7 de abr de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Oitavo capítulo: Aqueles que acompanham a Morte (parte II).


O trio vagou por muitos dias, a fome acompanhando-os, o vento frio acossando-os, a terra sob seus pés tornando-se áspera... cada vez mais seus passos se perdiam, e cada vez mais eles deixavam o corpo cair no chão por não aguentar mais andar. Não havia lar que os acolhe-se, ele estava destruído. Não havia uma família para chorar com eles. Não sobrara nada, nada que pudesse servir de amparo. Os três se viram obrigados a sobreviver e cuidar um do outro, porque sabiam que, caso se separassem, perderiam o que sobrara de uma vida. De modo que, quando Mitaray salvou Hiei de rolar morro abaixo, isso não foi nenhuma surpresa.
As crianças tinham aprendido algo como união, mas isso não significava muita coisa quando estavam perdidos no meio do nada. Inúmeras vezes foram rechaçados de casas isoladas, que encontravam pelo caminho. E na maior parte das vezes não encontravam absolutamente nada.
Um dia conseguiram chegar a margem daquele mesmo rio que fazia divisa de sua aldeia. No entanto, eles não queriam voltar para ver o que sobrara dela mais uma vez. Sabiam muito bem o que encontrariam: cadáveres, destruição, e muita água. E a partir daí resolveram deixar a distância cada vez maior das lembranças, subindo o rio.
Agora havia água para poder beber e, como todos os três eram filhos de pescadores, conseguir peixes para uma refeição era fácil. Já não morreriam de fome, mas ainda havia algo que os perturbava... não poderiam se aventurar para sempre. E cada um ansiava desesperadamente por um lar.
E foi nessa situação que a Morte os encontrou. Coincidência? Destino? Nas linhas tecidas com tanto esmero por aquelas que controlam todos os encontros, surgia uma vez mais um caso digno de ser citado.
Porque não importa o quanto digam que todos se curvam a um destino predefinido, isso só vale para os mortais.
A Morte está além do tempo e espaço, a Morte não segue regra alguma... Ela é imune ao Destino.
Ela só o encontra, se realmente quiser encontrar…

   

O dia amanheceu um pouco mais sombrio que o normal. Uma tempestade estava claramente se formando, o que manteve todos dentro da sede, com exceção de uma pessoa em especial.
-Onde está a Iris? –Ken perguntou de maneira sonolenta, enquanto cortava um pedaço de panqueca e colocava-o na boca. O café da manhã havia saído meio tarde.
-Palácio de Granito. –Nicolas também não parecia muito melhor. As olheiras abaixo de seus olhos demonstraram claramente que não havia pregado o olho a noite toda. Por qual motivo, ninguém ali poderia saber.
Hiei moveu a cabeça automaticamente para seu superior, disparando a pergunta logo em seguida: -O que ela foi fazer lá desta vez?
A resposta foi um dar de ombros conformado. –Coisas dela, provavelmente foi discutir com o Imperador sobre a necessidade de que eu fique aqui.
O outro fez um aceno e sem se incomodar muito com o assunto, voltou a devorar a sua panqueca. Mas Ken ainda estava insatisfeito, porque um segundo depois estava perguntando novamente: -Agora que estou pensando, ainda não vi a Kit.
-Acho que ela foi uma das primeiras a acordar. –argumentou Sacha, sentando-se no balcão e remexendo em seu prato. –Saiu para algum lugar.
-E você não perguntou para onde ia? –Cloe franziu o cenho.
-Não. Ela estava, você sabe... naquele estado.
Ela sabia. Se Kit chegava a um ponto de chateação que ameaçasse magoar as pessoas a sua volta, ela simplesmente virava as costas e corria. O máximo que conseguisse, se afastando o mais rápido possível.
-Uma hora vai ter de parar de correr, e então vai voltar.
Ken olhou de maneira preocupada para a porta, a espera de que ela passasse pela mesma, mas isso não aconteceu.
-Bem... já que não temos nada para fazer, que tal disputarmos um jogo de cartas? –Sacha ergueu uma das mãos, e logo a outra surgia com um baralho tirado sabe-se lá de onde. –Que tal?
Ninguém pareceu muito empolgado, no entanto nenhum deles se negou. Minutos mais tarde, uma mesa estava armada e uma roda se formava ao seu redor. Todos os presentes acabaram se envolvendo em uma disputada partida de poker, na qual mais se discutia do que jogava. Mitaray parecia ser o melhor jogador da mesa, enquanto Hiei era um dos piores, já que era incapaz de fazer um blefe convincente.
-Ainda acho que deveríamos estar apostando algo melhor que balinhas de menta. –Crós olhou de maneira estranha para a pilha que ia aumentando cada vez mais, cujo dono era Mitaray.
-Está perfeitamente justo na minha opinião. –ele replicou de volta, enquanto atirava uma balinha de sua pilha para Kira, que estava do lado oposto da mesa. Ela pegou-a com facilidade, abriu-a e colocou-a na boca, lançando um olhar por sobre as cartas em sua mão. –Obrigada, querido.
-É melhor do que perder todo o dinheiro que temos nos bolsos.
-E bem melhor que usar peças de roupa para apostar. -Cloe revirou os olhos.
-Ou a falta delas.
-Quem teve essa idéia afinal?
-Advinha... –Cloe falou em um tom fechado, dando uma cotovelada em Hiei.
-Ai! Essa doeu... que foi, tá de TPM?
-Acertou... e é melhor se comportar, ou da próxima vez acerto outro lugar. Um que doa mais.
Ken ficou momentaneamente surpreso, já que sabia que a garota era extremamente calculista. Esse não era o tipo de reação que esperava dela, mas, ainda assim, teve de levar a mão a boca para esconder uma risada.
-Precisas relaxar, senhorita. –Mitaray afirmou, pegando outra balinha de sua pilha e jogando-a pra ela. –Estresse em demasiado não faz bem para a sua saúde.
-Você não entende mesmo, não é? –ele recebeu um olhar enviesado da parte dela, mas o doce foi aceito da mesma forma.
-Não, porque eu não sou uma garota. –ele respondeu de modo pausado e controlado, de forma que soou mais como uma afirmação inocente do que como uma critica irônica. Cloe preferiu não continuar a discussão e pôs-se a mastigar sua balinha, em vez de simplesmente esperá-la derreter em sua boca. Hiei ainda ficou um tempo cutucando a bochecha da mesma, antes de ter o dedo mordido. Ela definitivamente não estava para brincadeira.
-Bem feito, eu te avisei.
-Ui... você vira canibal em noites de lua cheia também? –o agredido riu, beijando a mesma bochecha que insistia em cutucar minutos antes.
-Assim como você vira um pervertido chato jogando poker. –foi a resposta murmurada que ela deu, antes que o jogo continuasse. Pouco tempo mais tarde, ele era interrompido uma segunda vez por uma Kit encharcada dos pés a cabeça, que tentava torcer os cabelos enquanto andava na direção deles. –Bom dia.
-Bom dia.
-Foi tomar ar ou tomar banho lá fora? –Ken levantou sua atenção da mesa para observar a namorada, que literalmente estava pingando. Ela apenas deu de ombros.
-A tempestade me alcançou antes que eu pudesse impedir.
-Ahn... se você usa-se teletransporte isso não seria um problema. –aconselhou Crós.
Kit fez uma careta e negou ansiosamente com a cabeça. –Confio mais nas minhas pernas, obrigada. –ela chacoalhou o corpo mais uma vez, e depois olhou para cima. –Vou tomar um banho... quente. –disse a última palavra frisando-a, já que esperava um comentário debochado de Ken com relação aquilo, antes de continuar: -Já desço...

De fato, ela não demorou quase nada. Despiu-se, entrou no boxe ornamentado da sede e abriu o chuveiro, deixando a água quente percorrer seu corpo, a começar pela cabeça. As manchas em seu cabelo não saíram, e ela francamente desistira de tentar tirá-las.
Deixou que a água levasse embora tudo o que não era mais necessário, inclusive as suas preocupações, e só se deu por satisfeita quando se sentiu realmente bem outra vez. Desligou o aparelho, se enrolou na toalha e começou a enxugar-se. Ela simplesmente decidiu que era preciso pensar em uma coisa de cada vez. E isso que a faria sobreviver ao seu pequeno Inferno particular. Enfiou-se em um short curto e em uma camisa mais larga que seu diminuto corpo e torceu a toalha nos cabelos, mantendo-os bem presos e finalmente recolhendo suas coisas e deixando o cômodo. Para encontrar Ken do lado de fora, esperando por ela.
-Oi... sente-se melhor?
Abria um sorriso doce, assentindo. –Bastante... correr sempre ajuda a colocar as ideias no lugar.
Ele não falou nada por alguns segundos, antes que a puxasse para um abraço carinhoso. –Se eu fosse um pouco mais atento você não precisaria correr.
-Se fosse de tal forma, seria diferente do que é, e sendo diferente do que é, deixaria de ser você mesmo, então talvez eu não o amaria. –respondeu se aconchegando nos braços dele.
-Nem você entendeu metade do que acabou de dizer.
-Não mesmo. –ela riu, logo sendo acompanhada por ele.
-Bem, vou te dedicar todo o meu tempo hoje para compensar, certo?
-Certo... a partir de agora?
-A partir do momento que levar suas roupas para o seu quarto e voltar lá para baixo. –deu um peteleco no nariz dela. –Está bem assim?
-Ótimo... –ela passou os dedos pelo nariz endireitando-se e lhe dando um beijo na boca, antes de se dirigir ao seu quarto. Viu o rapaz loiro se afastar, e quando se virou novamente, deu de cara com Nicolas, que deixava o seu próprio aposento, aparentemente disposto a voltar para o jogo no andar de baixo. Ele parou de imediato, observando-a de frente. Kit viu um brilho de reconhecimento em seu olhar, algo tão estranho, que não conseguiu definir naquela hora. Viu ele abrir um tímido sorriso e menear a cabeça em sua direção.
-Kit...
-Nicolas...
Ela se sentia estranha perto dele, não sabia se a razão era o fato de tê-lo encontrado meses atrás, com a roupa suja de sangue e a mente embotada pela dor, quando chegaram do Caminho da Ilusão. Ainda se lembrava daquele dia... e se lembrava que não lhe dera a merecida atenção. Podia ter abaixado e lhe dado um abraço. Podia ter lhe oferecido palavras gentis. Podia ter perguntado o que estava havendo, já que naquele instante ninguém sabia ao certo que a Equipe tinha sido obliterada, a não ser ele. Mas não fez coisa alguma.
Talvez fosse isso... embora ainda parecesse algo mais interno, como um reconhecimento. Como se já o tivesse visto em algum lugar, e isso era importante. Balançou a cabeça lentamente, se livrando de seus devaneios.
-Você ficou chateada, não é?
A pergunta a pegou de surpresa, forçando-a a encará-lo de frente. Ele era mais alto, o que a fazia erguer o queixo para observá-lo.
-...
-Com a história... sobre Haradja.
-Ahn, sim... acho que fiquei sim.
Não dava para simplesmente ignorar isso, era uma grande verdade.
-Eu compreendo. Não deveria ter lhe dito daquela forma. –desviou os olhos para uma das portas fechadas do corredor. –Eu também fiquei assim. Naquela época. Eu não consegui compreender de maneira rápida, e quando me convenci, já era muito tarde.
Ela sabia que de alguma forma tinha sido pior pra ele. Porque eles eram amigos. Eles conviveram com uma Haradja boa, gostaram dela, e depois as coisas se inverteram para um caos total. Agora eles tinham de caçá-la, e ela destruíra seus amigos. E a cada segundo tudo virava uma bola de neve que crescia mais e mais e que, em um dado momento, soterraria alguém. Suas sobrancelhas se uniram e Kit desceu os olhos para o chão por algum tempo, antes de dar dois passos em direção a ele e passar os braços em volta de seu corpo.
-Eu entendo... eu sinto muito, de verdade.
Sentiu que o corpo dele ficara rígido no primeiro momento, mas depois relaxou, e ele também passou os braços pelas suas costas delicadas. Mais uma vez, sentiu aquela sensação estranha... de dívida. Não, não era apenas dívida, era algo muito mais complexo. Imaginou que, se tivesse um irmão, com toda a certeza sentiria algo assim por ele.
-Seja forte, pequena.
-Eu serei, tudo vai dar certo.
Não ouviu concordância ou discordância da parte dele, mas, mesmo assim, soube que tinha feito a coisa certa. Então o soltou, puxando-o pela mão e começando a levá-lo através do corredor. –Vamos… vamos ganhar algumas partidas, okay?
-Estou logo atrás de você.
E pela primeira vez desde que vira o Senhor do Palácio de Granito, conseguiu distinguir um sorriso sincero em sua face.

 ~Kit Black

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