18 de fev de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Sexto capítulo: A Lady Infernal (parte V).


Os prisioneiros levantaram-se quase ao mesmo tempo ao ouvir ruídos vindos de baixo. Ken havia tentado escapar da sela, sem muito sucesso. Kit não conseguia pensar em nada muito efetivo, e Iris parecia igualmente impossibilitada de fazer algo para escapar. Foi nesse pé que viram um rapaz entrar mancando no salão, seguido de perto por Haradja.
-De fato, és realmente um inútil… como conseguistes perder tão descaradamente para três mortais? Eu enviei uma tropa inteira contigo.
O rapaz, de aparência comum e nada especial, ainda mancava. Havia alguns arranhões, e ele havia tirado a parte de cima da roupa de caçador, deixando a mostra um hematoma enorme que atravessava seu abdome. Uma das pernas estava com um ângulo estranho, provavelmente havia quebrado ou torcido na queda. Driguem não estava nada feliz com isso. Postou-se sentado em uma cadeira, e com as próprias mãos colocou sua perna na direção correta, o que fez levantar a voz em um grito estrangulado e aqueles que estavam presos terem a inevitável reação de enjoo, misturado com surpresa e uma boa dose de ódio acumulado.
-Não pude fazer nada… um dos caçadores estava com eles.
-O ceifador?
-Não… o que usa um bastão, não é óbvio? –ele apontou para o hematoma.
-Dobre a língua ao falar comigo, ser miserável, ou farei com que rasteje.
Ela forçou a cabeça de Driguem para baixo, e depois lançou seu olhar sombrio sobre a jaula, que ainda chacoalhava no ar. –Imagino que queiram ter um ajuste de contas com esta criatura, certo?
O rapaz tentou sem muito sucesso virar a cabeça. –Presos como ratos… o quão baixo vocês todos chegaram...
Haradja largou-o, já que o claro objetivo de estressar ambos os lados havia fracassado. –Que seja… eu pensei em deixa-los para ti, mas ao ver seu desempenho, julguei que seria melhor cuidar eu mesma disso. -ela estalou um dos dedos, e deu passos para trás. Uma circunferência foi abrindo-se no chão, grande o suficiente para engolir a jaula, e, para aqueles que estavam lá em cima, parecia obvio o que a inimiga queria: um cheiro de enxofre subiu aos seus narizes, e Kit ficou um tom mais pálida do que já estava.
-Ácido sulfúrico…
-O que? Não pode deixar pelo menos o garoto para mim?
-Não… tu tiveste a chance de provar, e foi insuficiente. Mas não precisa preocupar-se, meu caro… quando seu desafeto se desfizer, lhe oferecerei seus ossos.
Driguem fez uma careta que deixava a vista seu descontentamento, mas não ousou rebelar-se… viu as correntes que prendiam a gaiola serem içadas, e logo fazer o caminho inverso.
Kit prendeu seus dedos, segurando as barras, como se quisesse testar mais uma vez sua força. –Aquela covarde…
-Temos que sair daqui, antes que seja tarde demais… -Ken por sua vez chutou um dos cantos, sem sucesso algum.
Iris levantou-se, mantendo o equilíbrio e optando pela psicologia reversa. –Hei… -ela gritou, por sobre o barulho irritante das correntes se movendo. –Haradja, sua covarde… por que não vem enfrentar a gente cara a cara?
Sua rival apenas levantou uma sobrancelha. –Porque eu quero vê-los sofrer… quero a prova.
-Que raios de prova?? –a semifada voltou a protestar.
-A prova de que eu não cairei… e para eu tê-la, preciso destruir qualquer rastro de minha pequena irmã caçula.
-E o que diabos eu fiz para você me odiar tanto, hein? Dá para explicar? O porquê disso tudo?-Era a própria Kit que havia segurado as barras, levantando seu olhar para encarar a irmã.
-Tu nasceste. E, quanto a mim… -jogou os cabelos negros para trás, abrindo um largo e sádico sorriso. -… não vejo motivos para poupá-la. Uma mestiça, deplorável… manchas o nome de nossa família.
-Tudo isso por causa de laços familiares, você é tão ridícula a este ponto?
-Ridícula… chama-me por isso, mas quem de nós duas é mais patética e digna de pena? Pois pelo que me consta, Kit, tu vieste a este mundo, sem maiores explicações, sem nem ao menos ter a ideia do que estava a enfrentar… foi tola, uma manipulada. Um infortúnio é que vais morrer sem saber por quem, ou como...
Ela levantou mais o braço, e a gaiola chacoalhou mais uma vez… as correntes estavam sendo cortadas, e ela pendeu perigosamente para a esquerda, fazendo com que os três prisioneiros se amontoassem daquele lado. Já estavam perto o suficiente para que as bolhas que subiam do compartimento abaixo roçassem nas beiradas de sua prisão, corroendo-as de modo lento. Ken jogou o corpo para trás, tirando um pouco do peso daquela ponta, mas o estrago já estava feito: as correntes não iriam aguentar por muito tempo.
-Oh… droga!
Os três sentiram um peso extra cair por sobre a gaiola, e realmente pensaram que era o fim, antes que ouvissem uma praga de Haradja e uma voz conhecida que chegava deste local. –Milady Infernal…
-Mago infeliz, saia daí!
-Hum, sinto muito ter que informar, mas não vou poder acatar a esta ordem.
Ele deu de ombros e começou a murmurar um feitiço.
-Crós… não se atreva!
-Prepare-se para o grande truque, milady… -ele abriu um sorriso afetado, jogando seu capuz para trás, e no minuto seguinte ele, a jaula e todos os seus ocupantes haviam desaparecido. Haradja ficou um bom tempo olhando para o espaço vazio, fechando as mãos em um estado alto de cólera reprimida.
-Crós Salem Shadownigth, haverás de pagar por isso! –voltou-se num rompante, espumando de ódio para olhar Driguem. –Volte ao jato com toda a tropa e traga-os para mim. Não deixe que ninguém escape!
-S-sim, minha senhora…

   

Eles sentiram a jaula bater com força em alguma estrutura sólida, e num minuto seguinte ela já estava rolando. A gravidade parecia realmente estar funcionando, e os três muitas vezes se enrolavam, batiam e xingavam, numa confusão tremenda. Quando finalmente a jaula parou, numa área plana, ouviu-se um chiado baixo e uma voz familiar reclamar algo como…
-SALEM! Tá tentando nos matar!?
O mago voltou a aparecer sobre as armações de metal, cortando-as uma por uma e no final retirando a parte de cima. Um segundo depois levava um tabefe de Iris.
-Já disse um milhão de vezes para você melhorar sua técnica de teletransporte!
-Ai… eu sei, eu sei… -passava a mão pela cabeça, onde crescia um galo entre as orelhas de gato. –Mas pelo menos estão a salvo.
Ken, que mostrava uma expressão esverdeada, provavelmente pronto para colocar a janta para fora, conseguiu murmurar uma pergunta simples: -Onde… nós estamos?
-A julgar pela estrutura… estamos em algum lugar de Vadolfer.
-Ah, claro, algum lugar… -Kit resmungou num tom mais baixo, tentando imitar a voz de Crós. –Nosso herói! Como voltamos agora?
-Olhem pelo lado positivo, tirei-os de lá, não foi? –ele parecia chateado.
-Okay, okay… bom trabalho, feiticeiro. -Iris deu uma pancadinha camarada no ombro dele e Kit preferiu apenas mostrar o polegar em sinal de positivo. Ken estava ocupado no momento.
-Er… precisamos avisar os outros, estamos fora de perigo, mas eles não…
-De fato. Alguém ainda tem um comunicador? –Crós olhou em volta. Kit tentou fuxicar em um de seus bolsos e entregou um a ele. Um segundo após, a ligação estava sendo completada.

   

Cloe atendeu rapidamente, afinal já estava com os nervos a flor da pele.
-Onde vocês estão?
-Precisam sair dai, já!
-Mas por quê? O que aconteceu? –ela viu com o canto dos olhos Kira chegar mais perto para ouvir.
-Conseguimos resgatar Iris. -e Cloe conseguiu divisar a tal do outro lado pela telinha do comunicador. –Mas estamos em Vadolfer.
-Er… por que estão ai?
-Porque esse gênio não sabe fazer um feitiço de teleporte que dê certo! –ouviu a fada dizer, enquanto Crós continuava. –História longa… partam agora, Haradja já deve ter mandado as tropas para detê-los.
-Farei isso. Desligando.
A garota fechou o comunicador e passou as instruções adiante com curtas palavras. Hiei retornou ao lugar de piloto e preparou-se para partir.
-Perai, vamos mesmo fugir? –Kira protestou.
-Não, só vamos nos retirar estrategicamente. –O rapaz respondeu, e logo o motor foi ligado, e o jato deixou a areia.
-De onde eu venho isso é um jeito menos humilhante de dizer que estamos fugindo. -argumentou Cloe, erguendo uma sobrancelha.
-Você é muito metódica, Cloe, precisa relaxar.
A jovem revirou os olhos, sem dizer nada. A ultima coisa que divisou foi uma hoste de demônios se aproximando do local onde o jato se encontrava, tarde demais para impedir que fossem embora. Algo em seu intimo avisou que não iria topar com aqueles lá de novo.

   

Enquanto os grupos menores se deslocavam tentando voltar a Sede Black, uma moto cruzava as estradas da fronteira com o deserto de Soledad, levantando poeira… seu ocupante deu uma guinada para a esquerda e ouviu um sinal de ligação, o que forçou-o a diminuir a velocidade para poder atender… num movimento rápido levou a mão direita ao ouvido onde havia um aparelho de comunicação, e a motocicleta mais uma vez guinou perigosamente para um dos lados. O rapaz restabeleceu o equilíbrio antes de conseguir responder a chamada.
-Diga…
-Nicolas, eu sabia que iria fazer algo assim.
-Mestre… podias ter me parado com muita facilidade.
Ele apenas ouviu um riso calmo do outro lado da linha.
-Queria ver até onde sua insistência iria levá-lo, mas podes retornar. Já fomos contatados, a missão de resgate foi… quase um sucesso.
A moto parou quase de imediato, talvez ele tivesse a impressão de que se não parasse iria acabar enfiado em alguma vala.
-O que quer dizer com “quase?”.
-Acalme-se, estão todos bem… menos Haradja. Creio que talvez o orgulho da mesma tenha sido maculado, perdeu os prisioneiros debaixo do próprio nariz. Agora Iris e os outros estão se preparando para retornar.
Nicolas preferiu perguntar os detalhes quando chegasse lá, e mais uma vez deu partida na moto, fazendo-a dar uma volta e afastar-se pelo mesmo caminho que viera.
-Agradeço pelo aviso, de toda forma.
-Era o mínimo… volte logo, já estão perguntando sobre seu paradeiro.
-Estou a caminho.

A chamada foi desligada e ele acelerou. Sem uma luva de couro para esconder as suas mãos, já que deixara o Palácio correndo praticamente, podia divisar o anel em seu dedo anular da mão esquerda, uma joia sutil, simbólica… ele abriu um sorriso para si mesmo, os pensamentos um pouco atordoados. Respirou profundamente, mantendo o controle. Afinal, ela estava viva… e isso já era um motivo para ficar feliz por algum tempo.


~Kit Black

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