da Terra. A Deusa que criara a primeira fada em tamanho humano, depois dela mesma. Filha essa que podia assumir uma forma mais primitiva, quando quisesse… A forma humana. Que tinha sido criada do próprio sangue de Hera. Que não tivera pai. Essa filha se relacionou com um humano, apesar de poder criar filhas com quase a mesma facilidade da Mãe. O casal teve três filhos: dois meninos e uma fada. Só as filhas ganhavam asas. Só elas tinham o dom dado por Hera.
De modo que as gerações posteriores eram frutos de raças diferentes. Iris vinha desse galho principal, mas turbulento. Tinha vários primos de segundo e terceiro graus espalhados pelo mundo. Criaturas muitas vezes bizarras, mistura de várias raças diferentes. Ela mesma não sabia se só havia sangue de humanos e fadas correndo em suas veias. Essa mistura a tornara fraca, mais fraca do que deveria ser. Não se queixava disso, muito pelo contrário. Gostava de saber que era diferente.
Mas, para quem luta contra Haradja, toda ajuda era bem-vinda… Bem que ser uma fada pura viria bem a calhar…
Ela levantou os olhos ao ver que o vazio dentro do arco de pedra parecia ganhar consistência. Pequenos raios cruzavam seu centro. Um show de luzes…
Todos se agitaram, dando passagem ao que vinha com a luz… A sua salvação.



Quarto capítulo: O Caminho da Ilusão (parte II).


Quando Alyson, Ken e Kira alcançaram os outros, eles já se haviam agrupado no centro do Stonehenge.
-Ao menos, não teremos que nos preocupar onde deixaremos o avião… -Dizia Crós, tentando consolar Cloe.
-Pouco me importa o que aconteceu com o avião. O que me preocupa são as autoridades. Nós mandamos uma mensagem pedindo permissão para pousar no território inglês. Mais cedo ou mais tarde vão procurar por nós, e o que vão pensar quando chegarem e virem o avião destruído, sem sinal de vida?
-Chegarão à conclusão que nós morremos carbonizados? –Alegou Sacha. –E daí?
-E daí, que isso chegará aos ouvidos dos nossos pais.
-Pois é… Nem pensei nisso.
-É porque você nunca pensa, Sacha. –Retrucou Crós, aparentemente contando a quantidade de arcos que estavam à sua volta. –Quem é a sua nova amiga, Ken?
O rapaz, que botava os pés para dentro do círculo de monólitos nesse instante, olhou para Kira, que o seguia de perto e respondeu: -Minha irmã… Kira.
-Sabe lutar, Kira? –Questionou o mago sem, contudo, olhá-la.
Ela sorriu. –Claro.
-Pronta para deixar sua vida comum para trás?
-Demorou.
-Seja bem-vinda ao time. –Ele murmurou, voltando a contar.
-O que está fazendo, Crós? –Interpelou Alyson, curiosa ao notar a atitude do homem.
-Me situando… -Ele estava em frente dos dois únicos arcos inteiros que restaram em pé quase no centro do círculo. –Qual deles será o principal?
Alyson deu de ombros: -Eu sei lá!
-Esperem. –Cloe afastou os dois e observou o arco da esquerda. Notou pequenas e sutis inscrições gravadas nele. –Acho que é o da esquerda. Essas figuras… Parecem ter sido feitas por alquimistas.
-Eles tinham uma linguagem bem peculiar. –Disse Crós, como se lembrasse de tempos antigos.
-Conheceu algum? –A jovem espantou-se
-Andei por esta terra muito antes de seus antepassados pensarem em nascer. Claro que os conheci… Eram bem exóticos.
-Imagino. –Retrucou Alyson, baixinho. –E daí, Cloe?
-Daí, o quê?
-O que está escrito? Sabe ler runas antigas, não sabe?
-Bem… –Ela juntou os dedos indicadores na frente do rosto meio sem graça e continuou: -Sabe que eu nunca prestei muita atenção nas aulas do meu pai maluco?
-Como raios nunca prestou atenção? Não passou na prova? Você me disse que tinha passado na prova de runas, da última vez que eu te liguei. –Alyson gesticulou um pouco para mostrar seu desapontamento.
-Foi o que eu disse para despistar o meu pai.
-Mentiu para o seu pai?
-Menti não, omiti. Na realidade, tirei quatro. É a pior nota de toda a minha vida escolar. –Ela respondeu, enquanto Crós examinava atentamente o dito arco.
Alyson, um pouco aborrecida com a revelação e meio pasma, suspirou fundo, lembrando-se do seu próprio fracasso em línguas estrangeiras, e recomeçou: -E eu achando que era ruim em inglês…
-Isso vai se resolver bem rápido, garota. Principalmente porque bons feiticeiros sabem muitas línguas. –Disse Crós, repentinamente.
-E?
-Você mesma disse que queria aprender a arte da feitiçaria, não me culpe.
-Posso voltar atrás?
-Não. Um pacto com qualquer feiticeiro dura por toda uma vida.
-Não fiz pacto algum. –Ela protestou.
-Você pediu… Vou lhe entregar. Se não está feliz, discuta com seu “eu” interior… Garanto que a culpa é dele.
-Se eu dissesse que foi tudo um jeito de te fazer ficar mais feliz, não posso me ausentar desta… Obrigação?
-Não. –Repetiu ele, categórico. –Sugiro que pare de arranjar argumentos inúteis e prepare-se psicologicamente para o que vai ver quando atravessarmos.
-Não vamos atravessar se ninguém sabe ler runas antigas de alquimistas ingleses. Falando nisso, sabe-tudo, você sabe?
-O que, ler?
-Não, voar. –Satirizou a jovem.
-Se convém saber, sei voar sim. E, respondendo a sua pergunta, só não entendo, como já li tudo. –Ele apoiou a mão no arco de pedra e começou a recitar o que estava escrito no monumento:

Há muito, muito tempo atrás;
Quando tudo eram trevas e a humanidade tinha as pernas feridas e, consequentemente, não podia caminhar;
Quando o mundo bancava o jovem mimado que não quer seguir em frente;
Quando achávamos que permaneceríamos eclipsados eternamente;
Daqui Eles vieram;
Para nos fazer andar com nossas próprias pernas;
Para nos fazer crescer e evoluir;
Para trazer de volta o sol e a bem-vinda luz da razão.
Nos ensinaram muito, mas tiveram que partir;
Para o seu próprio mundo, seus próprios receios e seus próprios eclipses, aos quais alegavam serem bem poucos.
Para cá retornaram, e vimos seus corpos se desfazerem entre faíscas de luz.
Eles foram para um mundo antigo;
Muito além do que conhecemos;
Onde seres mágicos vagam tranquilamente sobre os prados,
Lado a lado com seus irmãos…
Os seres humanos.

-Pessoalmente, eu só vejo rabiscos.
Sacha cutucou o arco, enquanto Crós proferia a última sílaba da mensagem. Alyson lhe deu um safanão na cabeça, resmungando que “se não vai ajudar, não atrapalha”. Crós tocou o arco emocionado. Nunca parara para ler aquelas inscrições. Sentia falta daquela época. Tudo era mais fácil. Gostava de saber que, de alguma forma, seus antigos amigos lembraram-se dele ao escrever aquilo. Eram gratos. Há muito, a humanidade residente no Mundo Real tinha esquecido o que era gratidão. O que era fraternidade. A emoção acompanhava a certeza de que eles, com certeza, estariam em um lugar bem melhor a essa altura.
Alyson esperou o mago se recompor e perguntou: -Como abrimos?
Crós sorriu por baixo do capuz que cobria boa parte do rosto.
-Me lembre de ensiná-la a ser mais perceptiva também, nobre gatinha.
Ela se perguntava se aquilo era um xingamento disfarçado em elogio.
O feiticeiro formou uma bola de energia viva em sua mão. Pareciam… Raios! Os outros se afastaram e observavam a cena extasiados. De alguma maneira, num piscar de olhos, Crós transformara sua mão numa minúscula usina elétrica… De onde viria tanto poder? Aquilo desafiava as leis da física! Mas, no fundo, eles sabiam: magia. Pura magia, e mais um punhado de fé em Deuses inimagináveis.
- “Para cá retornaram, e vimos seus corpos se desfazerem entre faíscas de luz”. –Ele repetiu.
-Eletricidade. –Murmurou Cloe.
-Isso mesmo… Nossa mais notável invenção. –Ele trouxe a mão para perto do arco e, rapidamente, o buraco vazio se consumiu em raios. –Esqueçam tudo que conheceram. Todos os ensinamentos que tiveram. A partir de agora, nunca mais serão os mesmos.
Uma onda de luz e energia atingiu-os em cheio, e por alguns segundos o tudo virou nada. Era essa a sensação de quem atravessava para a outra dimensão.
                                T ZT ZT ZT 
-Mais que porre, não se pode nem descansar hoje em dia! –Reidh saiu da sua cômoda posição sobre nuvens brancas e fofas e olhou para baixo. Seu corpo era naturalmente leve como o ar, então não se incomodava de estar a quilômetros do chão. Abriu as longas asas brancas, de tom levemente azulado nas pontas de todas as penas, e esticou-as. Os olhos azul céu observaram a clareira logo abaixo. As nuvens o levaram para um dos portais sem que ele tivesse notado. Sabia onde estava, e o que estava por vir. E conhecia acima de tudo aquele zumbido agudo que o trouxera de volta da sua meditação e persistia em suas orelhas pontudas.
Reidh não era um anjo. Tão pouco um espírito do Ar comum. Reidh era um elfo, o que explicava as orelhas pontudas e sua beleza marcante. Você deve se perguntar por que um elfo, que tem a fama de viver nas árvores, faz, com um par de asas angelicais, sobre uma nuvem.
Acontece que ele também não era um elfo qualquer. Você acaba de conhecer Reidh, O elfo, Senhor do Ar e dos Céus. O Deus dos Ventos.
E, até o final desta história, verá os outros dois Deuses que, unidos a ele e Seres, formam o poder que rege Diamond. Porém, ainda estamos no começo. É a vez de Reidh tomar seu lugar na trama que se desenrola lentamente.
O Deus remexeu nos cabelos brancos. Não parecia um velho, muito pelo contrário. Parecia estar na faixa dos vinte e cinco anos. Seu corpo era escultural, geralmente coberto por uma camisa branca, calças grafite e um sobretudo beirando entre essas duas cores. Os cabelos eram curtos, vinham antes da altura do queixo delicado e eram lisos. A tez era clara.
Olhou para o céu a tempo de desviar de seis pessoas que literalmente despencavam dos seus domínios. Um ele conhecia bem. Em compensação o resto… 
Enquanto pensava, jogou uma rajada de vento para impedir que colidissem com o chão. Uma delas caiu sobre uma árvore e teve que frear a queda por si própria. Ao olhar para aquele rosto, para aqueles olhos, ele estacou. Sua respiração parou por um segundo. Era ela.


A jovem avaliou seu estado. Olhou em volta para encontrar os outros. Eles, no chão, longe um do outro, por causa da ventania de Reidh, (mesmo assim, vivos), iam se levantando aos poucos. Procurou um, em especial…
-Mas que diabos, Crós! Tá tentando nos matar!?
O feiticeiro se levantou como se nada tivesse acontecido e fitou Alyson por um momento. –Descarreguei energia demais. Tenho coisas piores para me preocupar. Acho que quase acertei o Deus dos Ventos…
A jovem foi descendo de galho em galho, cuidadosamente, até chegar ao mais baixo, que estava a dois metros de altura do chão. Ela meio que sentou no galho, ficando de frente para Crós e os outros, sem perceber que estavam sendo observados por um Deus, uma meia fada, uma fada pura e dois rapazes bem curiosos.
-Está todo mundo bem?
-Acho que quebrei uma unha. –Alegou Sacha, indiferente. Cloe estralou o corpo todo verificando se estava tudo no lugar. Kensuke e Kira se abraçaram num gesto de cumplicidade.
-E você, está? –Ken perguntou.
-Eu fui morta, ressuscitada, apanhei, fui golpeada por uma cimitarra, quebrei o meu nariz e agora estou em cima de uma árvore em um mundo estranho. Já faz algum tempo que não estou bem. –Ela enumerou, medindo a altura em que estava.
-Pelo menos estamos vivos. –Analisou Cloe.
-Ainda. Crós vai acabar me matando antes mesmo de eu pisar num campo de batalha. –Resmungou, sentindo o galho ceder com o seu peso. O galho partiu-se e, para o seu azar, seu instinto felino resolveu não colaborar e ela acabou de cara no chão. Refreou o próprio grito de dor e virou o corpo. Tocou o nariz. Estava doendo, mas estranhamente não o sentia partido mais. Era como se a cartilagem tivesse se recomposto milagrosamente naquele curto espaço de tempo que ela saiu do avião até a queda inoportuna. Ela fez um sinal de que estava tudo bem e levantou-se, tirando o capim do rosto e da roupa. -Mas que…
De alguma forma, sua roupa também se transformara. O que parecia ser um bolero cobria os seios e deixava a barriga de fora. O tecido era extremamente leve, mas não era seda. Tinha uns tons de lilás. A saia, um pouco mais puxada para o vermelho, era curta e com duas pregas. Ficava atada à sua cintura por meio de um cinto da mesma cor, do mesmo tecido. O seu, agora inseparável, cordão pendia do pescoço nu. Estava descalça. Ainda se perguntando como e quando isso acontecera, notou que não era só ela. Todos haviam mudado de roupa, menos o próprio Crós, que balançava a cabeça, fazendo questão de afirmar que não tinha nada a ver com isso.
Kira parecia uma fada. Usava um top verde-água e uma saia no mesmo tom, um pouco mais cumprida que a de Alyson e sem pregas. Fios de algum material desconhecido, azul petróleo, se enrolavam em suas pernas e braços.
Sacha estava toda em tons de vermelho, rosa e branco. Sua baby-luck era aberta nas costas, e uma calça bailarina branca acentuava a cintura fina. Em seu pescoço a flor de lótus, seu passaporte para outra forma, brilhava elegantemente.
Em Cloe a renda aparecia, junto com o misterioso tecido, para formar um vestido roxo e curto. As pernas eram cobertas pelas mesmas tiras estranhas de Kira, só que de um azul menos intenso.
Ken, ao contrário do que se esperava, apareceu vestindo algo como uma meia armadura. Havia ombreiras e joelheiras prateadas, uma blusa justa e azul-marinho e uma calça negra. Na testa, uma pequena jóia incrustada. Uma ametista pequenina em forma de um triângulo invertido.
Mas numa coisa eles eram iguais: todos, até mesmo Crós, mantinham-se descalços.
O espanto era geral. O mago recostou-se na árvore em que Alyson estivera em cima instantes antes e fez cara de mistério. –Eu disse que nunca seriam os mesmos.
-Mas o que raios está… –Alyson parou novamente, interrompida pela explicação que se seguiu, vindo de uma voz feminina.
-Quando as pessoas de fora vêm para cá, o próprio mundo faz um “scaner” dos seus desejos mais profundos. Quando se passa para esse plano, podemos ver pela roupa e cor a natureza de qualquer um. –Iris parou na frente de todos, com Mitaray e Hiei logo atrás. –Sejam bem-vindos a Diamond, nosso lar e, se desejarem do fundo da alma, o lar de vocês também.
-Obrigado. –Responderam os visitantes, sem saber o que dizer.
-Quem tem de agradecer somos nós, por terem ouvido nosso apelo, certo, meu amigo gato?
Crós acenou com a cabeça. –Certo.
A mulher fixou os olhos castanhos avermelhados no rosto de Alyson e pegou as suas mãos. –Uma espera longa que traz bons resultados. É um prazer conhecê-la, Kit Black. O meu nome é Iris.
-O prazer é todo meu, Iris.
A semifada voltou-se para os outros. –Não pensem que meu interesse é só sobre a garota. Aproximem-se! Sou metade fada, tenham certeza que não vou fazer-lhes mau.
Hiei deu um passo à frente e estendeu a mão para Alyson. –Oi, sou Hiei. –E nisso segurou a mão dela e sacudiu para cima e para baixo, num prolongado aperto de mão. –Kit, certo?
-É… –Ela se perguntou se adiantaria mesmo usar do nome de Alyson Valoem num mundo onde apenas a conheciam por Kit Black. Chegou à conclusão que realmente era inútil discordar. Sorriu. –É. Isso mesmo.
Com essa afirmação seus amigos se entreolharam por alguns instantes. Ela estava mesmo falando sério? Crós, em compensação, não lhes deu muita atenção. Sabia que isso aconteceria, cedo ou tarde. Quanto a Alyson, bom… O fato é que ela nunca mais usou o nome dado pela mãe, embora nessa época ainda não soubesse que isso não era um erro grave.
Enquanto pensava, Hiei a bombardeava com uma saraivada de perguntas: -Teve uma boa viajem? Se sente bem? O que acha de Diamond? Legal não é…
Mitaray revirou os olhos, certamente com pena da garota. Com uma das mãos puxou fortemente as costas da blusa que o colega usava e forçou-o a ficar do seu lado novamente, enquanto alegava: -Fique quieto, Hiei, deixe-a respirar! –E virando-se para Alyson (agora Kit), e os que estavam atrás dela, continuou: -Desculpem a indelicadeza de Hiei. Ele é… Extremamente indócil.
Cloe deixou escapar um risinho extremamente debochado: -Indócil é apelido.
Hiei observou-a de cima a baixo. Em sua cabeça, era muito bonita, mas também tinha aquele jeito inconfundível de nerd e sabe-tudo que o tirava do sério. Ele estava um pouco enganado, o que já é alguma coisa, se for contar que ele está sempre enganado quando se trata de mulheres. –Sou indócil, mas ao menos, sou feliz. Pode dizer o mesmo?
Cloe decidiu que não valia a pena revoltar-se por tão pouco e deu de ombros. –Isso só diz respeito a mim.
-Ela sabe afiar a língua quando quer. –Murmurou Ken para Sacha.
-Você ainda não viu nada.
-Gente, eu odeio estragar o momento “conhecimento” de vocês, mas não estão desconfiando de nada? –Retrucou Íris, apontando para o próprio pulso, como se mostrasse um relógio.
-Ah, claro, o teste. –Hiei coçou a cabeça. –Eu já ia me esquecendo.
-Novidade. –Satirizou a mulher. –Vamos, estamos atrasados. Imagino que vocês vão participar… –Disse, virando-se para Kensuke, Cloe e Sacha.
-Peraí… –Hiei apontou para Cloe enquanto perguntava com cara de tacho para Iris: -Ela vai fazer o teste? ELA VAI ENTRAR NO CAMINHO DA ILUSÃO!?
-Não, bobo, ela vai conosco para montar acampamento e fazer pizza. –Zombou Mitaray, fechando os olhos numa esperança vã de conter o sono.
Kit gargalharia há essas horas, se não fosse pelo fato das duas amigas e o namorado estarem fadados a ter uma manhã deplorável e provavelmente não passarem inteiros dela.
-A vida é dela. Ela faz o que quiser. –Respondeu Iris.
-É, se ela quer perder alguma parte do corpo, o problema é todo dela. –Alegou uma voz grave. Iris imediatamente olhou na direção em que ela viera. –Majestade?
A figura sorriu. Detestava ser chamado daquele jeito. Mas era um Deus, não era? Fez um sinal breve com a mão direita, impedindo que Iris e “companhia” se ajoelhassem. –Fala sério, Iris, sabe muito bem que não precisa me tratar desse jeito. Quer me matar de tédio antes mesmo de me apresentar aos novatos?
Iris sorriu. Ele era mesmo uma figura. –Bom dia, Reidh. O que o traz aqui, tão cedo?
-Para começar, quase me bombardearam com seres humanos. –Respondeu o Deus, mirando Crós de esguelha. –E, também, sou o único disponível, aparentemente, para dar boas vindas aos Slaiers.
-Aos o quê? –questionou Sacha, achando que era algum tipo de xingamento.
-Significa “viajantes novatos”. –Explicou Iris, de mal humor. –Sem querer ser desrespeitosa, meu caríssimo Reidh, mas estamos sem tempo.
-Extremamente sem tempo, devo frisar. –Alegou a fadinha loira, agora dependurada no ombro do Deus.
-Relaxem vocês duas… Já estão atrasadas, mesmo… –Reidh se espreguiçou. –Já explicaram o sistema de cada indumentária?
-Não. –Resmungou Iris.
-Mas que coisa, vocês poderiam ter adiantado um pouco o meu lado. Olha, Iris, a Hera não vai ficar muito feliz em saber que uma das suas descendentes está ficando lenta em suas tarefas…
-Ora, seu…
Mitaray e Hiei se adiantaram para segurar Iris antes que ela fizesse alguma... Loucura. –Vamos relaxar, está bem?
-É, quer que eu arranje um suco de maracujá para você?
-Não quero relaxar, quero que esse X-9, fofoqueiro cale-se.
-Desculpe ter que dizer, mais isso é improvável, para não falar de impossível. –Alegou Mitaray, soltando-a.
Reidh revirou os olhos e sorriu. –Esquentadinha, como sempre. Olha só o que temos aqui… –Ele parou em frente à Kit e a analisou brevemente, antes de continuar: -É, Kit, você é exatamente como eu imaginava… Até mesmo por dentro. Acho que temos um caso raro de indecisão aqui.
-Desculpe-me, mas: o quê?
-Vou resumir. Eu sou Reidh, o Deus dos Ventos, e já que a nossa querida Iris ali não teve a capacidade de explicar as suas roupas, vou tentar fazer isso do jeito mais compreensível que eu puder. –Ele parou. Notando Iris ficar rubra de tão zangada e imaginando que era melhor parar por ali mesmo, respirou fundo e continuou. –Quando chegaram aqui, uma magia relacionada aos portais passou por vocês… Essa magia é responsável pela mudança de roupa. Ela funciona com a finalidade de trazer a tona o verdadeiro “eu oculto” de nossos visitantes. É extremamente importante para evitarmos ter surpresas desagradáveis.
-Desagradáveis? –Cloe olhou-o, esperando uma resposta.
-Digamos que, com pessoas vindo do Mundo Real, qualquer cuidado é pouco. Isso não é perseguição, apenas cautela. Uma lei que não pode ser ignorada… Tivemos muitos problemas antigamente por não saber a natureza de quem pisava em nossas terras. –Ele pareceu pensativo. Seus olhos se estreitaram e ele fitou Iris, Mitaray e Hiei. –Muitos problemas mesmo.
A expressão angustiada não durou muito tempo. Logo ele sorria novamente. –Devo começar por você, tampinha?
Kit deu de ombros. Já estava acostumada a ser tachada de tampinha. Seu 1,60 m nunca foi problema nenhum para ela, mas fazer o quê? –Pode ser.
-Pra começar, as qualidades. O lilás e o vermelho dão a sensação de liberdade e humildade, além de muita perseverança, porém…
-Porém?
-Essas cores conectadas, aliadas às formas curtas, também refletem a indecisão marcante em sua vida, e uma certa falta de autoconfiança. Um conselho: trabalhe nisso, garota, não é uma dificuldade impossível de se resolver.
A jovem arqueou levemente as sobrancelhas. Ele era mesmo bom…
O Deus virou-se para Kira. –O verde e o azul petróleo são cores fortes. Refletem uma presença forte, inabalável, mas também um grande coração. Isso causa uma crise de personalidade. Aconselho você a tentar conciliar os dois.
À Sacha sua explanação foi dita rápida e sem rodeios: -Romantismo e suavidade. O branco significa pureza… Em algum lugar aí dentro, pelo menos. Pode ser extremamente chata e um pouco egoísta. Deixe de pensar em você mesma e comece a prestar atenção nos outros. Você pode se surpreender…
A avaliada engoliu em seco, e Kit achou, por um minuto, que ela ia sentar e chorar. Ao evitar essa cena, Sacha mostrara ser mais forte do que parecia.
Cloe teve um pouco mais de sorte. –A renda mostra complexidade, o roxo, inteligência e sabedoria.
-Não são a mesma coisa? –perguntou a garota.
-Não. De nada adianta a inteligência se não se sabe como e pelo que usá-la. É aí que entra a sabedoria. Entretanto, esse lado crítico tende a atrapalhar sentimentos essenciais, como o amor e amizade. Não se ligue tanto a fórmulas. Deixe certas coisas correrem normalmente e relaxe.
Ken imaginava um esculacho total quando chegou a sua vez. Reidh estudou-o por alguns segundos e fez uma careta de “é claro, como não vi isso antes?”, enquanto começava a falar.
-É você têm muitos dons. É bem difícil avaliar seu “eu interior”. Mas mesmo assim, algumas coisas sobressaem-se. Sua meia armadura mostra sua paixão pela batalha. O azul reflete uma essência impactante e compreensiva. O preto não costuma ser uma cor muito boa, mas em relação com o azul, está associada à elevação. Feiticeiros usam o preto com azul geralmente, para mostrar sua elevação de espírito.
-E quanto esta coisa no meio da minha testa? –O rapaz apontou para a pedrinha. –Significa o quê?
Reidh riu e respondeu: -Impaciência. Aparentemente você fala sem pensar, e é um dos seus piores defeitos. Lembre-se que para destruir basta, às vezes, uma só palavra. Essa pedra é um pequeno lembrete, e diz “pense antes de falar”. Ela sumirá quando saírem deste bosque. Quanto a todos vocês estarem descalços, o que ainda devem estar se perguntando, a resposta é simples. Este lugar é sagrado, e andar sobre ele descalço permite que o rio de energia a nossa volta flua para os nossos corpos. Também têm muita gente que acha andar por aqui, até mesmo com chinelo, um sacrilégio, então é melhor não esquecerem.
-Senhor…
-O que foi, Sabrina?
-O vento está mudando…
-Eu senti, oras, esqueceu que sou o Deus dos Ventos?
-E da fofoca?
-DOS RUMORES. Assim como o meu elemento eu levo RUMORES, quantas vezes vou ter que repetir? –Reidh abaixou as orelhas pontudas e levantou um pouco a mão esquerda, como se estivesse sentindo a direção do vento. Abaixou a mão, um pouco revoltado. –Logo agora que estava começando a ficar interessante…
-Senhor?
-Uma reunião urgente, e eu estou pra lá de atrasado. Folkes vai me trucidar. Deve ser sério… –Ele parou, e mais uma vez fez com que um sorriso aparecesse em seu lindo rosto. –Foi um prazer conhecê-los. Boa sorte, e espero que nos encontremos novamente. –Virou-se para Iris, e alegou: -Desculpe-me pelo incomodo, sabe como sou: adoro dar boas risadas, contar histórias… Preciso de alguém que ouça. –E, finalmente, para Crós: -Quanto a sua impertinência em me usar como alvo, vou deixar passar… Desta vez.
Deu alguns passos para trás enquanto a fadinha saía de seu ombro e terminou: -Cuidem-se!
E, batendo as asas, desapareceu em meio a uma revoada de plumas. Embora não estivesse presente no teste, todos ali sabiam que o Deus estava torcendo por eles.
Alguma coisa em seu jeito de falar sugeria um adeus. Os “Slaiers” estavam cismados com isso. Crós percebeu, e lançou um olhar significativo para Iris. –Você conta ou eu conto?
-Podemos deixá-los no escuro também. –Murmurou Mitaray.
Os novatos se entreolharam. Seria tão ruim?
-Dramático o Reidh, não é? Relaxem, galera. Ele sempre volta. Adora uma boa fofoca. Não deixaria de saber sobre Kit Black e sua chegada “triunfal”. –Iris revirou os olhos castanho avermelhados. –Além do fato de que jamais deixaria de me atormentar.
Crós desencostou da árvore finalmente e afirmou: -É melhor irmos, está na hora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário