21 de abr de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Nono capítulo: Hora de Partir (parte I).


As notícias que chegaram a sede por intermédio de Alberich quando Kit foi se deitar não eram das melhores... aparentemente Haradja estava fechando o cerco. Definitivamente. Mais algumas cidades haviam caído sob o seu domínio, como se fosse uma vingança pessoal contra aqueles que haviam lhe tirado o artefato mais poderoso da Terra uma vez mais. Cassandra deveria ter problemas para lidar com ela.
Ela estava realmente, mas sua superior não estava muito melhor. Apesar de ser o cérebro por trás de tudo, Haradja ainda era uma imortal… e Cassandra era uma Deusa. Uma Deusa Menor, mais ainda assim uma Deusa.
-Sua incompetente, realmente tem a coragem de voltar aqui, mesmo depois de ter sofrido uma derrota tão ridícula?
-Foi apenas um erro de cálculo… –ela respondeu em sua defesa, em seu natural tom calmo e distante.
-Tu fostes mandada para Moon Scy!
É, Crós havia teletransportado-a para a cidade da noite eterna, e ela tivera dificuldade para sair de lá sozinha. Havia vampiros e espectros rondando cada lugar que ia, e por algum motivo que ela ainda desconhecia, Haradja não se dera ao trabalho de infiltrar um espião que fosse dentro da cidade, e muito menos em sua irmã gêmea, Sun Guardian. Ela foi forçada a passar o dia no anonimato, até conseguir um navio que a deixa-se na costa de Soledad.
-Faz diferença para onde ele me mandou?
-É óbvio… és uma Deusa, e deixas-te que um mago de quinta categoria a mandasse pra longe.
-Crós Salem Shadownight não é um mago de quinta categoria… –ela girou a cabeça, mantendo o contato visual com a outra, e por um instante pareceu realmente assustadora.
A outra mulher fez com que seu olhar ficasse ainda mais demoníaco que o normal. Ela agarrou Cassandra pelo rosto, trazendo-a mais para perto… a altura de ambas era parecida, de modo que ela ficava apenas alguns centímetros abaixo da Deusa. E só então começou a falar, com uma voz extremamente ríspida. -Pouco me importa quem ele é ou o que é, e muito menos se os dois têm algum tipo de romance. Estás comigo agora, do meu lado, e eu não fui até seu templo implorar por sua ajuda, tu vieste até mim… então eu acho melhor que a prezada Deusa comece a fazer o seu trabalho!
-A prezada Deusa fará o que tem de ser feito. –foi a resposta dada em um tom melodioso, que fez Haradja automaticamente afrouxar o aperto. –Não se engane… eu não escolhi seu lado pela lógica de seus atos, e não concordo com a maior parte do que está fazendo. E definitivamente, minha senhora, não estou aqui para seguir as suas ordens. –ela retirou a mão da imortal de seu rosto, puxando-a pelo pulso, e logo soltando-o. –Isso aqui é muito maior do que a sua pessoa.
Haradja hesitou por algum tempo, antes de balançar a cabeça rapidamente e partir para o ataque. –Como se houvesse outra causa maior no momento!
-Não nesse momento, mas haverá… –ela lhe deu as costas, começando a caminhar. –Como eu disse, não és o centro do Universo.
-Er… estou atrapalhando…? –Driguem acabara de chegar no salão, olhando de uma para a outra com ares de quem não entende nada. O que cortou o pensamento de Haradja e obviamente a resposta cruel que estava se formando em sua língua.
-O que queres?
-Mensagem de Gaia… Terfina foi tomada com sucesso.
-Ahn, isso é música para os meus ouvidos… –ela lançou um olhar afiado em direção a Cassandra. –Uma BOA música. Logo teremos cercado Farem e a Capital. E quando isso ocorrer…
-…Diamante cairá. –previu o rapaz, com um tom maligno.
A Deusa do Som não fez mais que estreitar os olhos, continuando seu caminho e deixando o aposento, rumando pelos corredores escuros da Torre.
Ou talvez não…”
   
Kit…
Ela estava sonhando… estava fugindo de alguma coisa, algo que a perseguia sem cessar, mas por mais que se voltasse nunca havia nada atrás de si. Era mais como uma presença, que lhe causava urgência suficiente no peito para forçá-la a correr.
Kit…
Ignorou a voz em sua cabeça e impulsionou suas pernas para frente. Erguendo seus olhos para o lugar em que estava, podia ver uma terra estéril e negra, com árvores retorcidas bloqueando o caminho. Mais ao longe, havia o que parecia um vulcão, igualmente negro, com lava escorrendo por sua cratera, o que achou estranho. Era outra certeza imbecil, porque ela não conhecia aquele lugar, nunca estivera ali. Mas sabia que aquele vulcão, estando onde estivesse, não deveria estar ativo.
Kit…
Ela tropeçou, e sentiu que rolava pelo chão, machucando seu corpo. E uma escuridão se abateu tão subitamente sobre ela que mal podia enxergar… e só então conseguiu focar-se na voz que continuava a chamá-la, incessantemente. Embora tivesse tirado-a do pesadelo, não estava com disposição para falar com ela.
Eu não quero conversar, me deixe dormir.”
Infelizmente você não pode. Não mais.”
“…”
Tentou abrir seus olhos, sem muito sucesso… não, na realidade eles estavam bem abertos, mas ela não enxergava nem um palmo a frente do seu nariz. Levou a mão à frente do rosto para ter certeza. A menos que tivesse ficado cega durante o tempo que dormira, a sede estava mais escura que seu normal. Ela tateou até procurar o abajur do seu lado da cama, puxando a cordinha para acendê-lo. Sem resultado.
Levantou-se, com cuidado, tentando não bater em nada. Tateou a parede até achar o lugar onde deveria ficar o interruptor, apertando-o. Nada… não era possível que a fortaleza estivesse sem luz. Sua mão desceu até a maçaneta, girando-a e abrindo a porta, passando através do corredor. Só então reparou que estava transformada, quando passou os dedos pelos cabelos com uma angustia crescente. As orelhas levantaram de imediato, ouvindo um som a sua esquerda. Sem saber exatamente o que encontraria, tentou materializar uma faca, mas seus poderes negaram-se a si mesmos, e o máximo que conseguiu foi o que parecia, pelo tato, ser uma pequena espátula.
-Mas que diabos…
-Kit?
Ela ergueu sua atenção a sua frente, tateando a procura do dono da voz, até o encontrar. Agarrou-o tão forte que os dois quase foram ao chão. –Ken… ainda bem que está aqui.
-Sim, eu estou, mas… o que está acontecendo?
Ela movimentou a cabeça, sabendo de antemão que a ação não poderia ser vista. –Eu não sei, a voz me acordou.
Sentiu-o fazer um carinho delicado em suas orelhas, o que ativou inconscientemente seu instinto de ronronar. –Aquela voz?
-A própria.
-Pensei que não a escuta-se mais, você não falou sobre isso de novo.
-Ela ficou um tempo sem aparecer. Mas hoje me acordou, e quando abri os olhos não enxergava nada.
-Incrível como consegue ser conveniente.
-Ou não… e você?
-Não consegui dormir. Ia pegar um pouco de ar. –ela sabia que ele estava pensando antes de continuar. –Talvez ver você...
-Hum, acho melhor deixarmos essa conversa pra depois.
-Verdade. Consegue acender alguma luz?
-Não. Provavelmente vai virar algo inútil se eu tentar. –ela contou em poucas palavras o acontecimento da espátula, que colocou na mão dele logo após. –Não podemos ir em direção as escadas, vai ser impossível descer nessa escuridão sem cairmos.
-E se procurarmos os outros?
-Devem estar dormindo… e se não estiverem, vão nos encontrar. –ela estava começando a dizer quando sentiu o corpo dele ficar mais pesado, e no instante seguinte ela tinha que abaixar junto do mesmo para que ele não fosse ao chão. –Ken…?
Ele não respondeu. A mão dela apalpou de modo desesperado todo o seu corpo, como se espera-se encontrar algum ferimento, mas não havia nada… então sua voz chegou fraca a seus ouvidos.
-Kit… eu sinto muito, mas não vou conseguir ficar com você.
-O que? Por quê? O que está sentindo!?
-Eu apenas vou dormir… okay?
-Você não pode simplesmente dormir e me deixar aqui! –ela o sacudiu. –Ken, por favor…
-Desculpe…
Sacudiu-o novamente, mas foi inútil. Ela já conseguia ouvi-lo ressonar, e sabia que estava sozinha desta vez. Sabendo que continuar a tentar despertá-lo não levaria a nada, puxou delicadamente seu corpo para um canto, deixando-o escorado numa das paredes, e com cuidado para não pisá-lo, fez o caminho inverso, usando a parede do corredor de guia. O silêncio a incomodava. Aquela escuridão também, e mais que o resto. Parecia estar viva.
Kit chegou ao final do corredor, e parou. As escadas para os andares inferiores estavam ali, assim como a do terceiro andar. Ela decidiu subir. Com cuidado redobrado, sua mão ia acompanhando o corrimão e seus pés moviam-se um pouco de cada vez, tocando o degrau seguinte com os dedos antes de subi-lo. E assim, de modo lento, ela chegou ao andar seguinte, mais uma vez apoiando-se nas paredes. Ela tinha uma ideia de que a caixa de força ficava ali em algum lugar, mas não conseguia se guiar até ela. Quando conseguiu finalmente alcançá-la e tentou religar, nada aconteceu. Ela suspirou de modo pesado, encostando o corpo na parede oposta e deixando-o escorregar até o chão.
Sentia-se como uma criancinha com medo, depois de um blecaute. A diferença é que a criança não estava sozinha, e logo viria alguém com uma vela acesa e algumas histórias, e a aninharia e diria que estava tudo bem.
Ela sabia que não haveria luz ou um abraço protetor. E ela não era mais uma criança.
Abraçou os joelhos, abaixando a cabeça para tocá-los e respirou profundamente.
Está tudo bem, deve ser apenas um erro no sistema de força.”
Você sabe muito bem que não é”
Por um minuto, Kit esteve feliz por ter uma voz esquisita em sua cabeça.
É… eu sei.”
Imagina o que é isso tudo?”
Não, mas bem que eu queria.”
Não se preocupe, eu lhe mostrarei.”
Você?”
Sim… eu. Acho que já está mais do que na hora.”
De dentro de seu corpo encolhido, ela viu que começava a surgir uma luz… esta foi se destacando dela, aumentando cada vez mais de intensidade, até tomar forma diante de seus olhos, e agora ela conseguia enxergar a sua forma real. Era uma dama branca. Tudo nela resplandecia, desde os cabelos loiros até os olhos de cor esbranquiçada, e as vestes, igualmente claras. E então ela soube quem era: a visão que tivera tanto tempo atrás, na véspera do dia da sua morte. A dama na janela…
-Você é um anjo?
Sim, ela sabia o quão bizarra era aquela pergunta, mas não conseguiu evitar. A ideia de anjos não entrava em sua cabeça. Não havia uma razão para isso… embora acredita-se e tivesse visto um milhão de coisas desde que cruzara as fronteiras daquele mundo, e talvez até antes disso, ela não conseguia entender o conceito de anjo.
Anjos são responsáveis por cuidar dos humanos, ouvira dizer. Mas ela não se sentia protegida por um. Ela morrera… os pais de Ken e Sacha morreram da pior forma possível. A mãe de Cloe também, e até mesmo de Nicolas. E os pais de Iris. E a antiga Equipe Black. E mais um monte de gente que não sabia e nem conhecia, mas que deveria sofrer com os avanços da sua irmã paranoica.
E com tantas pessoas padecendo, onde estariam os anjos?
No momento atual de sua vida, só via duas opções: ou eles não existiam, ou não se importavam. E imaginar que uma horda de seres, que necessariamente deveriam ser bons, não se importavam, era doloroso demais. Então preferia apenas crer que não existiam.
-Um anjo, eu? –ela deu uma risada doce. –Não, de forma alguma.
-Ahh. –desviou os olhos para o lado. –E… então quem é você?
-Ainda não descobriu? –ela recostou-se na parede, fitando Kit, que ainda estava sentada no chão. –Uma pena. É uma garota tão inteligente… um pouco inocente, claro, mas…
-Sei… –a garota cortou, sentindo-se sem saber porque encabulada com a situação. –Eu tenho de descobrir sozinha?
-Seria interessante algo assim. Pense.
Kit mordeu o lábio inferior, piscando os olhos, e num instante, um pensamento lhe ocorreu.
-Luz… você é a luz… uma das pedras? Aquelas que eu tinha de juntar? –ao ver que a dama assentia com um sorriso, ela continuou. –Mas, por quê? Por que estava comigo esse tempo todo?
-Você era incapaz de lidar com certas coisas sozinha… por isso eu a procurei, para lhe trazer a minha benção.
-Mas você é parte dela, deveria estar com ela, não?
-Não exatamente. Quando um imortal nasce são criadas pedras para aprisioná-lo… essa é a lei, para manter o equilíbrio, porque eles não podem morrer. Não há um padrão de quantidade ou qualidade. Algumas, como eu, são autossuficientes e outras não. O que quero dizer é que minha personalidade só estará ligada a ela quando estiver presa, e isso ainda não ocorreu. –ela inclinou a cabeça, fazendo os cabelos caírem sobre seus olhos. –E além do mais, foi-se o tempo que ela podia me escutar. Então eu tive de me afastar, e acabei chegando até você, em outra dimensão, muito longe para calcular. Mas a encontrei…
Ela tocou o rosto de Kit com a ponta do indicador. –A pequena Kit…
A jovem sentiu por um instante que toda aquela escuridão havia se dissipado, como se as coisas resolvessem de fato dar certo dessa vez, só com a simples presença da dama a sua frente… mas durou apenas um instante.
-Eu fico feliz em saber que se deu a este trabalho, mas… não poderia me explicar o que está acontecendo aqui? É urgente. SE a energia não voltar, pode haver uma invasão.
-Sinto informar, isso não é uma queda de energia.
-Não? –ela arqueou as sobrancelhas.
-Não… é uma outra força. Minha outra metade.
A mulher olhou por cima dos ombros, como se esperasse que algo aparecesse ali.
-É obra de uma…
-Sim. E minha amada irmã tem uma péssima personalidade, para não dizer um senso de humor negro. –fez um esgar, erguendo a mão para ajudar Kit a se levantar. –Aparentemente ela está usando uma redoma de escuridão.
-Com que finalidade? –a jovem se levantou e ajeitou-se, olhando para além do corredor por onde havia vindo.
-Me encontrar. Darkness está me procurando, talvez por um longo, longo tempo…
Kit preferiu manter-se em silêncio e utilizou-se da Luz que sua companheira irradiava para se guiar, logo chegando as escadas. Se preparou para descer, ainda com cuidado. A dama só iluminava uma área pequena ao seu redor, e ela tinha que cuidar para ficar nesse local, ou cairia. Quando voltou para o segundo andar, conseguiu sentir uma presença opressora vinda do lado oposto do corredor. Embora não pudesse ver nada físico, ela sabia que existia alguma coisa ali. A escuridão parecia se adensar ainda mais naquela região, e depois de focar sua atenção completamente lá, conseguiu divisar que esta se juntava, começando a tomar forma.
Um par de pernas surgiu, assim como um quadril, tronco, ombros e face. A fisionomia era semelhante à de Luz, mas as diferenças de gosto eram gritantes. As roupas eram completamente negras, assim como os cabelos e os olhos. Apenas a pele era clara, o que dava um contraste impressionante. A expressão era sisuda, o tipo que faria uma pessoa pensar duas vezes antes de sequer olhar para sua dona. Os olhos eram tão incisivos que causavam calafrios na espinha. Quando estes cravaram em Kit, a garota pensou que ia ser cortada ao meio só com aquele olhar.
-Light…
-Darkness…
-Francamente, minha irmã…
-Espere. –a outra ergueu uma mão para silenciá-la, o que fez com que a careta de desgosto ficasse ainda mais intensa. –Não quer saber o que houve antes de começar a me julgar?
-Quer que eu seja sincera ou simpática?
Light revirou os olhos, clamando por paciência. –Ah… como és impossível de se lidar, às vezes…
Kit pensou que ela seria difícil de lidar sempre, mas não fez essa afirmação para que ambas pudessem ouvi-la.
-Eu “nasci” assim… como tu nasceste com um coração mole de manteiga derretida.
-Não é hora para esse tipo de briga. Desfaça a redoma.
-Não irei.
A dama de branco ergueu uma sobrancelha. –Como não? Não querias me encontrar? Aqui estou.
-E achas que será simples assim? Abandonou-me para ficar vagando pelo Mundo Real, aquele lugarzinho atrasado e corrompido, e para guardar a garota que é a inimiga declarada de nossa senhora. Não, Light… não vim aqui apenas para procurá-la… eu irei puni-la.
A aparência de calma que ela transmitia mudou-se para algo que beirava o sarcasmo. –Oh, sério? E pretende fazer isso como?
-Do jeito que faço melhor… irei apagá-la. –ela fez um sinal abrangente com um dos dedos e uma onda de escuridão se voltou contra as outras duas, deixando-as eclipsadas por algum tempo antes que uma centelha de luz irradia-se, começando a se espalhar novamente.
-Kit… não posso deixar que se intrometa.
-Er… mas não havia algo como juntar as pedras e coisa e tal…
-Acontece que isso é pessoal. –ela focou os olhos esbranquiçados na irmã. –Não é verdade?
-Tirou as palavras de minha boca.
A garota olhou de uma para a outra e sabiamente afastou-se alguns passos. –Se prefere assim.
-Muito compreensível da sua parte, por isso gosto de ti.
-Gostas de todo mundo, irmã. Mas vou fazer com que aprenda que nem todos são boa companhia.
-Estou esperando para ver.
Aos olhos de Kit, foi difícil entender o que aconteceu depois que Light proferiu aquelas palavras. Houve uma série de ondulações na claridade do lugar, tornando-se quase nula e logo após aumentando de maneira espantosa. A energia liberada era tão intensa que fazia a matéria vibrar. Ela teve de se encostar a parede para manter-se equilibrada, já que a pressão súbita afetava seus ouvidos. Era a mesma sensação de surdez que uma pessoa tem ao subir ou descer uma montanha. E não era das mais agradáveis.
Light e Darkness pareciam alheias ao estrago que estavam prestes a causar. Ambas as forças se moldavam de forma criativa, prendendo, quebrando e rechaçando. Um escudo fora criado para repelir uma chuva de espinhos negros. Um emaranhado de correntes foi designado a impedir a trajetória de uma lança de luz, e a impressão que se tinha era que estavam apenas se aquecendo.
Mas Darkness estava disposta a terminar as coisas o mais rápido possível. E sua rival não queria que a escuridão causasse efeitos colaterais nos humanos que estavam por perto. A dama branca empunhou sua lança com maestria, fazendo-a bater contra a muralha de espinhos que a irmã conjurara. –Já chega.
-Nós nem começamos.
-Eu digo que é melhor terminarmos por agora, enquanto ambas estamos inteiras.
-Ah, que bobagem! –a outra protestou, erguendo a barreira e lançando-a em um ataque preciso, que pareceu pegar momentaneamente sua irmã de surpresa. Seu brilho quase se apagou por muito tempo desta vez. Por tanto que Kit achou que iria ter de brigar para fazer a escuridão voltar a ser uma boa e imóvel pedrinha. Os olhos negros vasculharam o ponto de luz a distância, tentando compreender a extensão do que ela acabara de fazer… antes que um súbito clarão a cegasse momentaneamente, e amarras fortes envolvessem seu corpo. Sua reação foi acusar a outra, embora seus braços estivessem presos o que a impossibilitava de apontar um dedo inquisidor a Light. –Sua trapaceira!
-Quem, eu? –ela levou uma mão ao coração, voltando a sua expressão serena. –Eu não trapaceei. Eu já lhe disse há muitos anos… a escuridão é a ausência da luz. E estou perfeitamente presente no momento. A noite pode ser sua aliada, mas ainda existe uma lua lá fora.
De fato, uma tênue coluna luminosa tinha rompido a barreira de sombras, passando através de uma janela no fim do corredor. A visão fez Darkness trincar seus dentes. A chuva havia cessado, e o céu abrira. Quem chegasse do lado de fora veria um firmamento pontilhado de estrelas.
-Até a Lua se apaga em um eclipse… até mesmo o Sol é tomado pela escuridão. E muitas das estrelas que olham para nós já estão mortas.
-Nem tudo pode morrer.
-Ah, pode sim. No entanto, a coisa que pode ceifar qualquer vida está muito longe para ser alcançada…
-Então deveríamos parar de falar nela. Vamos, irmã… renda-se.
Darkness apenas mordeu os lábios uma vez mais. –Como pôde? Logo vós: a santa e perfeita Luz. Eu esperava que todas as outras se revoltassem, menos vós.
-Não havia nada que eu pudesse fazer.
-Ela era boa! Cuidava de nós, apesar de sermos sua futura prisão. Você a abandonou! –ela estava tão transtornada que o seu ar formal se perdeu completamente.
-Eu apenas escolhi um caminho diferente. –Light desviou seus olhos para a janela. –Logo todas nós estaremos juntas de novo.
-Então é isso… –sua voz tornou-se um sussurro.
-Exato. Todos tem de pagar por seus erros. Cedo ou tarde. –Ela estendeu uma mão para a irmã, fazendo as amarras sumirem. Pouco a pouco a barreira foi se desfazendo, até que as pequenas e fracas luzes que ficavam nas paredes do longo corredor voltaram a ficar visíveis. –Venha. Vamos nos reencontrar com as outras… não há mais nada para ser feito aqui, por enquanto.
A dama negra fez um aceno sutil com a cabeça, olhando enviesado para Kit. –Espero que saiba usar-nos muito bem, garota-gato. Se não fizer isso eu volto para termos uma conversa. A sós… –um brilho letal passou pelos seus olhos, e a garota estremeceu ao vê-la se transformar numa fumaça negra e espessa, que foi se condensando e moldando-se, até se transformar em algo muito pequeno, que Light apanhou entre os dedos.
-Creio que isso deva ficar contigo. –ela visualizou a coisa por alguns segundos, antes de colocá-la nas mãos de sua protegida com todo o cuidado. Era uma ametista bem trabalhada e talhada, mas que ao entrar em contato com sua pele de repente ficara bastante pesada. O que era ilógico até demais. Parecia que nem em formato de pedra Darkness gostava dela. Decidiu que iria colocá-la na caixa com as outras o quanto antes.
-Muito obrigada mesmo… não sei se conseguiria sozinha.
A dama coçou o queixo. –Eu imagino que não nesse exato momento, mas quem sabe um dia. –Ela voltou a abaixar o corpo e tocou os cabelos da garota com os dedos, fazendo um afago. –Está destinada a ser uma grande campeã, pequena: a melhor entre as melhores. Porém ainda há um longo caminho a percorrer. E sinto dizer-lhe, eu não poderei mais acompanhá-la.
Kit engoliu em seco. –Por quê? Eu preciso de você… me ajudou com tanta coisa, eu não teria feito metade do que eu fiz sem a sua proteção.
-Acho que teria… pelo menos uma parte. –ela sorriu. –Já cresceu, Kit. Não precisa mais dos meus conselhos. E eu tenho uma irmã com o orgulho ferido para cuidar. Devo isso a ela.
A jovem se sentiu subitamente culpada por aquela situação toda. –Sinto muito. Não era minha intenção causar isso.
-Não se preocupe. Darkness é teimosa, mas um tempo esfriando a cabeça fará com que entenda melhor as coisas. –ela piscou, e seu corpo também começou a se transformar. –A propósito, haverá de encontrar alguém muito importante para sua vida. Tão próximo e tão distante. Antes de encontrar minha última irmã, saberás de tudo…
-De tudo o que? Quem?
-É um segredo… um segredo guardado no futuro. Selado a sete chaves. O que o tornará algo bom ou ruim, será apenas uma simples escolha sua. –seu rosto se dispersou por último, deixando apenas uma frase no ar, e um diamante lapidado e incrivelmente leve em suas mãos. –Boa sorte, Kit Black. As estrelas mostrarão seu caminho.
Kit foi sentindo um nó se formar em sua garganta, assim como uma sensação de incompletude. Tanto tempo acostumada a ouvir os conselhos de Light, suas andanças dentro de sua mente, que imaginar viver sem isso era melancólico. Ela balançou a cabeça para afastar tais pensamentos e segurou com mais força ambas as pedras. –Obrigada… por tudo.
-Kit? –ela levantou seus olhos para ver quem a chamava e deparou-se com Ken, que em questão de segundos cruzou a distância entre ambos e a pegou nos braços, fazendo-a rodopiar. –Ah… minha pequena gatinha. Você está bem? –houve um momento ainda em que ele parou para observá-la de cima a baixo, esperando encontrar algum ferimento, mas ao ver que ela estava intacta um suspiro escapou de seus lábios. –Que bom que não se machucou…
-Não, não me machuquei. –ela abriu um sorriso e o abraçou com um pouco mais de força. –Está tudo bem.
-Acordei no meio do corredor, me sinto péssimo por tê-la deixado sozinha.
-Não se preocupe. Acho que não conseguiria ficar desperto mesmo… era Darkness que controlava a escuridão.
-Quem?
-Uma das pedras… –ela ergueu a mão direita, onde mantinha em segurança tanto a ametista quanto o diamante, e a abriu apenas o suficiente para que ele pudesse ver. –E a voz… era a Luz. Sempre foi.
-Espera, tinha uma pedra com você o tempo todo?
-Incrível né?
-Ainda estou tentando entender se tem muita sorte ou muito azar, Kit.
Ela riu por algum tempo segurando a mão dele com a esquerda. Tinha toda a razão em dizer aquilo. Rodopiou em frente a ele por algum tempo antes de parar.
-Agora sei que as coisas podem mesmo acabar bem, sabe?
-Fico feliz em saber, baixinha. –ele plantou um beijo em sua testa. –Precisa descansar, deve ter sido estressante para você.
-Fica comigo essa noite?
Ele franziu o cenho, afagando as orelhinhas de gato. –Tem certeza?
-Absoluta. –Kit puxou-o delicadamente pela mão. –Quero ficar com você. Tudo bem?
-Tudo para te ver sorrir amanhã. –deixou-se ser levado, logo adentrando o quarto e fechando a porta atrás de si. 

~Kit Black 

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