26 de jun de 2015

Hearts Bites - Capitulo I

Capitulo I - Parte Dois.

Misaki Amane.




[8:04am] O Professor chega na sala com sua expressão cansada, as rugas e olheiras marcavam seu olhar vago e ofuscado por uma vida triste. Sim, com certeza já havia sofrido de mais. Coloca seu material em cima da mesa e solta um longo suspiro desejando que aquele dia chegue ao fim e no dia seguinte também, ele apenas existia, não vivia…


—Bom dia, classe. —ele se posiciona na frente da lousa e força um sorriso.—Reverenciem.


Todos reverenciam, alguns fazem piadinhas sobre o estado físico do professor, mas ele parece tão acostumado com isso que apenas se dirige novamente a sua mesa e abre seu livro nos mandando resolver alguns exercícios aleatórios.


Os olhares maldosos dos alunos estavam mirados no pobre professor Tsukui. Até que um dos garotos joga uma bolinha de papel na cabeça do mesmo.


Me encho de raiva, como se aquilo fosse chamas me consumindo dolorosamente, de pouco a pouco.


O professor apenas pega a bolinha e joga no lixo mirando seus olhos para alguns papéis na mesa.


Me levanto enfurecida e caminho até a sua mesa sentindo os olhares maldosos, agora, sobre mim. Ele me olha sorrindo com uma certa simpatia.


—Professor? —retribuo o sorriso e acaricio levemente seus cabelos grisalhos. —O senhor está bem? Está com problemas?


Miro meus olhos para as folhas. Contas e mais contas. Uma pilha de contas vencidas com juros altíssimos.


—Ah, não é nada, minha querida. —ele esconde as folhas notando meu olhar.


Olho para a sala em uma completa algazarra, muitos estavam rindo de minha atitude. Mas eu os encaro com um olhar misto de ódio e nojo.


—Podemos conversar depois da aula? —sorrio novamente coltando minha atenção para ele.


—Sim… Se não houver problemas para você. —ele empilha as contas e coloca dentro da sua carteira completamente vazia, não havia nem um centavo.


Confirmo com a cabeça e volto para o meu lugar, agora sorrindo para mostrar confiança ao Professor Tsukui.


[9:20am] A aula acaba e todos reverenciam o professor agora já um pouco mais sorridente. Agora todos pegam seus almoços e eu me levanto observando o Senhor Tsukui acenar para mim na porta.


—Podemos ir até o terraço? Lá é mais calmo e assim poderemos conversar melhor. —sorri ao observar ele consentir com a cabeça e caminhar em direção ao local.


Kyori passa ao meu lado com um grupo de 'amigas', e sem que elas percebam, dá uma piscadela em minha direção e sorri. Apesar dela me considerar como amiga, ainda prefere andar com os projeto de idols. Não que eu me importe, claro. Fico feliz em saber que ela se dá bem com alguém além de mim.


—Chegamos, Senhorita Amane. —ele gira a maçaneta após subir alguns degraus da escada lateral e abre a porta. Uma grande iluminação invade os meus olhos me deixando meio desnorteada. —Você está se sentindo bem?


Ele dá um passo para trás, se acomodando nas sombras junto a mim, seus olhos também arderam naquele momento.


—Estou sim, apenas é a falta de hábito estar exposta a luz. —sorrio e atravesso a porta indo em direção a uma parte com sombra, então me sento lá observando o céu azul.


Realmente estava um dia muito bonito, a briza fresca leve mente úmida e o sol aconchegante. Estávamos no ponto mais alto da escola, haviam muitos outros prédios tão grandes quanto ela, mas nenhum tinha a vista tão bonita quanto aquela. Acho que por um momento me senti feliz, por um momento não senti como se faltasse algo em mim, estava preenchida por inteiro.


—Bem, eu quero te ajudar, mas pra isso você vai ter que me ajudar a te compreender. —sorrindo, me viro para ele enquanto suspiro apoiando meu rosto com as mãos.


—Problemas financeiros, Senhorita Amane. Tenho acumulado muitas contas e não consigo pagá-las. —ele lança um olhar vazio ao horizonte como se estivesse lembrando de algo. —Minha ex-mulher levou tudo da minha conta, após eu descobrir a sua traição com um qualquer…


Ele abaixou o rosto e esfregou os olhos com os indicadores, contendo as lágrimas.


—Não tem problema, sou sua amiga. Pode chorar e farei de tudo para te ajudar! —sorri da forma mais acolhedora possível e acariciei o seu ombro logo escutando seus soluços. —Vamos, pode dizer tudo oque você precisa. Eu não tenho muito, mas tenho certeza que já ajuda!


Pego minha carteira e pego toda a minha mesada o oferecendo, ao ver o dinheiro ele arregala os olhos e coloca as mãos na frente do rosto como se não quisesse receber.


—Olha, não é muito… Mas pode te ajudar, né? —aproximo dele mais ainda as notas com o maior cuidado, dando adeus as novas atualizações que eu compraria com aquele dinheiro, mas era por um bem maior, então não me apegaria.


—Não, não. E-eu não posso aceitar! —ele se ajoelha e abaixa a cabeça. —Este é o seu dinheiro, vai fazer falta a você.


Sua voz saia tremida, embargada com lágrimas de desespero. Eu coloco as notas em cima do meu colo e coloco minhas mãos em seus ombros enquanto permaneço sorrindo, com certeza ele queria aceitar, mas ainda o orgulho estava falando ao seu ouvido.


—Não vai não! Pode ter certeza. Eu quero te ajudar, então, por favor, aceite! —estendo o dinheiro e abaixo a cabeça, pude ver suas mãos tremendo se aproximar das minhas e então ele as pegam e sorri. —Falta quanto pra quitar todas elas? Você ou a sua família tem algum comércio? Eu posso trabalhar lá pra te ajudar a pagar…


—Obrigado!! Muito obrigado senhorita Amane! —ele me abraça repentinamente e eu suspiro aliviada, estou ajudando alguém nas mesmas condições ou pior do que as minhas. —I-isso da pra pagar a metade! Minha ex-mulher tinha uma pequena padaria no centro, não muito longe daqui… Mas eu não quero te explorar, você já me ajudou muito!


Agora ele estava ajoelhado me reverenciando e agradecendo mil vezes, eu soltei uma pequena gargalhada de felicidade. Estava me sentindo ótima.


—Uma padaria? Isso não é má ideia! E por favor, pode parar de me agradecer. Só fiz o quê achei que tinha que fazer. Me sinto muito bem por isso. —uma briza forte passa bagunçando meu cabelo e ele ri com a situação. Parecia se sentir bem também.


—Ah, sim. Mas ela está fechada e totalmente empoeirada. Falta o padeiro, também. Acho que será meio difícil achar um… —o senhor Tsukui parecia um pouco desanimado agora, com a possibilidade de a padaria não reabrir.


—Tudo bem, eu consigo achar um e por enquanto nós só nos preocuparemos com a limpeza e inspeção do local, certo? Poderia cuidar da papelada pra mim. Sabe, não sou muito boa com papéis, além do mais, você é o proprietário. —sorrio me levantando e alongando os braços.


—C-c-claro senhorita Amane! Obrigado, novamente obrigado por tudo!


[12:12am] O sinal da saída soou, as férias de verão estavam mais do que próximas. Apenas á 19 dias. Kyori parecia muito empolgada ao fazer planos com suas amigas, piscina, parque aquático, praia, acampamento de verão… Meus planos no momento era apenas me dedicar aos meus jogos, principalmente Spheres. Upar, upar e upar. Praia não dá xp.


Ah, sim. Tem a padaria do senhor Tsukui, ele parecia muito animado com a ideia. Acho que poderia me dedicar um pouco a isso, a menos se não me atrapalhar nos jogos. Não contei para a Kyori sobre isso, mas, com certeza, ela ficará empolgada. Tirando o fato de ter que conviver diariamente com doces —monstro das idols—.


—Terra chamando Misaki, Terra chamando Misaki. Está na escuta? —novamente ela aparece me arrancando dos devaneios. —Dormindo com os olhos abertos de novo? Ta todo mundo falando que você está envolvida com um professor.


—Oquê? Como assim? —meu coração batia tão rápido que meu peito até doía e minhas pernas bambearam. —E-e-eu com um professor…?


Me encostei na parede tentando recuperar o ar, apesar de saber do que os boatos se tratavam, malditos…


—Misaki! Você está bem? —ela colocou a mão em minha testa verificando minha temperatura. Seu rosto estava com uma expressão preocupada. —São apenas fofocas, Misaki…


—Quem está espalhando isso?! —abaixei a cabeça exalando ódio. O senhor Tsukui já tinha muitos problemas, mais um ele não suportaria. —Quem é o maldito que está espalhando isso?!!


Não me aguentei e gritei fazendo todos olharem pra mim, em seguida soquei a parede fazendo meus dedos sangrarem. Não me importava com a dor, não me importava se falassem de mim, se inventarem boatos sobre mim, se me zoassem, se jogassem bolinhas de papéis ou jogassem meus sapatos na lama. Mas não suporto que metam outras pessoas nas fofocas.


Lancei um olhar frio e impiedoso, poderia socar o imbecil até a morte agora. Kyori deu um passo para trás com um certo medo, todos estavam com medo…


Peguei minha mochila do chão e sai correndo com passos pesados sem rumo. Kyori me observava por um tempo, o grupinho dela estava olhando para mim e rindo. Ela parecia com vontade de vir atrás de mim, mas com medo de perder a 'amizade' das garotas.


[13:30am] Corri com todas as minhas forças desejando que o professor não seja afetado por meu descuido, desejando que Kyori tenha se dado bem com as garotas, desejando que quando eu chegasse em casa minha e mãe não estivesse lá…


Sozinha, era tudo oque eu queria. Estar sozinha. Foi muito bom pra ser verdade, por um momento me senti feliz depois de muito tempo. Tanto tempo que eu nem me lembro mais… Mas eles tinham que estragar tudo, tinham que inventar coisas absurdas sobre mim e o senhor Tsukui… Talvez eles não tenham divulgado o nome dele.


Deus, por favor, ajude-o a sair ileso dessa. Quero muito que ele não seja afetado.


Agora estou aqui, na minha antiga escola do fundamental, no parquinho, me balançando no balanço enferrujado.


Tenho vagas lembranças sobre esse tempo, nunca fui muito popular, mas também não era a excluída, sempre tive muitos amigos, era boa com brinquedos de montar e matemática. Era a melhor no esconde-esconde e todos queriam brincar comigo.


Aos poucos fui perdendo a 'audiência', tudo começou quando meus pais começaram a brigar, nesse dia eu apareci com um hematoma no braço e um garoto disse que era uma doença grave e contagiosa… E a cada dia os hematomas iam aumentando e cada vez mais eles iam se afastando… Até que me vi totalmente isolada, os professores não me davam assistência, chorava no canto enquanto todos cochichavam…


Escutei o celular tocar, era uma mensagem da Kyori.


[14:00am] “Misaki…?


Oi, você está bem? Estou preocupada, liguei pra sua casa, mas ninguém atendeu. O Professor Tsukui está muito preocupado com você… Desculpe, não devia ter te dito aquilo. São apenas boatos, mas eu sei quem os começou. Poderia encontrar eu e o professor na cafeteria Kimomi-chan? Estamos te esperando, por favor, apareça.


Kyori <3 “


—Droga! Ele já sabe sobre isso… —pulei do balanço e chutei uma pedra, o céu começava a ficar cinza ameaçando chuva. —Droga, droga!


Peguei a mochila do chão e comecei a correr em direção a tal cafeteria na esperança de que a chuva não me pegasse antes, minhas esperanças foram totalmente molhadas em segundos.


Estava correndo desesperadamente pela guia da calçada, encharcada, ofegante e cansada. As ruas estavam vazias e eu não estava prestando atenção para onde estava andando. De repente ouvi um estrondo e logo em seguida fui derrubada no chão. Minha cabeça começou a latejar e minha visão estava embaçada.

[14:10am] Só queria chegar rápido na cafeteria e resolver o mal entendido…


~DarkLipstick

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