14 de abr de 2016

Kit Black: Viajantes de mundos.

Oitavo capítulo: Aqueles que acompanham a Morte (parte III).


Mitaray, Hiei e Ézio finalmente estavam de volta ao mundo material, depois de anos de um treinamento puxado. Era chegada à hora de ambos começarem o trabalho para o qual tinham sido forjados. Eles foram ensinados, moldados e testados, e ganharam o acolhimento que necessitavam onde nenhum mortal deveria ir.
A Mitaray foi dada uma foice, uma arma de aparência sombria e letal, que contrastava bastante com sua personalidade atual. Ele crescera e tornara-se o perfeito cavalheiro. Sua arma era a mais afiada, e sua determinação o maior de seus dons.
Hiei ficou com um bastão. Apesar de parecer algo sem valor, ele tinha precisão para atravessar o ponto fraco de seu oponente com muita facilidade. Perdeu sua arrogância e assumiu um bom humor adorável, tornando-se a alma do grupo. Seu dom era a abnegação, seu altruísmo, que o fizera dar a mão a um rival e crescer junto a ele.
Ézio ganhou de sua protetora um tridente. Ele era o mais rápido e célere, e sua personalidade tornou-se esquiva e distante. Tinha o dom da fidelidade, e nunca abandonava quem quer que precisasse de ajuda. Apesar de fechado, era aquele que todos podiam contar, e seu tridente estocava com uma precisão impressionante.
Eles foram instruídos a continuar o treinamento em Diamante, e certo dia conheceram Aragorn, um esgrimista nato, com habilidades fabulosas e um domínio fantástico sobre qualquer tipo de arma... e então, eles retornaram para Vadolfer e se instalaram no templo dele.
Mas eles descobririam que o trabalho não era fácil. Nem um pouco fácil. Monstros modificados vinham surgindo com cada vez mais frequência, e chegavam boatos de um grande mal que se refugiara em Soledad. E com o passar dos meses e anos, houve o primeiro encontro com Gaia, o Capitão dos Esqueletos Vivos.
O embate saiu caro para ambos os lados: o esqueleto amaldiçoado perdeu o seu exército todo, e não havia mais nenhum osso que pudesse usar contra eles. Mas ele não podia ser derrotado, mesmo com as armas da Morte. E os caçadores foram forçados a deixá-lo ir embora.
Ézio foi gravemente ferido na batalha e seu corpo precisou ser mantido em hibernação nos Campos da Morte, onde se encontra até hoje... a sua Mestra olha por ele, dia após dia, a espera que abra seus olhos e possa mais uma vez completar o seu trio de Caçadores.
Ela sabe que essa hora está chegando.

Depois de deixarem seu companheiro sob cuidados especiais, os dois Caçadores que restaram foram atrás de informações concisas sobre o que estava de fato acontecendo. Eles conheceram um elfo de humor ácido, conhecido como Alberich entre os seus, e logo após uma garota baixinha e espevitada, cuja hiperatividade era tão grande que podia gerar uma quantidade enorme de energia, e os olhos pareciam o pôr-do-sol. Haviam encontrado Dayana. E logo, se tornariam amigos chegados da antiga Equipe Black.
O que eles nunca esperariam era que fariam parte dela de fato. E que se envolveriam numa guerra de proporções épicas, que poderia custar muito mais que apenas as suas vidas. Agora, os dois apostam tudo o que tem para não perder seu lar. Para preservar a família que custaram tanto a conseguir novamente, para tornar seus laços inquebráveis. Para manter cada um deles vivo.

    

A noite chegou e a chuva ainda não tinha cessado. Kit abriu os olhos, ouvindo o vento bater contra a janela do seu quarto, e se enroscou ainda mais nos braços protetores de Ken. Estava esfriando consideravelmente. Ela sabia que devia sair dali para poder jantar com os outros, mas estava muito confortável, e quente, e ela podia ficar ali até a manhã seguinte.
Mas decidiu-se finalmente por erguer seu corpo e se desvencilhar dele, que como prometera, dedicara o resto do dia completamente para ela, quando o jogo de cartas chegou a um desacordo tão grande que era melhor parar por ali antes que alguém saísse realmente machucado.
Ouviu-o resmungar alguma coisa em seu sono, e deixou um beijo em sua boca antes de se levantar completamente e colocar a camisa larga novamente sobre o corpo. Foi até o armário e pegou um moletom, que jogou por cima do que estava usando, sem se incomodar se era ainda maior que a camisa, e quase chegava aos joelhos. Pôs os cabelos para trás, olhando-o uma última vez. Ele parecia tão em paz que achou certa a decisão de não acordá-lo. Abriu a porta do quarto com cautela, fechando-a atrás de si e descendo as escadas.
Ao chegar à sala, os outros pareciam ainda mais sonolentos do que ela... perguntou se haveria algum “pó do sono” no ar, mas Salem garantiu que só usava isso quando Iris se recusava a ir dormir depois de sabe-se lá quantas noites acordada. O que fez alguém lembrar que ela ainda não tinha voltado. Nicolas também não estava por perto. Deveria ter retornado ao seu quarto, ou estar nos andares inferiores, cuidando do Olho. A fixação dele para que o artefato ficasse seguro parecia meio fora de propósito, já que a sede era a maior e melhor fortaleza do Reino todo... mas ninguém estava a fim de discutir isso com ele.
Sacha adentrou o local afirmando que a janta estava pronta, o que não aumentou em nada a velocidade dos outros. Eles realmente estavam parecendo zumbis. De alguma forma a comida animou um pouco o grupo, porque a conversa já estava começando novamente.
-Mas sério... por que o Nick e a Iris brigam tanto? –Sacha pergunta, ousando chamar o rapaz pelo apelido e voltando sua atenção para aqueles que os conheciam a mais tempo na mesa, que se resumiam em Crós, Hiei e Mitaray. Eles trocaram olhares entre si, e o segundo resolveu se manifestar.
-Quem sabe... eles se conhecem a anos, desde crianças, creio.
-Desde crianças. Eles são noivos.
Kit sentiu-se engasgar com a almôndega que estava mastigando e precisou virar todo o copo de suco para conseguir respirar novamente. –Noivos? Tipo... noivos?
-Tipo casamento armado. –continuou Crós, levando um dedo aos lábios para demonstrar que o fato não deveria ser citado. –Os pais de ambos concordaram em casá-los quando tivessem idade. Mas os progenitores de Iris morreram, e a mãe de Nicolas também. O pai sumiu... no fim das contas, poderia ter sido desfeito o noivado. –ele continuou, voltando sua atenção para o prato.
-E não foi...? –perguntou Kit, recuperando-se do susto anterior.
-Todos os dois ainda usam as alianças. –argumentou Mitaray dando de ombros. –Não sei o que quer dizer, realmente, depois de tudo... não imagino que...
Deixou a frase no ar por alguns segundos, mas logo desistiu do que ia dizer e levou o copo a boca. Kit ficou tentada a falar algo mais, no entanto decidiu que não tinha nada a ver com isso.
O bipe agudo que reverberou nos ouvidos deles forçou o fim da conversa. Provavelmente era alguma coisa a ser feita, e muitos tiveram que engolir rapidamente a comida para se dirigir a sala dos computadores. Ao adentrá-la, eles chegaram a péssima conclusão que correram a toa. Só havia uma mensagem, provavelmente um fax, a vista, que Kira fez questão de puxar e passar os olhos rapidamente, logo franzindo o cenho.
-Que estranho... não diz nada de relevante.
-O que é?
Ela limpou a garganta e recitou claramente as palavras que Iris endereçara a todos.
-Problemas burocráticos a serem resolvidos... só poderei retornar amanhã, à noite. Todos devem estar reunidos quando eu chegar. Informações de extrema importância. P. S...
Estreitou os olhos para ler o final.
-... Kit Black deve estar presente. Obrigatoriamente.
A jovem sentiu o sangue parar de fluir para os seus membros. O que tinha dado de errado agora? Por que Iris insistia em falar com ela?
Tinha certeza que não era algo bom, e a certeza martelava em sua cabeça segundo a segundo, até mesmo quando se retirou para voltar a seus aposentos, deitando-se e voltando a se enroscar como uma bola. Estava impossibilitando-a de dormir. Mais uma vez, sua noite seria péssima.

~Kit Black

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