19 de fev de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Sétimo capítulo: Silêncio que Consome (parte I).


Booom…
Seria a primeira coisa a se ouvir para quem adentrasse a sede Black naquela manhã de segunda-feira.
Kit desceu as escadas que chegavam do laboratório parecendo que havia participado de um filme dos Smurfs. Seu cabelo tinha tomado uma coloração azul forte, e ela tentava rapidamente tirar as manchas que haviam ficado em seu rosto, no mesmo tom.
-Você tem certeza que esse troço vai sair, não é?
-Ahn… claro…
O mago vinha descendo logo atrás, com uma careta de não-tenho-tanta-certeza-assim estampada no rosto, e entregando paninhos úmidos para Kit vez ou outra. Ela parecia conseguir tirar o azul do rosto, mas não se tinha tanta certeza assim que seu cabelo retornaria a cor normal.
-Smurfete!!! –uma vozinha familiar chegou a seus ouvidos e ela deu de cara com Sacha zombando de sua cara.
-Haha... engraçadinha.
-Kit, você já... –Cloe também chegava de outro canto da mansão, e parou imediatamente ao ver o estado da amiga. -...por que está azul?
-A poção explodiu, para variar. Vou tomar um banho antes que isso grude permanentemente em mim. –fazia uma careta de poucos amigos (o próximo que perguntasse receberia uma resposta muito malcriada) e voltou a subir as escadas, agora do lado oposto, em busca de um banheiro. No caminho quase tropeçou naquele dragão que resgatara dias atrás, e precisou dar um milhão de pedidos de desculpas e carícias para convencê-lo a não torrar o seu pé.
-Oh... se isso não sair ela vai ficar possessa.
-Acho que já está.
-Só espero que não espalhe pra o resto do corpo... –Coçou a cabeça, enquanto tentava capturar o dragão para mais uma de suas pesquisas de comportamento. Estranhamente, ele ainda não tentara machucá-la. Ao embrulhá-lo em seu casaco, quase tomou um susto ao ver uma mão surgir do outro lado do sofá e agarrar o bicho, puxando-o para lá. Ela se aproximou o suficiente para ver fios acinzentados de cabelo e um corpo esguio, que deixava o dragão se enrolar sobre o seu abdômen, pronto para tirar uma soneca.
-Mitaray... você leva a sutileza a um outro nível.
-Hum? –ele levantou seus olhos para ela. –Impressão sua, senhorita. Aliás... creio que seja melhor avisar à Kit que o azul de seu cabelo não vai sumir.
Franzia o cenho, mas preferiu não perguntar o porquê. Ao ver que havia perdido sua “cobaia”, sentou-se no outro sofá e abriu uma revista de passatempos, terminando uma palavra-cruzada já pela metade. Sem tirar os olhos do que estava fazendo, resolveu reiniciar o diálogo: -Eu estava lendo uma lenda interessante estes dias.
O rapaz moveu seus olhos em direção a ela, enquanto afagava a cabeça do dragão sobre seu corpo. Draco, como este fora batizado, tornara-se a mascote da sede apesar de todos os protestos de Iris.
-Sobre o quê?
Ahn, ele sabia bem o tema que ela abordaria... depois de algum tempo, os parceiros andavam desconfiados dele e de Hiei. Mas Cloe não se contentava em desconfiar... ela ia procurar referências até descobrir o que estava acontecendo de fato. Crós, que ainda não retornara ao laboratório, revirou os olhos.
-E lá vamos nós.
Sacha apenas jogou-se do lado de Cloe, a ideia de uma lenda urbana chamara sua atenção. –Só espero que não seja nada aterrorizante.
Jovem de cabelos cacheados não fez menção de responder por alguns segundos, e só então começou a falar:

Um dia, a Morte finalmente descobriu o que era sentir-se solitária... ninguém sabe exatamente o porquê. Uns dizem que foi uma alma que buscou, outros, uma aposta que perdeu... e outros ainda afirmam que foi um Deus que implantou essa ideia em sua mente milenar. A questão é que ela resolveu que estava na hora de trabalhar em conjunto, de certa forma. Não podia contar com os humanos para buscar as almas deles mesmos, isso não. Também estava incomodada com a quantidade de feitiços de imortalidade e invulnerabilidade que os monstros e alguns mortais estavam a lançar sobre si mesmos, retardando a sua ida para seus domínios.
Então ela encontrou três crianças, que futuramente seriam seus primeiros Caçadores. Eles não eram irmãos, nem parentes. Haviam sido vítimas de uma catástrofe natural, suas famílias destroçadas, e só haviam sobrevivido por que um deles havia apostado uma corrida com os outros, e isso os deixou fora do alvo principal. Aparentemente um dragão tinha se deslocado para a tal cidade e queimado tudo e todos que lá se encontravam.
As crianças perdidas e sozinhas vagaram por muito tempo antes que a Morte chegasse a elas, por engano. Mas esta afirmava que não existiam coincidências, só Destino, então é bem capaz que em algum lugar do espaço-tempo aquilo já havia sido escrito. De alguma forma que não conseguia descrever, ela penalizou-se pelos pequenos, e os tomou para si... levou-os para seu mundo por alguns anos, ignorando as leis de matéria. Ela forjou armas para estes, cada uma de acordo com sua especialidade e habilidade. E só então, quando todos eles estavam preparados para sua nova tarefa, ela mandou-os novamente ao mundo material.
Logicamente, estes três também haveriam de morrer, já que apesar de tudo, não podia conferir-lhes a imortalidade. Quando isso ocorreu, ela velou as almas e as guiou através do caminho que levava ao Céu e Inferno, com o maior cuidado.
Mas isso não foi o fim. Ela procurou novas crianças, com essa característica especial que poucos tem, e fez o mesmo. Desde então surgiram de fato os Caçadores da Morte, que sempre são em número de três, e que são capazes de matar a maioria das feras mágicas e amaldiçoadas sobre o mundo, ou mundos.”

-Hum... uma história fascinante. –o rapaz abriu um sorriso breve, voltando sua atenção para o dragão em seu colo. –Imagino que esteja imaginando coisas a meu respeito, mas tem um pequeno porém.
-Ahn, eu levei isso em consideração também... o número está errado.
Sacha definitivamente não pareceu entender essas palavras aleatórias. Crós trocou mais um olhar com Mitaray, escondendo uma expressão de entendimento, e logo desviou o rosto para que Cloe não visse.
-De fato, mas seus esforços serão recompensados, senhorita. -Ele fez uma mesura, o que fez a jovem franzir o cenho, profundamente aborrecida.
-Eu descobrirei... pode apostar nisso.

   

A quilômetros dali Alberich mais uma vez adentrava a capital, e desta vez não parecia nada calmo. Ele passou direto pelos guardas, sem se incomodar com as ameaças de morte. Ao se ver inevitavelmente mais uma vez de frente a Baltazar, preferiu ignorá-lo, continuando sua corrida e saltando por cima deste, deixando o corpo escorregar propositalmente no chão e logo reavendo o equilíbrio... sua mão foi ao ar sem que ele precisa-se se virar, enquanto erguia a voz. –Deixe nossa discussão habitual para depois!
O guarda resmungou algo em resposta, que ele não conseguiu ouvir… provavelmente um xingamento, mas ele sabia que não seria detido. Por enquanto não, pelo menos. Uma vez mais fez os pés escorregarem, ficando de frente para os portões do Palácio, onde havia mais dois guardas. Ele protestou em pensamento: aquilo iria tomar-lhe tempo, e não podia esperar que Nicolas viesse de tão bom grado até ele como da última vez. Ergueu seus olhos para cima, a procura de algum lugar para subir, mas nesse caso ele pareceria ainda mais com um espião do que geralmente costumavam achar. O elfo suspirou, e se dirigiu mais uma vez ao portão, parando de frente aos rapazes e forçando-se a fazer uma mesura educada.
-Solicito uma audiência com N... com o Senhor do Palácio de Granito.
Certo, ele quase fizera outra vez... tentou afastar o pensamento, à espera. Aparentemente aqueles dois eram membros mais velhos, porque o reconheceram.
-Não é aquele elfo...
-É lógico, quem mais haveria de ser... –eles trocaram algumas palavras, o que só fez o elfo revirar os olhos, visivelmente irritado.
-É Urgente! Informações sobre Haradja... agora se preferem que o Reino passe para as mãos dela, e querem continuar a discutir quem é quem, podem continuar.
Na realidade em tal caso ele realmente invadiria o Palácio por uma das janelas, independente das consequências que tal ato trariam a ele, mas preferiu não comentar. Os dois guardas trocaram um rápido olhar e deixaram seus postos rapidamente, liberando a entrada. Alberich não se demorou muito, logo atravessando o portão e cruzando o salão principal, a procura dos aposentos de Nicolas.

   

O alarme disparou de modo estridente, convocando todos da sede a comparecer à sala dos computadores. Chegando lá, a cena que se desenrolava era, no mínimo, estranha: Iris parecia mais revoltada eu seu normal, trocando insultos com a pessoa do outro lado da tela, um homem jovem, de cabelos negros e olhos esverdeados... e familiar.
-Você não pode estar falando sério, isso não é da nossa alçada!
-E desde quando a Equipe Black tem uma alçada específica!?
-Desde que eu me tornei a líder. Nós não estamos a sua disposição 24 horas por dia!
-Quando se tornaste tão egocêntrica?
-Quando você se transformou nesse ingrato prepotente.
As acusações ainda eram jogadas de um lado a outro quando Crós resolveu por fim intervir.
-Gente, gente, menos, por favor... O que houve, Nicolas?
O Senhor do Palácio de Granito deixou de replicar a última ofensa de Iris para poder responder a Crós.
-Ahn, até que enfim alguém com bom senso... foi encontrado um campo de radiação que provém da Ilha do Silêncio.
-Bom, imagino que isso realmente não é algo que devamos nos intrometer.
-Espere, pelos Deuses, como vocês são apressados! –Nick levou uma mão a testa, notavelmente começando a se estressar. –Como eu ia dizendo antes da semi-fada-revoltadinha ai me cortar, também foram vistos barcos demoníacos circundando o último paradeiro em que ela esteve. Alberith chegou a poucas horas afirmando que estão atrás de apenas uma coisa.
Os presentes trocaram olhares preocupados, antes de Ken abrir a boca para perguntar: -E o que seria?
Eles viram quando a mão de Nicolas voltou a descer e ele levantou o olhar para alguma coisa em cima dele, provavelmente o teto, antes de finalmente responder.
-O Olho de Osíris.
Em resposta ao silêncio profundo e confuso que se seguiu, ele continuou: -O artefato mais poderoso, entre esta dimensão e o Mundo Real.
Ele não levava em consideração as dimensões alternativas que faziam parte do que chamavam Mundo da Imaginação ou qualquer uma outra, já que eram milhares, e já ouvira rumores que existiam coisas muito mais poderosas perdidas pelo tempo e espaço. Mas se tratando de Diamond e do Mundo em que os Slaiers vieram, o que chamavam de Olho de Osíris era considerado o maior tesouro, e a pior arma, que poderia ser encontrada.
O silêncio continuou por mais alguns minutos, antes que Ken volta-se a falar. –Vamos até lá pegá-lo então.
-Não é tão simples. O artefato está sumido a anos, mal sabíamos que estava em Diamond ainda.
-Considerando que a Ilha do Silêncio fica mesmo nos nossos limites, porque... – ia dizendo Hiei, antes de tomar um tapa na cabeça de Iris.
-Sabemos bem disso. De qualquer forma, teremos que mandar um grupo para lá o quanto antes, deixar os demônios ficarem fuçando por ai nunca é uma boa coisa. Mesmo que o Olho não esteja lá, provavelmente há algo que chamou sua atenção.
-Definitivamente é melhor prevenir do que remediar.
Parecia que finalmente Nicolas e Iris tinham chegado a um consenso. Eles trocaram mais algumas informações, entre elas nenhum pedido de desculpas e logo ele estava desligando outra vez.
Havia sido proposto que fosse mandado um pelotão para manter os demônios ocupados e criar uma distração, dando tempo do grupo de campo encontrar o artefato, mas Nicolas ainda afirmava que haviam traidores lá dentro, e enquanto não descobrisse quem exatamente eram e sumisse com eles um por um, não mandaria uma tropa para recuperar algo tão importante.
Mas ele insistiu em mandar um navio das docas de Moon Scy, para tentar ao menos tirar a embarcação inimiga de lá... A tripulação do Diamante Negro estaria a caminho.
Agora só faltava eles chegarem a um acordo de quem faria parte da missão... como era esperado, o grupo original para sair em campo era composto por Hiei, Mitaray, Kit, Ken e se fosse necessário, Crós.
Porém...
Mitaray ainda estava se recuperando, e pesar de argumentar que estava tudo bem em ir, Iris insistiu que ficasse. Em seu lugar, Kira mais uma vez se preparou para seguir caminho com o irmão.
-Daqui a pouco você estará em todas. –alegou Ken, erguendo uma sobrancelha, depois que eles se preparavam para entrar no jato uma vez mais.
-Haha... ser multifuncional tem lá suas vantagens.
-Adeus, humildade.
Ela ignorou-o e lançou um último olhar para trás, onde Mitaray estava encostado, aparentemente chateado por ter sido forçado a ficar. Este abriu um sorriso de “fazer o que” para a mesma e deu de ombros. Kira sentiu-se penalizada por alguns minutos.
-Trago uma lembrança quando voltarmos.
O rapaz apenas franziu o cenho. –Já tenho algo em mente.
-O que você quer?
-Tu saberás.
Ele abriu um sorriso e acenou, e ela poderia jurar que estava sendo enganada.
Hiei parecia estar se divertindo com a situação, mas preferiu não fazer nenhuma piadinha por enquanto, por amor a própria vida. Ele olhou para Cloe e fez um sinal de tchau com os dedos. –Veja se consegue nos contatar a tempo desta vez.
-Será fácil se você deixar os aparelhos em um local decente. –ela piscou um dos olhos e virou as costas, voltando pelo mesmo lugar de onde tinha vindo. Kit já havia tomado o seu acento, e passava melancolicamente os dedos entre os cabelos antes negros, agora com várias faixas azuis, fazendo com que parecesse uma punk. Crós havia se transformado em um gato preto -como a aprendiz citara certa vez, ele podia fazer isso- e estava embolado em um dos bancos mais atrás, parecendo estranhamente inofensivo.
-Que folgado.
-Hummmm... –Kit apenas resmungou em resposta, virando sua atenção para a janela. Minutos depois, estavam a caminho.


~Kit Black

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