25 de fev de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Sétimo capítulo: Silêncio que Consome (parte II).



A Ilha do Silêncio é tida como amaldiçoada, um local que não se deve procurar a menos que você tenha muita confiança em si mesmo. Sua principal característica é que muda constantemente de posição no mapa... não há um padrão específico para isso. Ela simplesmente pode estar na costa de Vadolfer e no dia seguinte ter desaparecido, o que torna extremamente perigoso ficar muito tempo dentro dela.
Existem apenas rumores a seu respeito. Não são muitos que se aventuram por ali, e aqueles que vão para lá ficam contentes em embarcar de volta o mais rápido possível.
Era mais ou menos essa a discussão que acontecia entre os integrantes que estavam confortavelmente instalados no jato. Pelas informações, a ilha agora estava do lado oposto do Reino, o que forçava-os a voar por muito tempo, ainda com o risco de chegar na dita localização e ela já ter sumido.
-Éee... um pedaço de terra com personalidade. –Kira comentou, enquanto refazia seu rabo de cavalo e olhava através da janela.
-Uma péssima personalidade. Eu já soube de gente que ficou perdida lá dentro por semanas, até conseguir algum transporte para voltar para o continente.
-Mas estamos em um jato, isso torna as coisas mais fáceis. –Kit argumentou do seu cantinho, chegando um pouco mais perto com o corpo para poder ouvir melhor. Ken estava aparentemente dormindo no assento ao lado do seu.
-Não tenha tanta certeza. –ele ia continuar a falar quando começou a avistar a ilha ao longe. Piscou ligeiramente para ter certeza que era ela mesma.
-De qualquer forma, eles estão usando navios, não?
-Sim... uma péssima escolha na minha opinião, mas consigo vê-lo daqui.
-Vê-lo? É apenas um...?
Ele franziu o cenho ainda mais para ver, aparentemente o reforço planejado por Nicolas ainda não tinha chegado. –Sim. Estou começando a duvidar do senso de estratégia de sua irmã.
Kit fechou a expressão com o comentário. Ela NÃO queria se lembrar de que tinha o mesmo sangue de Haradja correndo em suas veias. Ou melhor, parte dele...
-Er, foi mal... a sanguinária-inimiga-nacional parece estar com um parafuso a menos.
A expressão dela não mudou, mas logo Kira os interrompia, colando a face no vidro para ver melhor. –A Ilha Amaldiçoada está abaixo de nós.
-Dá para parar de falar assim? Os espíritos podem ficar ofendidos!
Um trovão ao longe fez com que todos estremecessem quase de imediato.
-Acho que eles ouviram você... –A mulher continuou, com uma voz que imitava um narrador de história de terror.
-Quem se importa se ouviram, e se os demônios nos navios virem a gente? –Kit protestou, apontando para a embarcação lá em baixo.
-Não se preocupe, estou voando no modo invisível.
-Ahh, e agora que você avisa.

O jato deu mais uma volta completa, circundando a ilha. O navio inimigo tinha alguns seres rondando pelo convés, o resto já deveria ter desembarcado. Um calor absurdo parecia subir do chão quando eles finalmente pousaram e desceram. Haviam árvores frutíferas e água, assim como uma alta montanha, mas só isso. Eles não ouviram o canto das aves, ou o barulho de qualquer animal. Também não havia sinal de qualquer outro ser vivo dotado da habilidade de se locomover. Era um ambiente estranho, de alguma forma hostil. Kit já estava sentindo calafrios, apesar do calor e do ar abafado.
-Prefiro Dragon a isso aqui.
-Mesmo com os dragões? –ouviu alguém perguntar.
-Mesmo com os dragões.
Eles continuaram a caminhada com um pouco mais de cautela. Pela lógica, deveriam encontrar em alguma parte do caminho os demônios de Haradja, e para isso teriam de estar preparados. Dias antes, Crós jogara um feitiço em todas as armas da cede para ter certeza que cada uma delas conseguiria trucidar qualquer criatura que não fosse protegida por uma magia muito forte. Kit, assim como Ken e a irmã, imaginavam se Driguem teria sido mandado mais uma vez para a missão... era um desejo egoísta de vingança partindo de cada um deles, mas não se podia fazer nada quanto a isso.
Mas o rival de fato não estava na ilha... era outra pessoa que rondava a frente da pequena tropa despachada por Haradja. Para falar a verdade, ela já estava pesquisando o paradeiro do Olho a tempos, mesmo dias atrás, quando Iris fora capturada.

O silêncio sepulcral finalmente foi quebrado, agora podia-se ouvir uma melodia lenta e ritmada -quase incômoda- que causava certa sonolência. Kit usou de sua audição apurada para levá-los exatamente para a fonte da música. Com cuidado, eles se aproximaram do que parecia ser mais uma clareira.
Pela primeira vez puderam ver algo parecido com um animal, ressonando no meio do círculo. A parte inferior do corpo era como a de um leão, a superior, uma águia. A calda era uma cabeça de serpente, igualmente adormecida... os pelos do corpo tomavam uma coloração azulada, e uma grossa coleira mantinha-o preso ao chão. No exato momento, alguns diabretes estavam tentando retirar essa coleira, com cuidado para não acordar o grifo.
-Ande logo com isso, ele está encantado.
-A mestra está usando o som para mantê-lo dormindo e para rastrear ao mesmo tempo, não quero estar aqui quando houver o azar dela encontrar a trilha novamente.
Enquanto o diabrete voltava ao trabalho, Kit e os outros se entreolharam. –Mestra?
-Haradja provavelmente não está aqui... deve ser outra pessoa. –o gato negro no qual Crós havia se transformado argumentou, fazendo quatro cabeças voltarem em sua direção.
-Você fala nessa forma? –Hiei perguntou, antes de ser cortado por Ken.
-Vamos deixar essa discussão para depois... o que é aquilo que está dormindo?
-Um grifo... isso não é bom.
-Claro que não! Garras afiadas, bico mais afiado ainda, ele voa e ainda tem uma segunda boca para envenenar quem chegar muito perto. –O caçador protestou, girando o bastão entre os dedos. –Mitaray ia adorar estar aqui!
-Mas ele não está. –Kit deu de ombros. –Temos que nos virar com o que sabemos.
-E o que sabemos!?
-Que é melhor para todos nós se essa música continuar a tocar.
E como para variar a sorte nunca está do lado deles, as notas pararam de sair, e quase que de imediato, um par de olhos avermelhados se abriu.
Foi tudo muito rápido... Hiei, que estava um pouco mais a frente, empurrou a cabeça de Kit e Ken violentamente para baixo, fazendo um resmungo de protesto vir de ambos, enquanto Kira sabiamente girava para o lado, ficando completamente atrás de uma árvore. Crós apenas rolou pelo chão para atrás de uma moita. Para a infelicidade dos demônios que estavam mais perto do grifo, eles não tiveram qualquer oportunidade de se esconder. Um foi rasgado em três com um grito medonho e logo depois virava uma pilha de enxofre. O segundo teve parte da cabeça abocanhada, um terceiro ainda ficou parcialmente deformado por causa do veneno das picadas... o diabrete que estava soltando-o e tinha com algum milagre se afastado a tempo, já havia subido em uma árvore e praguejava que “havia avisado a eles”. Bem, ele estava dizendo isso antes de se desequilibrar e cair aos pés dos integrantes da Equipe Black.
-Ée... estou com um bom pressentimento.
-Peguem ele antes que deem falta.
No segundo seguinte Kit já havia enfiado um punhado de pano na boca da criatura e Kira já começava a puxá-lo pelo rabo, arrastando até chegar em uma árvore mais distante e começando a amarrá-lo no tronco. Sem poder gritar ou usar as garras, o demônio só conseguiu pestanejar e resmungar até ter a boca liberada.
-Que Ajax os carreguem, criaturas imundas!
-Olha, eu quase fiquei ofendida agora. –Kira revirou os olhos, fazendo a lâmina da espada passar pelo pescoço da criatura. –Desembucha bichinho esquisito... o que está acontecendo aqui?
-E você acha mesmo que vou dizer? Há...
Ele foi cortado uma vez mais por uma pancada violenta de Kit em sua cabeça, o suficiente para ele morder a língua a ponto de quase perdê-la. Mais uma vez a garota sentiu a atenção sobre si. –Que foi? Estamos com pressa!
Mais um dar de ombros coletivo deixou claro que o assunto devia ser esquecido. O diabrete agora lutava para tentar xingar através da língua machucada, o que causava apenas um amontoado de sons sem muito nexo.
-Vou perguntar de novo, e se não responder vou usar a sua cabeça como bola de futebol. –Kira fez questão de empurrar um pouco mais a lâmina e ferir a pele semelhante a couro.
-Ah! Tudo bem, eu digo... a Mestra nos trouxe aqui para encontrar o Olho de Osíris.
Ele tentou falar da maneira mais compreensível que podia. Ken suspirou exasperado. –Isso a gente já sabe.
-É, que tal dizer o porquê do bichinho de estimação que vocês soltaram aqui? –Hiei se juntou ao interrogatório, apontando na direção de onde tinham vindo.
-Grimory é apenas uma garantia. –foi a resposta.
-Sua garantia quase destruiu vocês... quem está no comando da expedição? –Kira pressionou ainda mais. O diabrete grunhiu mas não respondeu, o que fez ela forçar ainda mais a espada, dessa vez em seu ombro.
-Lady Cassandra! É ela...
Tanto Hiei quanto Crós trocaram um olhar, este segundo assumindo sua forma meio-humana quase de imediato depois de ouvir a resposta. –Isso não é bom.
-Por quê?
-Cassandra é uma Deusa Menor, a Mestra dos Sons.
-Quase uma Musa Grega?
-Pior que isso.
Eles levantaram as cabeças num movimento coordenado quando os ruídos da movimentação do grifo pela mata voltaram. Aparentemente ele havia alçado voo minutos antes, sem dar atenção a eles, mas desta vez tinha-os notado. Um misto de pio com rugido saiu de seu bico escancarado, antes que ele fizesse uma curva no ar e dispara-se contra a árvore em que prendiam o prisioneiro, fazendo-a em pedaços e, consequentemente, ele em pó. Eles se separaram, esperando uma próxima investida... a criatura era ainda maior vista de perto, e as garras eram suficientemente grandes para esmagar a cabeça de qualquer um deles sem muito esforço.
No entanto, ele parou em meio a um bote quando uma melodia diferente começou a tocar, um misto de três notas baixas, mas que soava muito como um aviso. Grimory recuou uma pata e sentou-se, obediente, enquanto um vulto surgia por detrás dele.
-Não o levem a mal, ele está apenas... preso por muito, muito tempo. Essa reação é praticamente esperada.
A voz chegou até eles, e ela parecia estranhamente harmoniosa. Parecia que poderia induzi-los ao sono apenas ao falar, mas de alguma forma, o ser que falava não utilizou-se desse poder.
-Ahh, claro, perfeitamente normal. Deve ser porque ele é selvagem, ou melhor, você o atiçou contra nós! –Hiei protestou, segurando com um pouco mais de força que o necessário seu bastão. Ele não parecia nada relaxado, e isso era estranho, porque apesar de reclamar e resmungar, ele quase nunca parecia de fato assustado... até agora.
-Eu? Atiçá-lo? Não, muito pelo contrário... –ela chegou mais para perto, tornando-se visível, e deixou o véu que usava escorregar pelos cabelos. Cassandra tinha olhos tão escuros que quase chegavam ao preto, e um cabelo negro tão comprido que por pouco não tocava o chão, a pele era extremamente pálida, e as orelhas eram pontudas, o que fazia a mesma lembrar uma elfa. Ela usava um vestido diáfano de cor igualmente escura -talvez roxa- e como já foi dito carregava um véu que cobria boa parte de seu rosto. Inúmeras manchas que lembravam tatuagens tribais passavam por seus braços e pernas, assim como no rosto. Ela definitivamente não parecia ser algo desse mundo. Logo continuou, a voz fina começando a fazer pequenos ecos quando batia nas árvores. –Eu o estava mantendo adormecido, especialmente para esse momento... Sou Cassandra, a Mestra do Som, e creio que já ouvi o bastante sobre todos vocês para conhecê-los bem.
-Cassandra. Sabemos bem quem é e o que faz aqui. Não estou a fim de debater sobre seus atos claramente ingênuos, mas ainda tem a chance de fazer a coisa certa e entregar-nos o Olho... –Era Crós que falava desta vez, e Kit sabia que ele estava realmente muito abalado com tal situação.
-Não poderei fazer isso, meu caríssimo amigo... essa é chave para a vitória de Haradja. –ela continuou naquele tom monótono, as palavras saindo quase como uma cantiga de ninar... Kit sentiu os músculos da face se contraírem num bocejo e se beliscou para manter-se alerta.
-E você sendo o que é ainda teve a ousadia de se aliar a ela!? –O feiticeiro protestou. –Você sabe o que ela fez com Aaron e os outros? Eles eram meus amigos... NOSSOS amigos!
-Sim... Foram. Agora estão em paz, não deveria preocupar-se com eles. –ela voltou a descer o véu sobre a face, girando nos calcanhares. –Já achei o que eu vim buscar. –e com um movimento lento, ela ergueu a mão direita, um pouco escondida atrás do corpo, e mostrou o que parecia ser uma pequena pirâmide dourada, com um olho imenso entalhado em relevo em cada um dos seus quatro lados. Crós sentiu seu sangue gelar, quase que paralelamente ao momento que ele deveria ter sido bombeado com mais força. Porque aquilo era uma clara traição. Cassandra era uma das Divindades Menores responsáveis por manter o equilíbrio do Reino. Ela estar do lado de Haradja não era só um fato revoltante e desagradável, como também significava que as coisas estavam cada vez piores para o lado deles. Ele simplesmente não tinha palavras para descrever o que estava pensando... ele não sabia nem como se sentir com relação àquilo.
Ela ainda manteve o Olho de Osíris por algum tempo a vista, antes de voltar a esconder a mão que o segurava nas vestes. Ela lançou um último olhar para trás.
-Por que, Cassie... –e antes que ele pudesse sequer terminar, um pensamento veio a sua mente. –Foi você? Foi você quem cortou as linhas de comunicação?
-Sim, fui eu. –ela estreitou os olhos, a voz mudando para um tom mais baixo, embora não deixasse de parecer tranquila. –Não espero que compreenda meus motivos. É tudo uma questão de princípios.
-Por Ajax, que resposta é essa!? Que princípios aquela assassina pode ter?
Cassandra manteve-se em silêncio por alguns segundos, antes de continuar. –Como eu disse... nunca poderás entender. –ela virou completamente o corpo e pôs-se a andar em direção oposta, voltando a desaparecer nas sombras. –Adeus, Crós, adeus, crianças. Precisam morrer.
Uma sinfonia de três notas se fez tocar novamente, mas desta vez era realmente agressiva. Grimory se ergueu novamente e atacou, forçando-os a dispersar.
-Se ela ia condenar a gente, porque se deu ao trabalho de parar? –Kit perguntou, saltando e usando um galho de árvore para manter-se em um local alto.
-Ela queria dizer adeus pra mim. –Crós respondeu numa voz tão sumida que nenhum dos outros conseguiu ouvir... agora estava sobre outra árvore, só tendo tempo de lançar um último olhar na direção que a Deusa havia partido, antes de ter que mudar de árvore pois o grifo já investia contra a que ele estava, visando derrubá-lo.
-De qualquer forma temos que destruí-lo rápido, ela está com o Olho.
Ele ponderou rapidamente sobre as palavras da aprendiz e tomou sua decisão: com seu sexto sentido ligado, passou os dedos pelas costas de Kira, que estava mais perto, e logo fez com que o corpo dos dois começasse a desaparecer. –Kit... vou deixar isso por sua conta.
A gatinha abaixou os olhos para fitá-los e logo os arregalou. Teletransporte instantâneo, era isso que ele estava fazendo. Apesar de a probabilidade dele errar ser menor deste jeito, ela ainda não confiava que iam aparecer num local que fosse facilitar a captura de Cassandra. –E-espere!
Mas já era tarde. Segundos mais tarde Salem e Kira haviam desaparecido completamente, só deixando uma nuvem de fumaça negra para trás. Ela não pôde nem se dar ao luxo de ficar chocada quando uma garra afiada atingiu seu rosto e a fez cair da árvore, rolando no chão.

~ Kit Black

Nenhum comentário:

Postar um comentário