28 de abr de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Nono capítulo: Hora de Partir (parte II).


Quando um novo dia de fato surgiu, horas mais tarde, foi encontrado um bilhete no quarto que Hiei e Mitaray dividiam. Nada além disso. Ambos tinham ido sabe-se lá para onde, e não avisaram a ninguém. O sol os encontrara já longe da sede, dirigindo um dos jipes da imensa coleção de veículos que a Equipe Black juntara através dos anos. E pareciam com pressa.
-Você tem certeza que está certo sairmos assim?
-Não temos tempo, foi uma chamada urgente…
-Mas eles podem ficar preocupados.
-Hiei… –ele virou sua atenção para o colega, que freou o carro logo após para encará-lo. –É a Morte. Nós servimos a Ela, e quando Ela diz para irmos a nossa cidade investigar as fronteiras, nós vamos.
-Sim. Vamos. –ele fechou a expressão por alguns segundos, voltando a ligar o motor e pondo-os a caminho. –Mas… não estou com um bom pressentimento sobre isso.
Mitaray suspirou profundamente, passando a ponta dos dedos pela lâmina de sua foice. –Muito menos eu, meu amigo…
O outro não disse mais nada. Apenas olhou uma última vez pelo espelho retrovisor e pisou fundo, pedindo aos Deuses que não desse nada de errado.

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Kira ainda segurava o bilhete entre os dedos trêmulos quando os outros integrantes da Equipe se reuniram na sala. Houve uma troca de olhares antes que as perguntas começassem.
-Maninha… o que houve?
-Onde estão os rapazes?
-O que está escrito ai…
A loira mordeu o lábio inferior, enquanto as vozes iam se intercalando e logo levantou o tom de voz para ser ouvida. –Ora, calem a boca!
Vários pares de olhos se viraram contra ela antes que pudesse continuar.
-Eles foram embora, sem previsão de volta.
-Mas por quê? –Kit perguntou, sentindo um bolo familiar se formar em sua garganta.
-Ossos do ofício… –ela estendeu de modo metódico o bilhete para a outra garota e voltou a subir as escadas, trancando-se em seu quarto por um bom tempo.
Cloe passou por trás de Kit para conseguir ler também, achando a atitude de Kira um tanto quanto estranha, mas quando passou seus olhos pelas linhas, não conteve a surpresa, levando uma mão aos lábios. –Meu Deus.
O conteúdo do recado não era muito extenso. Ele revelava de forma sucinta a verdadeira identidade de seus donos, assim como o aviso de sua partida imediata. Não dizia mais nada, além de poucas palavras de consolo para quem ficava, de modo que não se preocupassem. Sem dúvida, tinha sido redigido por Mitaray.
O choque demorou um pouco para se desvanecer no rosto daqueles ainda reunidos, com exceção de Crós e Nicolas. O primeiro apenas balançou a cabeça. –Estava imaginando quando isso aconteceria. Para terem ido embora sem se despedir, as coisas devem estar realmente complicadas.
Mesmo assim, aquilo ainda era um duro golpe… porque nenhum deles esperava, e mandando-os para Vadolfer, não dava para ter certeza se poderiam ver qualquer um dos dois de novo. Como Caçadores da Morte, estavam por sua própria conta e risco. E talvez fosse por este mesmo motivo que tomaram a decisão de ir embora antes que os outros acordassem, por saberem que seriam seguidos se não o fizessem.
E mais um dia desolado se seguiu, embora estivesse ridiculamente quente. Apesar do calor, porém, ninguém deixou a sede neste dia também. E quando o sol desceu sobre as colinas e em seu lugar um céu estrelado surgiu, trazendo Iris consigo, o que ela encontrou foi dois integrantes a menos do que esperava. Mas sabendo do motivo que existia por trás da situação, ela descobriu que nada podia fazer. Pois suas notícias também não eram das melhores, e o assunto a ser tratado dali por diante era de suma importância.
Iris havia descoberto pistas sobre o paradeiro do rubi de fogo, a última das pedras para selar Haradja. Contudo, estava muito além das mãos pequenas de Kit, longe demais para que seus braços pudessem levá-la até ele, ou até mesmo suas pernas.
-O rubi está perdido no Mundo da Imaginação, pelo que sei… a anos. –ela havia relatado habilmente suas desconfianças, e viu com o canto dos olhos que sua diminuta campeã estava a ponto de surtar.
-No Mundo da Imaginação? Como assim no Mundo da Imaginação? Ela não pode estar lá!
-Calma, gatinha… –Cloe colocou uma das mãos sobre o ombro da amiga, cujo rosto demonstrava uma inquietação intensa.
-Não tem como eu ficar calma, sabe quantas histórias devem haver lá? Quantas dimensões, quantas probabilidades? Não há maneira de eu achar um mísero rubi que seja no meio de tantos submundos diferentes! Eu levaria mais de anos…
Cloe manteve sua mão no ombro dela, murmurando palavras de consolo que não ajudavam em nada, já que ela própria era péssima nisso. Em um dado momento, pediu licença para deixar a reunião e pegar emprestadas as outras pedras por um tempo, o que Kit respondeu apenas com um balanço de cabeça, nada convincente.
-Sem problemas.
Agora Sacha habilmente sacudia um grande leque ao lado de Kit, tentando refrescá-la, já que o nervoso deixara sua pele avermelhada, a beira de um ataque de pânico. Sua mão direita segurava a de Ken tão forte que ele sentia os dedos estalarem. –Kit, fique calma… para o nosso próprio bem, sim?
As palavras dele fizeram com que ela segurasse com menos força sua mão e relaxasse um pouco o corpo, mas não significava que estava muito melhor que antes.
-Na realidade, essa já tinha sido uma expectativa prevista. –Iris começou.
-Ela não vai. Não sozinha. –Eles ouviram uma voz mais distante protestar, e quando se viraram viram Nicolas, separado de todos eles, encostado na porta de entrada do cômodo.
A semi-fada abriu a boca, mas não parecia ser para discutir desta vez. De fato, havia uma certa urgência em seu olhar, que apenas o próprio Nicolas e talvez Crós pudessem entender. –Nicolas, você não está pensando…
-Vou com ela. – ele fechou os olhos, como se clamasse por algo em pensamento, e quando os reabriu havia apenas determinação em seu olhar… e uma infinita e profunda tristeza.
Mais uma vez subiu vários rumores no salão, assim como resmungos. Kit também precisou fechar os olhos para se concentrar por algum tempo e manter sua calma, levou uma das mãos a testa, respirou profundamente, e só então continuou, parecendo desta vez um pouco mais controlada. –Não há uma certeza de que eu possa achar o rubi rápido. Até lá, Haradja já pode ter tomado o Reino inteiro.
-Mesmo que fique, se não ter em seu poder todas as pedras, não poderá de forma alguma fazer frente com ela.
-Não faz sentido encontrá-la para me deparar com um mundo destruído na volta. –o tom dela foi se transformando num lamento.
-Então corra… –Iris cruzou os braços, agora bastante séria. -Pelo bem de Diamond, pelo nosso, pelo de todos… você deve ser capaz de senti-la de alguma forma.
A jovem negou com a cabeça e se encolheu. Deixou seus olhos subirem pela parede e encontrarem a janela, vendo a noite lá fora. E as últimas palavras de Light chegaram a seus ouvidos novamente.
-As estrelas mostrarão o caminho.
-Espero que estejam do nosso lado. –ela piscou, mudando de posição. –Então… chegamos a uma conclusão?
-Fui longe demais para que algo assim me impeça. Partirei. –ela sentiu Ken segurar com um pouco mais de força sua mão, e já tinha uma ideia do que ele pretendia dizer.
-Vou com ela…
-Infelizmente, não posso deixar. –Iris fechou ainda mais sua expressão. –Nosso contingente está reduzido. Sem Hiei e Mitaray, e agora, Kit e Nicolas. E também imagino que seja melhor mandar certas duas pessoas em uma pequena missão no Mundo Real. –ela lançou um olhar sutil para Sacha, antes de continuar. –Não… preciso de você aqui.
Ele definitivamente não gostou de tal decisão, mas teve a prudência de manter-se calado com relação a isso. Desta vez era ele que segurava a mão de Kit com uma força desnecessária. E com os nervos gerais um pouco mais alterados que o normal, a reunião foi encerrada.
Ken ainda parecia inconformado com a situação, mas sua namorada já começara a aceitá-la. De modo que quando este abrira a boca, um tempo mais tarde, para fazer um protesto, ela levou um dedo aos seus lábios.
-Hei, acalme-se. Não é tão ruim assim.
Ah, ela estava apavorada, mas não ia admitir isso em tal situação. Isso só deixaria as coisas ainda piores.
-Nem você acredita nisso…
Ela suspirou, fechando os olhos. –Hei… se lembra do Caminho da Ilusão? Como eu disse que iria com você e no final eu aceitei que deveria fazer aquilo sozinho?
Ele assentiu com a cabeça, desviando o olhar.
-É a mesma coisa, eu tenho que fazer isso. Iria sozinha, mas eu me perderia com muita facilidade e… talvez nunca me encontrasse de novo. –balançou a cabeça, e segurou uma vez mais as mãos dele. Seguiu as cicatrizes de sua mão direita com a ponta dos dedos, erguendo os olhos para ele. –Confie em mim. Eu vou voltar para você.
Mais uma vez Kit sentiu o corpo ser cingido por um abraço apertado, enquanto ele falava em seu ouvido. –Eu estarei a espera… por toda a eternidade, se for preciso. É uma promessa.
A garota o abraçou mais forte ainda e deitou a cabeça em seu peito. –Eu acredito em você.
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Cloe pôs-se a trabalhar de imediato. Ela não descansou aquela noite, e nem nas subsequentes. Com todo o cuidado e a inteligência que conseguira juntar, e com a ajuda de um certo feiticeiro, tentava a custo criar um tipo de máquina que servisse a seus desígnios. E chegou uma madrugada em que, finalmente, ela ficou pronta. E só então a garota chegou-se a Iris e afirmou que Kit de fato poderia ir.
Formando um novo objeto para guardar as pedras, foi criada uma caixa fina e arredondada, cuja tampa tinha um mostrador eletrônico, como uma bússola. Uma segunda tampa o protegia das intempéries que poderiam ser encontradas pelo caminho. A ponta da bússola estava preparada para apontar não para o Norte, mas na direção do rubi que faltava. As outras pedras serviam de catalisadoras e ímãs, para que a agulha apontasse exatamente para a sua irmã desaparecida. Crós havia juntado a tecnologia a magia e o artefato parecia disposto a funcionar bem. O ponteiro insistia em mostrar a direção sudeste, embora todos soubessem que não havia nada ali, pelo menos naquela dimensão.
Kit nunca soube como agradecer a Cloe com relação aquilo que perdera noites para conseguir criar por ela. Talvez nunca pudesse pagar a dívida... ela a abraçou com tanta força que a jovem pensou que seria partida em duas, mas isso não aconteceu.
E então a viagem de fato foi marcada, e duas semanas depois da reunião, numa madrugada mais fria que o normal, Kit finalmente se preparou para deixar a sede, sem saber se iria ou não voltar.

Vestindo uma roupa quente e coberta por um sobretudo, com uma grande mochila as costas e uma mala de rodas, ela pisou para fora do quarto. Os longos cabelos estavam presos em um rabo de cavalo, embora ela soubesse que cedo ou tarde teria de soltá-los para colocar um gorro ou coisa que o vale-se.
-Não esqueceu nada? –Cloe perguntou, mostrando um certo nervosismo. Ela era a primeira a se aproximar, como sempre.
-Não que eu saiba. –ela deu de ombros. Não sabia mesmo. Aliás, estava com a impressão que realmente estava esquecendo algo, mas não sabia bem o que. Desviou sua atenção para o lado, vendo Nicolas deixar seu próprio quarto, e chegou a conclusão que não era a única a ter problemas com a viagem. Ele exibia profundas olheiras, e um olhar desolado, que nunca fixava em nada. Iris chegou ao lado dele, trocando algumas palavras em um tom extremamente baixo, e colocou uma das mãos em seu ombro. E só então se afastou para dirigir-se a Kit. E depositou o Olho de Osíris entre seus dedos.
-Leve-o. Será mais necessário para onde você vai.
-Não posso simplesmente desejar que o rubi venha para cá?
-Não. O Olho é poderoso demais… só deve usá-lo em emergências, e saber pedir. Porque um pedido mal feito pode ser interpretado de maneira errada, e isso nós não queremos, certo? –ela deixou o artefato e ficou completamente ereta novamente.
-Outra coisa… você não deve interferir diretamente em problemas das dimensões que encontrar. Isso pode causar um paradoxo e a destruição completa do lugar. Não se esqueça disso.
-Não vou me esquecer. –Kit prometeu, e recebeu um abraço em seguida.
-Boa sorte, Kit.
-Sorte é meu nome do meio. –a tentativa de piada não soou muito convincente, e ela passou para as próximas as quais deveria se despedir. Cloe e Sacha ainda a observavam de modo atento… A primeira daquela maneira nervosa de antes, a segunda com uma expressão de tristeza.
-Você vai ficar bem, não é?
-É claro. –Kit abriu um sorrisinho travesso para a amiga ruiva, que a despeito do pouco cérebro, ainda tinha muito coração. –Você me conhece, tenho tanta sorte…
-Você parece um ímã para problemas, tamanho gigante. –argumentou por sua vez Cloe, passando os dedos pelos cabelos encaracolados.
-Quem sabe isso sirva para algo no fim das contas. –ela abraçou ambas com força, mantendo-se assim por alguns instantes. –Fiquem bem.
-Que os Deuses a acompanhem… como dizem por aqui.
-Tudo vai dar certo.
Ela seguiu um pouco mais adiante antes de encontrar-se com Salem. O feiticeiro fez um carinho em sua cabeça, como era de seu feitio, e lhe entregou um pedaço de pergaminho, que parecia muito antigo. –Vai precisar disso para as viagens dimensionais… usar o Olho não é uma boa ideia.
-Iris comentou algo sobre isso.
-Ela é mais sábia do que deixa transparecer. –ajeitou o capuz sobre a cabeça. –Como já foi dito, deves usar a magia em um lugar extenso e isolado. A Ilha do Silêncio é perfeita saindo daqui, mas para além deste mundo, precisa achar lugares com estes critérios.
-Certo, entendi…
-Que bom que sim. –ele abaixou o corpo apenas o suficiente para beijar sua testa. –Até breve, minha aprendiz.
Ela sabia que o “breve” dele ia ser muito mais longo do que qualquer um esperava, mas preferiu não argumentar. E a porta, encontrou a última pessoa que deveria antes de partir.
Kira não parecia melhor que os outros. De fato, ainda estava profundamente chateada com a partida de Mitaray. No entanto, ainda juntara o mínimo de sarcasmo para lidar com Kit em sua própria viagem.
-Ora, se não é minha cunhada favorita.
-Eu não sou a única?
-É sim, mas não se gabe disso. –ela deu um soco leve em seu ombro, mas logo puxou algo do bolso para entregar a Kit. –Meu irmão mandou isso…
A jovem colocou o pergaminho de Salem em um de seus bolsos e estendeu a mão para segurar o que a outra estendia. Era um cordão prateado familiar, com um pequeno gatinho como pingente. E pela enésima vez Kit teve que lembrar a si mesma porque estava fazendo isso. Era por ele também, afinal de contas. Guardou o pingente e abraçou a loira. –Diga a ele que o amo, sim?
-Ele pediu o mesmo. Considere o recado dado… –soltou-se do abraço, erguendo a mão direita fechada em direção a Kit. Ela tocou seu punho no dela e logo sorriu.
-Se cuida.
-Vê se volta logo… não tem mais ninguém aqui que eu goste de atormentar mais do que você.
Finalmente a garota conseguiu sair de fato da mansão, e colocar suas malas na picape. A parte traseira estava ocupada pela moto negra de Nicolas. Ela contornou o carro uma última vez, enquanto o rapaz abria a porta para a mesma, e lançou um último olhar a janela. Havia uma pessoa debruçada, que lhe acenava um tchau com um dos dedos e falava algumas palavras, que obviamente ela não podia ouvir, mas podia muito bem deduzir. Ela sabia que aquilo tinha sido o melhor que ele podia pensar, por causa de sua promessa de “não fazê-la chorar”, e sabia que se ele tivesse descido, isso iria realmente acontecer. Então apenas ergueu a mão bem alto, e murmurou as mesmas palavras que ele, e soube que este entendera.
Com um breve sorriso, sentou no banco do carona e viu Nick fechá-la, antes de passar pela frente do automóvel e entrar no lado do motorista. Ele girou a chave e fez a picape arrancar. E então, ambos partiram. Numa viagem que haveria de mudar tudo… e da qual Kit Black nunca se esqueceria, mesmo que se passassem dezenas de anos.

Pois além das estrelas e das fronteiras entre mundos, ela finalmente encontraria as respostas que tanto buscara… 

~Kit Black

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