3 de jul de 2015

Hearts Bites - Capitulo II

Capitulo II - Parte Um
Sora Takara


[07:00am] Ouço um barulho estridente e com melodia repetitiva, cada vez mais e mais alto se aproximando de mim… Minhas pálpebras se negavam a abrir e meus olhos ardiam com a luz que atravessa a perciana da janela. O despertador, adivinho, o maldito despertador…


Me levanto da cama em um pulo e encaro o aparelho com um certo ódio. Sete horas e cinco minutos…


Caramba! Estou atrasado!


Me levanto correndo e acabo tropeçando no cobertor que se enrolou na minha perna enquanto ‘dormia’, rolo no chão gelado sentindo um pouco de dor. Uma péssima segunda feira me aguardava.


Vou me arrastando até o banheiro como um ser invertebrado, me apoio no vaso sanitário e consigo ficar em pé. Meu dedo mindinho latejava, a manhã estava muito gelada e a água da torneira mais ainda. Pego a escova de dente e atrapalhadamente coloco o creme dental na escova, sujando minha mão e meu ‘pijama’, vulgo uma camisa velha e um short de educação física.


Passo as mãos nos meus cabelos ruivos os ajeitando, minhas olheiras estavam fundas ofuscando os meus belos olhos azul-esverdeado, mas eu não ligo. Abro a porta do armário do banheiro e pego meus óculos escuros.


—Yes, Baby, I’m a Bad Boy. —estralo os dedos e sorrio me observando no espelho.


Volto para o quarto e abro o guarda roupa. Pego minha jaqueta vermelha e o tipico uniforme, camisa social branca e uma calça xadrez estranha… Nada na moda.


[07:20am] Após devidamente arrumado e no estilo, pego minha bolsa e observo a casa por um minuto. Tudo arrumado, tudo estranhamente arrumado. Fiquei dois dias jogando Spheres e nada saiu do lugar… Isso é estranho, tudo está sempre quieto e arrumado. Não que eu esteja reclamando por estar sozinho, gosto do silêncio e sentimento de paz, mas as vezes eu queria que alguém estivesse aqui apenas para preencher um vazio no meu peito…


Apenas minha cama se mantinha desarrumada, mas se decidisse arrumá-la agora, com certeza não chegaria a tempo na escola.


Tranquei a porta e analisei a rua, estava um pouco vazia, talvez pelo frio que fazia naquela manhã. Caminhei tranquilamente pela rua, com meus fones de ouvido no máximo, escutando um bom rock americano.


[07:35am] Poucos minutos de caminhada, meu bairro não era muito rico, bem, eu moro entre becos que cortam os bairros, assim fica muito mais rápido de me locomover. Moro em um sobrado em uma rua sem saída, as duas casas ao lado da minha não moravam ninguém então não importa se eu colocar meu som no último volume ou tocar minha guitarra.


Encosto em uma pilastra e observo as pessoas entrarem pelo portão principal, algumas garotas olham para mim e tão risadinhas. Não consigo identificar se estão me elogiando ou tirando sarro de mim, a maioria delas são tão falsas que mentem até para si mesmas. Criam boatos sobre outras garotas para se sentirem superiores, saem com garotos e depois espalham comentário maldosos sobre eles. Zoam as pessoas que não são igual a elas, que não se encaixam em suas panelinhas, que não os adoram, que não os temem… Querem que todos os reverenciem, mas no fundo são um bando de mimados sofrendo por atenção. Por um mísero pingo de atenção.


No fundamental eu era um pouco acima do peso, não, na língua deles eu era um gordo marica porque preferia quebra-cabeças a futebol. Depois de quase ser espancado decidi mudar meu jeito, deixei os óculos de lado e aderi as lentes de contato, troquei o uniforme escolar pela minha jaqueta de couro. Mas uma coisa não mudou, ainda sou viciado em jogos.


Sou do tipo atlético, mas preguiçoso de mais para entrar em uma competição. Sou fanático por coisas que envolvem estratégia e lógica, há uns oito meses conheci por meio de um e-mail não identificado, um jogo MMORPG Online chamado Spheres e me envolvi totalmente na trama. Percebi que há poucos jogadores na escala mundial, muitos outros jogos do mesmo estilo batem o números mundiais, já esse não. De cara estranhei e pensei ser um vírus, mas depois notei de que algum modo eles foram escolhidos. Em um forúm todos falavam que teriam conhecido o mesmo através de um e-mail com destinatário invisível, um fantasma.


Fui recrutado á poucos dias, ela tem como nome “Phantoms” e é a maior e mais temida do ranking. Os jogadores são altamente dedicados ao jogo, quando se lança uma missão eles a cumprem em menos de duas horas e ficam ativos 24 horas por dia.


Sou um novato na guild e é um pouco difícil de se comunicar, mas um jogador com personagem feminino foi o primeiro a me auxiliar. A principio pensei em que seria um homem se passando por mulher, mas depois notei que suas palavras saim no feminino, como “minha” invés de “meu” e assim vai…


[08:45am] Já estávamos na segunda aula e a próxima seria de educação física, treinamento na quadra. Estava tão perdido nos pensamentos que não percebi a professora entrar na sala e pedir reverencia.


—Takara? —rigidamente ela me chama a atenção e leva meu ato como alta falta de respeito. —Sora Takara!!


—Sim, Professora Kimamura! —retiro os óculos após notar que todos me olhavam, inclusivamente as garotas e então me levanto e reverencio a professora com um olhar duro sobre mim. —Me desculpe professora, estou um pouco avoado hoje. Não tive uma boa noite de sono.


Aperto os olhos e os punhos desejando socar todos aqueles que caçoam de mim, todos aqueles que acham que sou inferior e que não sou capaz de ser bom…


—Avoado, não? Vamos ver se você fica avoado enquanto corre em volta da quadra vinte vezes! —escuto o som de um baque na mesa e alguns cochichos envolvidos de risadinhas. —E vocês? Querem fazer companhia a seu colega de classe?!


De imediato escuto um coral de vozes dizendo: “Não, professora Kimamura!”


Hipócritas…


[09:20am] Já estava na quarta volta pela quadra extensa, isolado do resto da turma como um castigo dobrado. Tudo estava silencioso, de repente escuto um barulho alto vindo do terraço, alguém havia tropeçado? Estava ferido?


Paro um momento e olho para cima forçando os olhos até identificar duas pessoas, parecia uma garota pelos seus cabelos longos e o outro, obviamente, um homem.


Uma puta matando aula pra transar com um idiota qualquer que lhe deu status. Aposto.


A maioria das garotas são assim, agem desse modo e ainda se glorificam por tal ato, mal sabem que os garotos a ridicularizam.


—Vamos, vamos! Lesma gorda! —a professora dá alguns tapas no meu ombro me empurrando, novamente eles riem e ela acha graça.


Lembro do meu passado, eles me tratavam do mesmo jeito, apesar do meu peso conseguia perfeitamente correr e praticar esportes, porém eles não me aceitavam, eles não me incluíam.


A incrível musiquinha ainda toca em minha mente: “Saco de banha e quatro olhos! Nana na naná. Não consegue correr porque a barriga atrapalha.”


Eu corria pro banheiro e me trancava lá. Só saia depois de ter chorado tanto que meus canais lagrimais secarem e se recusarem a soltar mais nenhuma lágrima. Eu vomitava tudo oque comia…


Aos doze anos tive bulimia e alguns diziam: “Ele é gordo, como pode ter isso?”


Ninguém me ajudava, meus pais eram ausentes, na verdade, eu não conheço eles. Nunca os vi, sou autônomo desde quando eu tinha oito anos, quando conheci o inferno e até hoje vivo nele.


Me adaptei a este mundo onde aparências comandam tudo. Meus cabelos são ruivos artificialmente, hoje ele é quase ruivo natural, antes em um caramelho sem graça. Eu era um pouco acima do peso, agora tenho o corpo do tipo atlético com muito esforço e sofrimento.


Olho ao redor e penso o quanto essas pessoas sofrem pela pressão que a sociedade impõe, garotas querendo ser idols perfeitas, garotos querendo o ponto de perfeição de um porte atlético. Fazem regimes loucos, malham sem parar, compram e compram artefatos da moda só para não se sentirem inferiores…


[11:02am] A sala havia sido dispensada após o intervalo, nosso professor de história estava doente. Logo vi um grupo de garotas cochichando alguma coisa perto da porta da sala de aula.


—E ai, gatinhas? —abaixei levemente os óculos escuros e sutilmente pisquei. —Qual é o assunto da vez?


Uma meio baixinha com lentes azuis joga os cabelos e dá um passo se aproximando de mim.


—Hello Sora! —ela passa sua unha em minha bochecha e logo em seguida nos meus lábios, então eu me abaixo ficando do seu tamanho. —Ouvi dizer que uma aluna está tendo caso com um professor.


Eu me aproximo do seu ouvido e mordo levemente o seu lóbulo.


—Eu trabalho com nomes, baby. —sussurro e percebo que a mesma se arrepia.


—Misaki Amane da sala oito e o Professor Tsukui.


Com o indicador levantei o óculos novamente e bufei, provavelmente seria aquela garota do terraço. Pela primeira vez essas fofoqueiras estão certas.


—Garotas tão bonitas como vocês não deveriam se meter na vida dos outros, se está difícil cuidarem das suas próprias vidas, me chame. Pois poderão se tornar a minha vida. —sorri e voltei a andar em direção á saída.

Com certeza essa foi a pior cantada que eu já dei em minha vida. Doeu? Claro que doeu, mas ninguém precisa saber, então sorri.


~DarkLipstick

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