12 de fev de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Sexto capítulo: A Lady Infernal (parte IV).


Nicolas estava uma vez mais com os nervos a flor da pele. Ele observava um painel e mexia os dedos rapidamente, simplesmente não conseguindo deixa-los parados por muito tempo. Sua expressão lembrava aqueles doentes no hospital que recebem um diagnóstico de morte próxima… fez um sinal para que um dos guardas se aproximasse e confidenciou-lhe em um tom mais baixo que o normal. –E as buscas?
-Apontam para a Base de Haradja, Senhor. Ir até lá é cometer suicídio…
-Não estou pedindo favores, estou pedindo informações. -ele endireitou-se, levantando o corpo esguio e pegando a espada da bainha. Observou-a de cima a baixo, longamente, e logo continuou, sem tirar os olhos claros da lâmina. –Eu farei isso por mim mesmo… tenho que honrar com minhas promessas e deveres.
Eu não deixarei que mais ninguém morra.”
A notícia do sequestro de Iris já havia chegado a seus ouvidos, logicamente. Ele estava quase feliz: soubera do sucesso da missão a Dragon, mas aquela ultima revelação estava sendo demais para os seus nervos. Ele simplesmente se negava a perder mais alguém, mas a cada investida, por menor que fosse, a Lady Infernal, causava uma retaliação assustadora… e alguém sempre acabava ferido, ou morto…
Ele começava a se perguntar se ainda havia o mínimo de esperanças de que tudo terminaria bem.
-Você não sairá. -uma voz veio de trás dele. Aldeon estava lá, os olhos insondáveis e cor de gelo observando-o atentamente. 
-Eu preciso ir.
-Se for, irá perecer, está preparado para isso? –ele apoiou o corpo contra sua espada, Dente de Dragão, e continuou: -Está preparado para o que verá, para o que terá de encontrar?
-Isso definitivamente não tem nada a ver…
-Tola criança. Eu odeio ficar batendo na mesma tecla. -ele bocejou. –Apenas fique aqui. Veja por si mesmo o que a nossa campeã pode fazer… ou o que seus amigos podem.
Nicolas fez menção de ignorar, mas no ultimo instante pareceu pensar melhor, ou pior, e parou. –Vai tentar me impedir, certo?
-Sim… de fato.
-E sabe que não tenho a menor chance. -ele abriu um sorriso forçado. –Está ficando cada vez mais baixo, Aldeon…
Ele viu seu mestre dar de ombros suavemente e abrir um daqueles seus sorrisos tranquilizadores. –Apenas psicologia, meu caro. Apenas psicologia…

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O casal chegara finalmente ao fim da linha, o ultimo degrau dava em uma sala fechada e abafada, com cheiro de mofo. Parecia não ser aberta a anos. Ken precisou levar a manga da blusa ao nariz para conseguir respirar decentemente. –Há quanto tempo não vem aqui?
-Quem sabe… -Kit tossiu e mexeu uma das orelhas de modo sutil. –Está ouvindo?
-O que, exatamente? –ele definitivamente odiava quando ela perguntava aquilo, porque certamente ele não estava. A audição da namorada era absurdamente melhor que a dele.
-Parece… algo rolando… -ela estreitou os olhos, no momento que uma bola fenomenal apareceu vindo de uma porta paralela a eles, provavelmente uma passagem oculta.
A coisa parou de rolar em frente aos dois. Parecia de metal, e na sua superfície havia algo escrito na língua antiga. Kit aprendera o suficiente por Salem para saber que significava algo como:
-Como assim “Aos cuidados de H?”
Ela não teve tempo para descobrir. Acima deles, saindo da esfera prateada, garras metálicas os agarraram, enrolando-se no corpo de ambos e puxando-os para dentro. Quando estavam lá, ainda atordoados para saber o que aquilo era, ela fechou-se novamente, começando a girar, fazendo um círculo e voltando a subir pela mesma porta em que chegara, carregando os dois consigo, para sabe-se lá onde. Provavelmente para as garras de Haradja.

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-Kira…
-O que foi?
-Não sou pesado?
-Você é, mas não vou deixa-lo aqui para virar comida de verme.
-Acho que aquele verme não voltaria, de toda forma.
-Pare de reclamar.
Ela estava escorando-o, enquanto caminhavam lentamente em direção ao jato. Iam bem devagar, já que Mitaray ainda estava bastante ferido. Apesar de tudo, seu corpo ainda demoraria algum tempo para se recuperar completamente. Ele vinha com um braço passando pelo pescoço dela, enquanto Kira o mantinha seguro com seu braço. Eles mais cambaleavam que andavam, parecendo mais um casal de bêbados, mas ninguém poderia julgar isso ao ver as circunstâncias.
-Não é como se eu estivesse reclamando. -ele abriu um sorriso gentil.
-Hei, você estava delirando?
Mitaray ergueu uma sobrancelha, como alguém que não entendeu muito bem. –Eu… quando?
-Quando disse aquilo…
-Ahn… eu disse muitas coisas, pode ser especifica?
Ela estava começando a achar que deveria arrastá-lo pelo braço em vez de escorá-lo. Quanto mais areia comesse no caminho, melhor seria.
-Tsc… esqueça. -deu mais dois passos, esperando que este a acompanha-se, e parou por alguns instantes intermináveis, olhando em volta.
-Será que… os capangas de Haradja estão por perto?
Ele ergueu a cabeça e fez um esgar de dor quase imperceptível. –É uma possibilidade, mas a menos que sejam esqueletos-vivos, não teremos muitos problemas.
Não conseguiria pará-los neste estado, que inconveniente.” pensava consigo mesmo, ainda mantendo os olhos para cima. Sua situação era realmente humilhante para um ser que aceitara o fardo que carregava, mas não queria pensar sobre isso.
Voltou a escorar-se na jovem ao seu lado. Ambos continuaram os passos cambaleantes.
-Se eu tivesse asas...
-É o tipo de pensamento que não combina com você.
-Não, mas ainda assim seria legal. -ela suspirou, e levou a mão ao pescoço. Sentiu algo repuxar nele, como se fosse um aro ou corda, mas não havia nada… franziu o cenho.
-O que foi…?
-Nada. Vamos seguir.
Uma vez mais eles voltaram a caminhar, desta vez sem a intensão de se demorarem muito. Estrelas pálidas iluminavam o caminho, assim como uma grande lua cheia.

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Kit sentiu uma vibração violenta quando a esfera metálica finalmente parou, batendo a cabeça em sua superfície. Murmurou qualquer coisa ininteligível. Ken também parecia apático, do tipo que desabaria assim que saísse lá de dentro.
-Me sinto como se tivesse sido batido no liquidificador.
-Ou numa batedeira… -ela completou, levando uma mão aos lábios: um barulho de conversa vinha do lado de fora. Ela bateu no interior da esfera, esperando que esta se abrisse novamente. –Precisamos sair…
Sabe-se lá por qual motivo, a máquina decidiu que já era hora de soltá-los e abriu uma comporta em toda sua extensão, o que fez os dois caírem sobre o piso.
-Ai…
-Mas que…
-Ora, ora… vejo que os convidados de honra chegaram. -uma voz fria chegou aos ouvidos deles. Sentada em um trono bem a frente estava aquela a que tomaram como inimiga, Haradja, irmã de sangue de Kit. Esta não conseguiu evitar uma expressão de ousadia, a qual foi respondida com indiferença pela sua anfitriã. –Prazer em conhece-la, irmãzinha…
A garota franziu as sobrancelhas, e ergueu-se, juntando toda a dignidade que seus 1, 60 metros poderiam conferir-lhe. –Não posso dizer o mesmo, Haradja.
Ela jurara que não conseguiria encarar sua maldita irmã, mas no fim das contas fora muito fácil, até. Talvez estivesse com tanta raiva que não media as consequências. O fato era que, a partir do momento em que ambas ficaram cara-a-cara, as engrenagens do destino começaram lentamente a mudar sua direção.
-Quanta ousadia… tens ideia de sua atual situação? –Haradja descruzou as pernas, e levantou-se de um jeito majestoso, dando alguns passos a frente para alcançar a irmã. A diferença de altura era visível, já que esta era uns bons 15 centímetros maior… quem olha-se as duas, veria nitidamente os traços que compartilhavam, assim como algumas linhas de expressão, mas em matéria de porte, eram opostas.
Haradja era como uma princesa das trevas, terrível, com uma aura negra, mas estava à vontade com a ideia de dominar. Kit, em contraste marcante, uma criança perdida, mas que de alguma forma conseguia força para seguir adiante.
Ela de fato sentia-se uma criança.
-Eu… apenas sei que você irá pagar…
-Acho que irei esmagá-la como um inseto… isso será suficiente para uma grande humilhação. -ela começou a dizer, e adiantou-se para agarrar Kit pelos cabelos, quando esta esquivou e no instinto acertou um belo gancho de esquerda no rosto da irmã. Haradja cambaleou por alguns segundos, realmente surpreendida. O rosto ficou roxo, mas automaticamente aquela aparência foi mudando, voltando ao seu natural. Ela moveu de maneira nauseante a mandíbula, como se estivesse colocando-a no lugar. –Só isso que tens para mim, Campeã?
Certo… Kit por um momento pensou que tinha feito uma grande coisa, até vê-la agir como se nada tivesse acontecido… deveria saber por experiências anteriores que suas ideias nem sempre davam certo.
Quando deu por si, já havia levado um chute tão forte no rosto que foi jogada do outro lado do grande salão, e sabia perfeitamente que em sua face aquela marca ficaria por um bom tempo. A potência foi tão grande que ela sentiu-se zonza e incapaz de se levantar, e quando o conseguiu, foi forçada a ficar no chão por um pé bastante pesado em suas costas.
-Irei ensinar-lhe o significado de ser imortal, sua gata-de-rua… da pior maneira que me vier a mente. -ouviu a sua irmã dizer, e sentiu ser agarrada pelos cabelos negros e levantada, o que doeu muito, já que estava ainda presa pelo pé. Pensou que teria a cabeça arrancada, mas Haradja não estava disposta a mata-la, ainda.
Foi arrastada pelos cabelos, até que finalmente a irmã jogou-a em uma cela fria, provavelmente a mesma em que Iris estava. As barras machucaram ainda mais sua pele, e a cabeça começou a martelar, antes que outro corpo fosse jogado contra ela, fazendo com que batesse a cabeça mais uma vez.
-Hm…
-Desculpe… você está bem?
Era Ken, que numa tentativa estúpida de tentar defender a namorada, acabara sendo também aprisionado. Ela não conseguiu descobrir isso na hora, mesmo quando sentiu uma mão macia em sua face, acariciando seu possível rosto detonado.
-Hm… o quê?
-Perguntei se está bem…
-Acho que ela bateu a cabeça muito forte.
-Será que teve alguma concussão?
-… acho que seu pouco orgulho foi maculado…
Ela ouviu a conversa entre um rapaz e uma mulher, e ainda demorou a entender que se tratava do namorado e de Iris. Abriu os olhos com certa dificuldade, vendo tudo embaçado a sua frente, e lentamente o rosto de Ken ficou visível a seus olhos.
-Mas o que…
-Ah… você ainda vai me matar do coração, sua louca. -ela foi apertada em braços fortes, aquilo era muito reconfortante, menos pelo fato de seu corpo estar dolorido…
-Ken… dói.
-Desculpe, desculpe…
-Tudo bem. -conseguiu expirar em resposta, levando a mão ao rosto, fazendo uma careta. Virou-se para Iris. Ela ainda estava viva… e lhe deu um safanão na cabeça.
-Sua tola! O que esperava ao tentar enfrentar uma imortal com as mãos nuas? Ela podia ter trucidado você. -A semifada argumentou, falando sem dar quase pausa alguma, mas logo a mesma mão que a agrediu acariciou sua cabeça. –Mas fico feliz que tenha vindo por minha causa.
-Er, era o mínimo que eu podia fazer, né?
-Bem, acho que é melhor pensarmos em como sair daqui. -Ken argumentou. Aparentemente nos minutos que Kit havia ficado semi-inconsciente a jaula fora mudada de lugar, e agora estava erguida sobre o salão principal por muitas correntes. Ela se perguntou como tinham feito aquilo tão rápido, mas logo chegou a conclusão que a pancada fora forte o suficiente para ela perder a noção do tempo.
-Imagino que seus talentos sejam inúteis aqui. -ela olhou para o namorado, que negou com a cabeça, confirmando.
-É muito alto, e algo me diz que Haradja não é burra a ponto de deixar-nos sozinhos.
Mas não havia ninguém a vista, por mais que Kit vira-se os olhos… nem sua irmã, nem seus capangas. O que a deixava com um péssimo pressentimento.

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Mitaray e Kira finalmente conseguiram chegar ao local onde haviam deliberadamente deixado o jato. Ambos viram uma cabeça com cabelos cacheados colocar-se para fora e assumir uma expressão nervosa e preocupada, enquanto gritava alguma coisa e descia para ajuda-los. Logo em seu encalço veio Hiei e Sacha.
-Que isso… o que houve com vocês? E os outros?
-História longa. -Kira respondeu a Cloe e deixou que Hiei escorasse o parceiro em seu lugar. Já se sentia completamente dolorida.
-Rapaz, te pegaram de jeito dessa vez, hein? –Hiei alegou, fazendo troça do amigo enquanto o apoiava, o que apenas fez com que este murmurasse algo em resposta, sem muita convicção.
Entraram novamente, e Mitaray foi deitado cautelosamente em um dos bancos, com uma compressa estranha sobre a testa e outra –provavelmente com ervas curativas- em cima de seu ferimento. Agora ele parecia melhor, de fato.
-Um verme.
-Que descuidado você é. -redarguiu Hiei.
-Não irei lembrar-lhe do dia em que resolvestes “pescar” uma serpente marinha. -O enfermo respondeu, e achou por bem fechar os olhos momentaneamente, quem sabe talvez tirar um cochilo.
-Não sei ao certo, pensei que ele ia morrer, mas quando acordou depois do desmaio estava bem melhor. Ainda ferido, mas não correndo risco de morte. se é que me entendem. -Kira moveu rapidamente as mãos, voltando a passa-las pelo pescoço… aquele incomodo persistia, deixando-a incrédula. Ficaria mais ainda depois de Hiei começar a rir.
Como se isso fosse a coisa mais comum do mundo.
-Ahh, não imaginei que Ela fosse intervir em algo assim… que sorte a nossa!
As outras se entreolharam, sem entender absolutamente nada. Vendo que ele não iria explicar de qualquer forma, Cloe suspirou e voltou a olhar Kira. –E os outros?
-Hum… pelo que sei, Crós já havia sumido do grupo quando eles partiram, deve ter ido na frente. –ela deu de ombros. –Kit e Ken seguiram em direção a Torre. Não sei mais depois disso… e vocês, tiveram problemas?
-Um, apenas. Driguem atacou-nos.
A expressão de Kira se transformou em algo realmente assustador. –Aquele maldito esteve aqui? Diga-me onde ele está, vou cortá-lo em pedaços tão pequenos que vai ser impossível encontrar seus restos.
Sacha ergueu uma sobrancelha. –Er... o Hiei mandou-o pelos ares.
A loira moveu rapidamente sua atenção para o colega. –Explodiu ele?
-Não, ele realmente “mandou-o pelos ares”. -Cloe pôs-se a coçar a bochecha.
-Com o bastão… -Foi a justificativa de Hiei, que moveu rapidamente seus braços como se estivesse rebatendo novamente, com um sorriso cínico no rosto.
Kira resmungou algo ininteligível - provavelmente um palavrão - e socou o banco que estava sentada. –Bom trabalho.
-Não tem de quê.
-E quanto aos outros? –Cloe insistiu em perguntar. –Não conseguimos manter contato.

-Acho que estão por conta própria. Mas estão com Iris, e Crós… acho que as probabilidades estão a nosso favor. -a jovem piscou os olhos verdes, amarrou seus longos cabelos negros e olhou para trás, provavelmente dando uma conferida no estado de Mitaray. Ele dormia, parecendo realmente ter achado um resquício de paz.

~Kit Black

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