19 de jun de 2015

Hearts Bites - Capitulo I

Capítulo I - Parte Um.
Misaki Amane.




[5:50am] —Misaki! —minhas pálpebras estavam pesadas de mais e meu cérebro não conseguia distinguir a tal voz irritante, acho que é o efeito dos dois litros e meio de café. —Levanta logo daí, sua vagabunda!


Minha mãe, logo deveria saber, estava tão na cara! Quem mais iria me acordar a gritos em uma segunda de manhã?


Eu me sentei na cama e sorri coçando os olhos. Nem mesmo essa mulher que se diz ser minha mãe vai conseguir estragar meu dia depois de uma partida incrível de Spheres, mesmo que essa tenha me custado duas noites de sono e uma bela saudação amorosa e totalmente fraternal ao “acordar”.


Abri os olhos com muita dificuldade e me deparei com uma mulher jovem, de cabelos curtos e artificialmente vermelhos, muito bem-vestida e com aquele olhar penetrante que me faz sentir um frio na espinha.


—Já pode ir tirando esse seu sorrisinho bobo do rosto! —ela bate o pé no chão e o barulho do salto ecoa, apesar do meu quarto ser revestido com um carpete grosso, porém desgastado. —Eu e o seu PAI vamos sair e não temos hora pra voltar.


Isso pode parecer meio tosco e irresponsável, mas é assim que ela me trata dês dos meus dez anos. Eles, ela e o homem, saem à hora que querem e voltam à hora que querem, uma vez me deixaram sozinha por duas semanas, não que eu esteja reclamando por estar sozinha, gosto do silêncio e sentimento de paz, mas as vezes eu queria que alguém estivesse aqui apenas para preencher um vazio no meu peito… Enquanto ao meu “pai”, bom ele não é meu pai, é só um vagabundo esnobe metido a riquinho que quer minha mãe longe daqui. Ela se “casou” com ele faz pouco tempo, antes dele ela teve mais dois depois do meu verdadeiro pai.


Suspiro pesadamente fazendo meu cérebro acordar. Vivo em um eterno pesadelo.


—Quero ver isso daqui bri-lhan-do. —ela faz um movimento com as mãos e estralou os dedos sorrindo, solto uma risada abafada e ela me olha com desdém.


[06:00am] Por fim ela sai do quarto batendo a porta com força, não sei como os vizinhos ainda não reclamaram do barulho a cada manhã.


Eu rapidamente me levanto meio tonta, cambaleio para trás e acabo me sentando novamente na cama fofinha e macia.


—Cama, eu sei que você me ama, mas eu preciso ir… —olho para o travesseiro com fronha roxa e o acaricio. —Não, não chore, eu também te amo e se fosse por mim nunca mais sairia daqui.


Me levanto novamente e arrumo milimetricamente minha cama, assim como ela exige todos os dias, mas no fim já havia pegado o hábito de arrumação. Sem perder o meu precioso tempo matinal, saio pegando do chão as embalagens de comida, alguns pratos e copos da maratona empolgante de jogos. Atravesso a sala extremamente bagunçada com alguma dificuldade, as roupas sujas barravam o caminho então eu as chutei para um canto menos visível jurando a mim mesma que as lavaria quando chegasse. Paro na porta da cozinha pequena e olho um pouco assustada. Havia uma pilha ENORME de pratos na pia.


Todos os dias é a mesma coisa, a mesma bagunça. Gostaria de saber como ela se forma, algum feitiço talvez? Eles faziam isso de propósito, não é possível. Quem consegue sujar duas dúzias de porcelana em apenas SETE horas? Oque custa lavar UM copo sequer?


Agora já são seis horas; tenho vinte minutos para lavar aquilo tudo, contagem regressiva: um dois três e já!


Rapidamente começo a ensaboar tudo me desafiando mentalmente. No meio do processo recolho os pratos da sala, pego o lixo do chão, limpo o fogão e guardo alguns potes dentro da geladeira. A cozinha não era muito grande, graças a Deus, se não demoraria um século para arrumar.


[6:30am] Com um sacrifício consegui terminar tudo a tempo para me arrumar pra a maldita escola. Meus braços já estavam doendo e minha cabeça também. Me arrastei pelas paredes até chegar novamente no meu quarto, abro o guarda-roupa mirando a minha coleção de uniformes escolares, sim, todos iguais. Tudo oque meu dinheiro pode comprar são uniformes novos.


[6:50am] Tomei um banho super-hiper rápido, e agora estou aqui em pé me olhando no espelho. As olheiras fundas, com certeza, davam um ar sombrio ao meu rosto incrivelmente pálido, anemia. Olhei para os meus pulsos magros com as veias saltando, algumas marcas fundas já cicatrizadas, resultado de uma depressão profunda que desenvolvi meses atrás.


Abri minha gaveta 'mágica'. Como se lá houvesse um pote de Mana, Health… Mas não, apenas o meu batom vermelho e meu brincos. Apesar de tudo, ainda sou um pouco vaidosa… Como a minha mãe.


[7:00am] Tranco a porta e saio andando pela rua movimentada no subúrbio de Tóquio, casas no estilo padrão onde apenas as pessoas de classe baixa se acomodavam, vulgo eu e minha mãe estamos incluídas. A escola não era muito longe, poderia pegar um metrô ali na estação perto de casa ou andava cinco quadras cortando pelos becos até chegar na escola.


“Primeira opção escolhida com êxito, teletransportação em andamento….”


[7:30am] Após ser cuspida de um vagão estupidamente lotado, cá estou eu observando os alunos entrarem alegres com seus sorrisos falsos no rosto. Digo pela Kyori, a vi vomitando seu lanche na hora do intervalo enquanto jurava a si mesma em prantos que emagreceria por bem ou por mal. Buscando o peso ideal de uma Idol. Balela, todas querem ser baixas e magras, não do tipo alta e esquelética igual a mim, mas do tipo ‘perfeito’ do qual todas as idols têm. Nem muito magra, porém nem uma grama acima do peso. Seios e glúteos sob medida, vestuário e fala perfeitamente nos padrões.


As vezes tenho dó de cada uma dessas garotas que sofrem pressão da sociedade. “Seja bonita!”, “Não acha que essa saia está curta de mais?”, “Só homens vestem calças! Maria macho”, “Tira esse batom, você parece uma puta!”…


Nunca estão satisfeitos, a moda está em constante mudança e quem mais sofre são elas que tentam desesperadamente acompanhar a moda.


—Misaki? Misaki…—por um momento me desliguei de tudo e quando percebi, Kyori balançava as mãos na frente do meu rosto tentando me '‘acordar’'. —Ufa, pensei que tinha dormido de olhos abertos…


—Eu costumo fazer isso? —solto uma risada colocando as mãos no bolso do meu moletom enquanto a encorajava a andar para dentro da escola, o inferno mais próximo da terra.


—Sim, sim! Principalmente nas aulas de Geometria, vai ficar de recuperação nas férias se continuar assim….

Ainda estava meio pensativa enquanto dava passos lerdos pelo corredor repleto de pessoas com máscaras felizes, se observar bem poderá ver suas expressões tristes por de baixo delas. Me pergunto se sou a única que percebe isso.

~DarkLipstick

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