7 de ago de 2015

Kit Black: Viajantes de Mundos

Segundo capítulo: Uma segunda chance (parte I).

Quando ela abriu seus olhos, parecia que tinha dormido por um século. A dor tinha passado, mas Alyson não se sentia normal. Ela estava num parque, cercada por árvores, com uma luz dourada emanando de todo o lugar. Um vulto negro encapuzado estava ao seu lado.
-Quem é você?
-Eu? -O vulto dirigiu-se a ela, numa voz feminina e calma: -Em alguns lugares sou conhecida como “o fim da vida”, em outros como destruidora, outros ainda me chamam de ladra. -Fez uma pausa, na qual Alyson balançou tristemente a cabeça, e continuou: -Mas para você, sou apenas Morte.
-E você vai me levar para o céu, ou para o inferno?
-Para nenhum dos dois. -Respondeu a Morte, tirando o capuz e mostrando-se para a jovem. Essa esperava ver um crânio chamejante, mas logo se tranqüilizou: o rosto da Morte era bonito, mais belo, talvez, de que qualquer rosto que existe sobre a terra. Tinha cabelos negros, que chegavam até a cintura, olhos negros, nada assustadores, mas cheios de mistérios intrigantes. A pele era pálida como a luz da lua, os lábios vermelhos e carnudos.
-Mas eu não morri?
-Você está morta.
-Então eu tenho que ir para algum lugar, não é?
-Isso é o que acontece com todos.
-E?
-Bom, aconteceria com você também, porém há uma missão valiosa a cumprir.
-Missão?Que tipo de missão?
           -Siga-me. -Chamou a Morte. Alyson a seguiu por toda a estrada em meio ao parque, depois pelo caminho que levava até uma colina alta e coberta de uma grama verde quase cintilante. Subiram a colina e no seu topo havia um lago minúsculo.
-Sente-se.
A garota sentou-se com as pernas cruzadas na grama, e olhou para a Morte.
-Você é uma garota de coração nobre. Preferiu morrer sozinha a compartilhar essa experiência com os seus amigos, e depois de tanto pedir para morrer, não se arrependeu. Por quê?
-Não acredito que a morte seja um castigo, nem uma falta de sorte.
-É mais diferente do que aparenta, Alyson Valoem, ou não seria melhor dizer Kit Black?
-Kit Black é meu codinome.
-Claro. -Concordou a Morte, mas de um jeito estranho.          
-Mas... A senhora não disse que eu tenho uma missão?
-Tem. Precisa deter uma assassina fria e cruel.
-Deter?
-É. De tentar dominar os mundos. Mas isso você vai descobrir com o tempo. Para mim foi dada apenas a obrigação de lhe entregar isso. -E dizendo isso, a Morte botou um cordão no pescoço de Alyson. O cordão era prateado, e tinha a forma de uma estrela envolvida por uma lua, e ao seu redor havia um aro de prata.
-E como estão os outros?
-Isso você mesma pode ver. -Disse a Morte, tocando com o dedo indicador o lago. A superfície lisa e transparente agitou, e no seu centro apareceu uma imagem embaçada.
-Por que está tudo embaçado? -Perguntou Alyson.
-Infelizmente o Mundo Real é altamente suscetível a se corromper. E a maldade se espalha pelos corações humanos tão rápido quanto um veneno num corpo frágil.
Alyson olhou para o lago. A imagem tinha se tornado finalmente visível. Ela viu alguém chorando sobre o seu corpo, desconsoladamente. Não demorou muito para perceber quem era: Ken!
-Pelo amor de Deus, Ken, ela morreu, chorar não vai trazê-la de volta. Eu gostaria muito de te mandar para junto dela, mas eu prefiro não atacar pelas costas. Quero muito me divertir com isso. -Disse um rapaz ao seu lado, dramaticamente.          
-Vai para o inferno! -Ken deitou o corpo de Alyson delicadamente no chão e levantou-se. Cravou seu olhar no rapaz, seu rosto expressava um ódio quase homicida. -Eu vou matar você, Driguem. Essa é a gota d’água.
-É a hora de você voltar. -Alegou a Morte, voltando-se para Alyson. -Por mais que Driguem mereça morrer, essa não é a hora dele. E não me preocupo só com a morte dele, mas também com Kensuke. Vá, e evite que ocorra algo grave. Todos têm um papel a cumprir, e pode ser que esses dois sejam muito importantes no seu destino.
Alyson levantou-se: -Posso saber uma coisa?
-O quê?
-Por que os humanos temem tanto você?
-Eu sou o oposto da coisa que todos os homens mais cobiçam. A imortalidade. Na realidade, ela é abençoada por aqueles que nunca poderão tê-la, e amaldiçoada por quem a tem na mão.
-Obrigada. Mas creio que é a hora de dizer adeus.
-Não diga adeus. Diga até outro dia. Nós ainda nos encontraremos, mais vai demorar muito.
Alyson viu a linda paisagem ao seu redor desvanecer, e sentiu que mais uma vez mergulhava na escuridão. Seu corpo começou a doer e ela abriu os olhos. Estava novamente na rua em que morrera, e sua roupa estava empapada de sangue. Mas, ao invés do ferimento que havia lhe tirado a vida, apenas uma cicatriz, em forma de cruz, restara. A dor desapareceu completamente, e só ficou a memória da Morte, nada mais… Além do medalhão, que ainda estava em seu pescoço.
Alyson levantou-se com esforço e tentou desesperadamente achar Ken. -Espero que eu não tenha chegado tarde demais.
Olhou de um lado para o outro e conseguiu localizá-los. Os dois travavam uma batalha violenta, que terminou com a espada de Ken voando longe e Driguem mirando o arco em seu coração. Alyson quase teve um colapso nervoso: -Qual é! E agora o que eu faço? -Olhou injuriada para o cordão no seu pescoço e retirou-o. -Vamos, me dê uma luz! -Por um instante algo passou pela sua cabeça. Uma voz familiar dizia para “mostrar sua verdadeira forma”. Ela reconheceu prontamente a voz que havia lhe avisado que iria morrer. Concentrou-se no medalhão e começou a repetir para si mesma sem cessar: “mostre minha verdadeira forma, mostre minha verdadeira forma, mostre...”.
Repentinamente sentiu que estava mudando. Mas não sabia nem como, nem por quê. Quando deu por si, tinha orelhas de gato, uma cauda negra e suas unhas tinham ficado afiadas como garras. O seu espanto foi logo subjugado pelo pensamento em Ken, que daqui a poucos minutos seria transpassado por uma flecha. -Ah, ele não vai. Não vai mesmo!
Com todos os motivos para matar alguém, qualquer pessoa normal pensaria duas vezes antes de cometer um crime. E a grande pergunta é: Até que ponto você iria até que tivesse a vontade de matar alguém?
Foi uma questão de minutos (ou seriam segundos?), para Alyson chegar aonde queria. Mais uma pequena pergunta: Se alguém ameaçasse matar o seu futuro namorado, o que você faria?
-Se encostar em mais um fio de cabelo dele, você é um homem morto. -A voz de Alyson chegou como uma apunhalada, bem atrás de Driguem.
-Quem deveria estar morta aqui é você, não? -Disse Driguem, virando-se e encarando Alyson com olhos vermelhos como brasa. -Nunca pensei que iria me sentir tão bem em conhecê-la, Kit Black.
-Não use o meu nome em vão… -ela disse instantaneamente e, antes que pudesse reparar no que tinha dito, foi cortada por Driguem.
-Claro, se é assim que prefere.
-Eu preferiria que você fosse embora enquanto pode, para que eu não precise sujar as minhas mãos te mandando para o inferno!
-Eu vou, queridinha, mas eu volto. E quando eu voltar é bom estar preparada para pagar por sua ousadia.
-Se voltar, pode ter certeza que não terei misericórdia.
-Palavras bonitas para quem acabou de reviver. Ou será que os boatos são verdadeiros e a grande salvadora de Diamante retornará finalmente? Eu não gostaria de estar na sua pele, principalmente quando Haradja te encontrar.
-Quem? -Alyson perguntou, mas tarde demais. Driguem tinha desaparecido numa nuvem de fumaça, e deixado atrás de si várias perguntas.
Ken levantou-se meio em choque e olhou para Alyson: - Está viva? Como você sobreviveu?
-É uma longa história. -Respondeu a garota. -Você está bem?
-Na medida do possível. Mas eu quero saber o que aconteceu com você.
-Comigo? Nada não, eu só bati um papo com a Morte. Eu tenho uma moral com o pessoal lá de cima e nem sabia. -Comentou, olhando para o céu e dando um muxoxo.
-Mas... Você tem certeza da que está bem? -Perguntou Ken, chegando mais perto e colocando a mão na testa da garota.
-Você está variando? Já não disse que estou legal?
-É quê...
-Quê?
-Eu fiquei com medo de te perder. -Ele confessou, abraçando-a.
-Sinceramente, achei que quase ninguém fosse sentir a minha falta. –Ela disse, sem soltá-lo.
-Quando é que deu pra ter esses pensamentos idiotas? -Ele riu, tentando fugir do assunto.
-Se isso te consolar, quando eu morrer de vez, eu volto para buscar você.
-Promete? Eu não sei se posso viver sem você.
-Claro. -Respondeu Alyson, pensando ao mesmo tempo: “Duvido muito que Dona Morte ia me oferecer uma honra dessas.”
                                                          T ZT ZT ZT
Alguns minutos depois, os dois estavam sentados na confortável sala da casa de Alyson, com Cloe e Sacha, para tentar achar uma explicação.
Alyson estava deitada no sofá com uma roupa limpa e com uma compressa de gelo na cabeça. Ken estava na poltrona, limpando um ferimento superficial que uma das flechas de Driguem tinha feito no seu ombro. Cloe observava o medalhão da Morte atentamente, sentada no outro sofá. Sacha acabava de chegar da cozinha, com uma xícara cheia de líquido verde na mão.
-Prontinho! -disse ao entrar, dando a xícara para Alyson e sentando junto com Cloe.
-Você tem certeza que isso aqui é pra dor de cabeça, Sacha? -Perguntou ela, fazendo uma careta e cheirando o chá.
-Quer discutir comigo? Se tiver uma coisa que eu sei fazer bem, essa coisa é cozinhar.
-E de que é o chá? Tem cheiro de mato.
-Porque é mato! -Alegou Cloe, afirmando, categoricamente: -Eu disse que era a erva da direita, mas ela cismou que não era.
-Eu... Vou ficar com o bom e velho gelo mesmo. -Desistiu Alyson, colocando a xícara cheia numa mesinha ao lado do sofá.
-Afinal, de onde saiu essa sua dor de cabeça? -Perguntou Cloe, voltando a sua atenção para a amiga: -Você levou uma flechada no coração, não foi?
-Foi. Mas desde a hora que eu voltei essa dor de cabeça está me matando. -Respondeu, amuada. -Falando nisso, você descobriu alguma coisa sobre esse medalhão?
-Nada. Parece até que veio de outro mundo. Não tem nada sobre ele escrito em lugar algum. Geralmente quando se tem um artefato que supostamente tem poderes, ele fica em um museu, ou escondido.
-Mas deve ser de outro mundo mesmo, foi a Morte quem deu. -Alegou Sacha, completando: -Ou você acha, como eu, que Alyson está com um parafuso solto?
-O que eu acho é que vou te fazer em pedaços se repetir isso de novo. -Ameaçou a jovem, vermelha de raiva.
-Não, eu não acho que nossa amiga pirou. -Continuou Cloe. -Além do mais, não há nenhuma explicação plausível para o fato dela ter levado uma flechada em pleno coração e ter sobrevivido.
-Concordo com ela. -Disse Ken, entrando na conversa.
-E eu acredito em poderes ocultos e em magia, apesar de, na maioria das vezes, tentar achar uma solução cientifica para uma grande parte de fatos estranhos.
-Nisso você puxou o seu pai. -Comentou Alyson. -Enfim, pode continuar.
-De acordo com os meus cálculos, a sua transformação deve ter algo a ver com o episódio do gato. Quer dizer, quais são as possibilidades de um lobo, um gato e um pássaro “atacarem” a gente no mesmo dia? –Alegou Cloe, concluindo: -Isso me faz imaginar que, se você transformou-se em meio-gata, é provável que nós vamos nos transformar também.
-Uma grande probabilidade, na minha opinião. –Disse Ken. Seu olhar pareceu vago. –Foi mal... Isso é tudo culpa minha.
-Como é? –Questionou Alyson, o fitando.
-Por isso que o assassino o conhece. –Contestou Cloe. –Vai contar o que você sabe para nós, Ken?
-Já devia ter aberto o jogo há muito tempo. Sabia que havia algo errado, mas não me esforcei para descobrir o que era. Vou contar tudo para vocês.
-Tudo o quê?
-A minha história... É melhor começar do início...
-De preferência. –Resmungou Alyson, cruzando as pernas.
-Deixe-o falar, amiga. –Pediu Cloe.
-Desculpe, não estou com muita paciência para isso hoje.
-Claro, estamos todos muito calmos com relação a tudo isso. Não é? –Ironizou Cloe. –Continue, Ken, por favor.
-Quando eu tinha doze anos, meus pais foram assassinados.
-Seus pais foram assassinados? –Questionou Sacha. –Alguém não devia gostar nada deles.
Kensuke olhou-a pensando seriamente que “aquela ali não tem mais jeito”, e já ia respondendo quando Cloe o interrompeu. –Ignore seus argumentos idiotas como eu. Assim você poupa saliva.
-E tempo precioso. –Completou Alyson.
-Sem lugar para onde ir, e querendo vingança, me refugiei junto a um antigo mestre de artes marciais. Chamavam-lhe de Viajante de Mundos, e, sinceramente, eu nem imaginava o porquê. Enquanto eu treinava com ele (que também era um ótimo espadachim), descobri quem tinha assassinado meus pais... Driguem.
-Espera aí... -A jovem interrompeu de novo. –Quantos anos ele tinha nessa época?
-A minha idade. Doze anos.
-Ele já era um assassino com doze anos? –Alyson continuou, chocada. –Que horror.
-Chocante, não é? Ele fazia parte de um grupo de exilados da sociedade espadachim, por serem desonestos e formarem assassinos muito jovens. O grande problema foi que Driguem jurou cumprir todas as suas missões completamente.
-O que isso quer dizer? –Perguntou Sacha.
-Ou seja, não deixar ninguém vivo. –Traduziu Cloe.
-Exato. Ele foi atrás de mim.
-E imagino que você foi lá mexer com quem não devia. –Disse Alyson.
-Pensei. Apenas pensei. Meu mestre me disse que, se eu me vingasse, seria igual a ele. E que se eu fosse matá-lo, que fosse por um bom motivo, que não fosse vingança. Para não fazer nenhuma besteira da qual eu poderia me arrepender depois, resolvi vir para Petrópolis. Mas antes de partir meu mestre me explicou o motivo do apelido: ele nascera em outro mundo, paralelo ao nosso, chamado de Reino Diamante. Há outro ainda, o Mundo da Imaginação, onde todas as histórias feitas no nosso mundo criam vida. O Viajante de Mundos me advertiu que Driguem mais cedo ou mais tarde se uniria a uma assassina de Diamante, que quer dominar todos os mundos, para destruir a única pessoa que pode detê-la. E, finalmente, me explicou que veio a este mundo com uma missão...
-Achar um rapaz, para que pudesse contar sobre seu mundo e para que este fiel aprendiz encontrasse a salvadora de Diamante. E levasse-a para lá. –Adivinhou Cloe.
-Então foi tudo planejado? –Questionou Alyson, rouca.
-Quase tudo. A Morte estava encarregada de te entregar o medalhão, mas não era para você ter morrido... E eu nem imaginava que fosse você. Eu precisava ter pensado nisso, com todos os seus devaneios... Você não devia ter morrido. Eu tinha que proteger você. Desculpe-me.
-Tinha que ter algum erro de cálculo, né? –Disse Sacha. –Ele não podia saber de tudo.
-Foi tudo planejado nos mínimos detalhes. Isso quer dizer que as coisas não estão mesmo boas lá em Diamante. -Argumentou Cloe. -Devem estar precisando mesmo de ajuda.
-E vão ter. -Alyson levantou-se do sofá bruscamente. -Eles pediram ajuda, de certo modo, e eu não vou cruzar os braços e fingir que não é comigo.
-Então concordamos, vamos partir.
-Para onde?
-Para um dos cinco portais que ligam esse mundo à Diamante. O portal de Stonehenge.
-Eu sabia! -Exclamou Cloe.
-Posso perguntar: sabia o quê? -Replicou Alyson.
-Que havia algo místico em Stonehenge. Sempre achei que algo lá era de outro mundo, sobrenatural. É um lugar muito magnético, sabe?
-Você não é a única que acha esse lugar “místico”, lembra-se? A quantidade de gente que sente isso é bastante grande.
-É, verdade. Mas uma vez que você visita o Stonehenge, jamais esquece. Da próxima vez que eu me mudar, vou ver se arranjo uma casa perto de Wiltshire.
-Não nessa vida, querida. Passamos muito tempo sem se falar, e você quer ir embora de novo? -Disse Sacha.
-Por que nunca me disse que visitou o Stonehenge? -Cortou Alyson.
-Eu esqueci... E, aliás, sendo filha de quem eu sou, isso não deveria ser uma surpresa.
-Tem alguma idéia de quanto tempo vamos levar para chegar lá? -Questionou Ken.
-De avião, mais ou menos uns dois dias. Mas eu não sei ao certo, pode demorar três.
-Vamos precisar de um avião. -Comentou Alyson, olhando para cima.
                                               T ZT ZT ZT                                       
Horas depois...
-Esse é o avião mais rápido que eu consegui. -Disse Cloe, na Bahia de Guanabara, Rio de Janeiro, apontando para o hidroavião complexo e grande que o pai tinha lhe dado, anos antes. O piloto saiu do veículo e lhe entregou as chaves. Era um rapaz atraente, de cabelos castanhos claros e olhos azuis. Teria uns vinte e seis anos, no máximo.
-Obrigado Elliot. Vou ficar te devendo essa.
-Sem problemas. Eu ia ter que vir de um jeito ou de outro. O que quer que eu diga para seu pai quando ele chegar?
-Diga que eu... Volto daqui a quatro dias. Eu espero que não fique entediado, aqui sozinho.
-Não, já estou acostumado. Boa viagem, e vê se vocês criam juízo, em?
-Pode deixar. -Respondeu Cloe. -Vai de moto, é mais rápido.
-Não, tudo bem, o James têm um carro estacionado em algum lugar por aqui...
-Papai já está aqui?
-Em uma visita, acho... É melhor eu ir.
-Então tá. Tchau.
Elliot deu um beijo na testa da garota e pegou as chaves que ela lhe estendia. –Pode levar ela para casa? Não posso sumir por três ou quatro dias e deixar minha moto estacionada em qualquer lugar.
Ele sorriu e acenou com a cabeça, afastando-se, minutos depois desaparecendo numa curva da estrada. É preciso explicar que Cloe foi de moto na frente, para preparar os procedimentos para a viagem, e os outros foram de ônibus (o que causou muitos protestos por parte de Sacha).
-Quem é? -Perguntou Alyson.
-Não acha ele velho demais para você, Cloe? -Alegou Sacha.
-Pára de falar besteira, Sacha, é obvio que ele não é namorado da Cloe. -Retrucou, virando-se para Cloe depois. -Mas sério, quem é ele?
-É o meu meio-irmão mais velho, o Elli, se lembra? Aquele que estudava na Inglaterra.
-Aquele é o Elliot? Da última vez que o vi, era um adolescente marrento e metido. -Comentou Alyson, surpresa, tentando relembrar a ultima vez que o tinha visto, dez anos antes. -É, as pessoas mudam.
-Incrível né?
-Espera aí... Ele não chama o pai de vocês de “pai”.
-Pois é, Elliot está numa fase difícil, para falar a verdade só chama o nosso pai desse jeito quando está de muito bom humor ou em situações especiais... Quando visitamos nossa avó, principalmente.
-Ela tem paranóia com essa história de filho pródigo ainda?
-Sabe como são os mais velhos. –Ela disse, fazendo uma careta de indiferença. -Agora, quem vai pilotar o hidroavião?
-Você não sabe pilotar?
-Sei. Mas eu preciso tirar um cochilo. Eu madruguei, para chegar aqui cedo. Mas se quiserem que eu pilote...
-Pode deixar, Cloe, você já fez o bastante conseguindo o hidroavião e as coordenadas de vôo. -Decidiu Ken.
-Você sabe pilotar? -Questionou Alyson.
-Sei e tenho permissão.
-É, gatinha, você é a única aqui que não dirige nem pilota coisa alguma.
-Isso é porque eu tenho bom senso, ao contrário de você, Sacha.
-Enfim, vamos logo. Entrem no hidroavião, por favor. -Pediu Ken evitando uma discussão.
-Trancou a casa, Ly?
Alyson detestava ser chamada assim…
-Claro, lhe pareço irresponsável? Agora se eu fosse você, Sacha, parava de gracinhas. -Respondeu a jovem, entrando no hidroavião.
-Está bem, já parei.

O hidroavião finalmente alçou vôo. Começava, neste instante, um novo capítulo da vida desses quatro jovens. O que eles encontrariam pela frente? O que a ardilosa deusa do destino terá traçado em seu caminho? Muitas vidas dependeriam deles, e Alyson e os outros tirariam coragem de nem se sabe onde para enfrentar tudo o que lhe foi reservado. Mas estou muito à frente, e não quero revelar nada antes da hora. É melhor continuar de onde parei.

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