29 de jan de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Sexto capítulo: A Lady Infernal (parte II).


Kira sentou-se ao lado de Mitaray e retirou a bolsa que pegara as pressas, remexendo lá dentro a procura de remédios. Lançou um olhar zangado para o rapaz ao seu lado, que largara o ferimento, mostrando um feio e profundo corte. A pele em volta havia assumido uma cor esverdeada, o que fez com que a face dele se tornasse sombria.
-Me diz que não é o que estou pensando…
-Veneno… havia esquecido esse detalhe… -ele fez uma careta de dor e retirou a camisa. A temperatura esfriara, e algum tempo depois ele tremia, não se podia saber se era por causa desse fato ou se alguma febre já tomara conta de seu corpo. Em um dado momento, mal conseguia manter-se sentado, e teria tombado ao chão se Kira não tivesse o segurado. Não havia nada que pudesse ser feito… não havia jeito de dispersar o veneno. Ela o abraçou ternamente, mas não teve nenhum sinal de retribuição… ele havia perdido a consciência.
E nesta perda, conseguiu ouvir uma voz grave.
Você ainda teme cair?”
Ele viu seu próprio corpo flutuando no vazio, e pareceu uma eternidade o tempo que passou ali, até uma moça familiar ir se formando lentamente, olhando-o de frente, em seus olhos. Utilizava um manto negro, e dela vinha a tal voz que tanto escutava. Sem que precisasse sequer pedir, ela repetiu, agora falando diretamente para ele.
-Você ainda teme cair?
Ele arregalou os olhos. Seria este o fim de tudo o que construíra? Agora que as coisas começavam lentamente a se encaixar?
-Eu…
-Quando eu o escolhi, entre tantos órfãos transtornados, vi algo que apenas você tinha… algo único… todos o têm, mas este algo que me refiro é diferente de todo o resto… -ela ergueu a face, e ele viu um rosto pálido, olhos escuros, e cabelos negros emoldurando uma face repleta de conhecimento. –Foi por isso que eu o mantive ao meu lado, e lhe dei o poder que hoje se utiliza… e em nenhum momento eu me arrependi de minha escolha… nem com você, nem mesmo àquele que lhe é quase um irmão…
Mitaray manteve-se em silêncio. As trevas não se desvaneceram… e ele ainda parecia estar à beira de cair eternamente.
-Você ainda tem medo de cair, Mitaray?
Ele desviou os olhos acenou afirmativamente com a cabeça… “ela” era uma das únicas criaturas que este não conseguia encarar… talvez porque significasse o fim de tudo… ou seria o começo? Viu ela abrir um sorriso quase doce, e continuar: -Quando perder seu medo, você saberá que aprendeu tudo… -e estalou os dedos. As trevas foram se desvanecendo, abrindo lugar para um campo de grama muito verde… também familiar… Os Campos da Morte.
-Por quê? –ele perguntou à entidade, aparentemente confuso…
-Porque você ainda precisa voar… -fechou os olhos negros, levando uma mão ao peito. –A jornada ainda não acabou para você, meu caçador… ela começa, de fato, agora…
Meio sem palavras para responder, ele abaixou a cabeça, numa profunda reverência. –Obrigado… Mestra…
Parou quando sentiu que esta colocara os dedos ágeis sobre a cabeça dele, como se fosse um afago. –Mas não posso ficar distribuindo concessões, meu querido… nem mesmo para os meus servos mais leais… -tocou o queixo dele, levantando seu rosto. Por um instante, a mestra e o servo se encararam. –Tente não arranjar motivos para uma morte prematura… ou não terei alternativa a não ser buscá-lo…
A Morte voltou a sorrir, e a paisagem começou novamente a se desvanecer, levantando toda a claridade. Mais uma vez ele estava no escuro, mas não parecia tão apavorado… o vulto da mulher começou a sumir aos poucos, como fumaça, e apenas sua voz potente pode ser ouvida, antes que ele se esquecesse: -Até breve, Mitaray… continue com o bom trabalho…

Kira ainda o sacudia desesperadamente, sem a menor reação da parte do mesmo. Havia limpado a ferida, cuidado o quanto podia, mas não podia fazer nada com relação ao veneno… este poderia corroê-lo por dentro até não restar nada… poderia parar seu coração, causar uma pane nas atividades cerebrais ou simplesmente sufocá-lo até a morte… eram tantas probabilidades, e uma mais ruim que a última, que ela sentiu um nó se formar em sua garganta. Mantendo a cabeça dele escorada em suas cochas, media a cada período certo de tempo a temperatura, rezando baixinho para que ele abrisse os olhos… para que milagrosamente conseguisse se recuperar. Mas ela sabia… que suas esperanças eram infundadas…
No entanto, estava errada… porque finalmente ele se mexeu, lentamente a princípio, logo passando para uma tosse forte, e finalmente abrindo os olhos de cor clara, e fixando-os na garota que parecia estar acima de sua visão. Franziu o cenho suavemente, tentando falar algo, mas a boca estava seca demais para continuar.
-Ah… tome… -Kira girou o corpo, pegando um cantil com água cristalina do lado de seu corpo (e que já estava praticamente vazio), e levando-o aos lábios dele, para que pudesse se satisfazer. Após beber o que restara da água, conseguiu finalmente articular algumas palavras desencontradas.
-Eu demorei?
-Demorou? Como demorou? Você estava ardendo em febre… pensei que morreria por causa do veneno…
Ainda manteve a cabeça dele apoiada em seu colo, mudando de posição para ficar mais confortável. Subiu a mão direita para tocar sua testa, percebendo que a temperatura de seu corpo baixara novamente.
Ele abriu um sorriso sutil, fechando os olhos e deixando a cabeça descansar. –Não imaginei que a encontraria cuidando de mim.
-E… por que isso?
-Não parece seu estilo…
-Eu não poderia deixá-lo morrer… não poderia assistir sem fazer nada… -ela desviou os olhos para longe, acariciando com as pontas dos dedos o cabelo dele.
-Totalmente um instinto humano de compaixão, então?
-O que…
-O seu ato.
-Ah… sim… claro.
Fechou a cara com esta afirmação de sua própria parte, mas não disse nada a mais que isso.
-Estás fazendo uma carranca adorável…
Kira voltou seus olhos para Mitaray, reparando que este nem sequer abrira os olhos. –Como sabe? –e um xingamento ficou preparado na ponta da língua, mas continuou lá, sem ser citado.
-Eu já lhe disse… reparo mais em ti do que julgas…
-E por que, sou um tipo interessante? –ela revirou os olhos…
-De fato é… mas esse não é motivo principal… -ele abriu os olhos e se esforçou para fazer um sinal de “chegue mais perto”. –Deixe-me dizer a seu ouvido… é um segredo…
Kira franziu o cenho, já imaginando que aquilo não ia acabar muito bem… abaixou a cabeça sutilmente, de modo que sua orelha ficasse o mais perto possível da boca dele. –Não imaginei que fosse tão folgado…
-E eu não sou, milady… mas o veneno ainda corre em minhas veias, e mesmo que esteja… talvez… parcialmente neutralizado… ainda não tenho forças para me levantar… -Mitaray levou o dedo indicador a testa dela e tocou o local rapidamente: -Só peço um pouco de sua compaixão…
Ela ficou imaginando um milhão de coisas para responder… e perguntar… mas a única coisa que conseguiu proferir foi um “diga logo”.
O rapaz riu discretamente, e finalmente disse, em um tom baixo, como um sussurro, ao pé do ouvido de Kira. –Sou apaixonado por ti… -e moveu a cabeça para o lado para dar um beijo no canto da boca dela.

Surpreendida, ela moveu a cabeça rapidamente para olhá-lo de frente. Imaginava ser uma brincadeira, mas sabia o suficiente dele para não acreditar em seu próprio pensamento. Ele não brincaria com algo assim. Seu coração acelerou repentinamente, e ela passou a se perguntar se, durante este tempo todo, não sentia o mesmo. Mas não pôde tirar satisfações ou ter certeza absoluta… quando ergueu sua face, ele já havia adormecido novamente, usando as pernas dela como travesseiro. Ela murmurou algo ininteligível e voltou a colocar sua mão na cabeça dele, acariciando-a suavemente. E enquanto pensava, a noite caía definitivamente sobre os dois…

~Kit Black

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