27 de nov de 2015

Kit Black: Viajantes de Mundos

Quarto capítulo: O Caminho da Ilusão (parte IV).


Eram oito e quarenta e cinco. E o começo do fim se espalhava pela Sede Black como uma praga, que devorava tudo que estava ao alcance.
Pandora ainda estava de olhas vermelhos de tanto chorar. Dave, não sorria mais. Ele se desfazia em tristeza junto à mulher que sempre amara e que jazia morta, com um talho feio na garganta…
Como acontecera? Quando acontecera? Eles não sabiam. E estavam preocupados demais discutindo, chorando e se desesperando para perceberem a verdadeira culpada. Ocupados demais para pensar nela.
-Não… Precisamos avisar alguém. Alguma coisa está errada.
-As linhas de comunicação foram cortadas. –Alguém gemeu em resposta ao comentário de Aaron.
Dayana pela primeira vez em muito tempo mantinha sua energia hiperativa zerada. –Quem fez isso? Quem poderia…
A resposta estava na cara dela. Quem chegara do nada na Sede, sem dar qualquer aviso, agindo de modo estranho?
-Não pode ser… –Aaron levantou-se num átimo. –Ela não pode...
Aaron não pôde terminar. Um raio de luz vermelha atravessou seu peito. Provavelmente só teve tempo de pensar algo como “o que?” antes de cair. Algo tão rápido que os outros não tiveram chance de se proteger...
Dayana foi pega por garras metálicas que a levaram para longe da vista dos remanescentes. Dave não teve tanta sorte... Pandora, em seu desespero, foi a única que conseguiu se desviar dos lasers e das garras. É o fim, pensou. Lançou seus olhos em direção ao corpo de Aaron. Não precisava enxergar para saber que ele não respirava mais. Não precisava ver para ter a certeza que ele nunca a abraçaria de novo. Que o tinha perdido. E se havia perdido tudo com o que se importava, não havia motivos para continuar viva.
Ela tinha toda a habilidade para se safar das flechas que vinham em sua direção. Agora estava novamente ajoelhada, desta vez sobre o corpo da única pessoa que amara mais que a própria vida. Que vida? Ela já não tinha significado. Sabia que deveria sobreviver. Deveria contar a Iris…
Pandora não saiu de frente das flechas. Pandora não iria a lugar algum. Estava certa disso. Iris entenderia. Hiei e Mitaray entenderiam. Nicolas entenderia também.
Alguns instantes de dor insuportável, e Pandora, a jovem cega que lutava melhor do que quase todos ali, que tinha tudo pra ter sobrevivido, não existia mais…

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-E então, garota, que tal aprendermos alguma coisa enquanto esperamos?
-Está falando sério?
Mas é claro.
Kit fitou Crós por uns instantes. Ficara pálido de repente. Estranho.
-Você está bem?
Ele abaixou as orelhas. –Mau pressentimento. Mas talvez não seja nada.
Ela não estava convencida, mas também não discutiu. –E então… –começou. –Como é essa história de aprendiz de mago?
-Feiticeiro.
-Tanto faz.
-É, tanto faz. Mas feiticeiro soa mais assustador. E faz com que não encham a sua paciência. –Crós fechou os olhos, provavelmente imaginando que não ajudara muito em seu caso. –Ou talvez não.
-E? Continue.
-O que você quer saber?
-Bem… Pra começar, por que não posso voltar atrás na minha ideia de ser uma aprendiz?
-Essa é fácil. Porque você estaria sob julgo das trevas caso recusa-se.
A garota o olhou, confusa. –Como assim? Eu não tenho nada com as trevas. Eu acho, pelo menos…
-Não, você não tem. É verdade. Mas uma vez que você pede para um feiticeiro ser seu instrutor, automaticamente está se pondo em xeque. É uma coisa perigosa. Você, neste momento, está com todos os olhares mágicos presos em si. Ou fica do meu lado e cumpre o trato que você mesma propôs sem saber, ou fica livre. Mas creio que estar livre não é uma opção pra você. E não estou dizendo isso por que quero que seja minha aprendiz.
-Por quê?
-Como eu disse, toda a magia se converge para você quando se faz um pedido para aprendê-la. Mas não há apenas uma magia. Existe um outro lado. Para tudo existe um outro lado.
-Magia negra.
Ele assentiu com a cabeça. –Um trato com a magia é permanente. Se eu te deixar ir, você será pega pelo lado negro. Por que, logicamente, quem rejeita a luz…
-Abraça as trevas. –Ela completou. –Agora entendo. Então não há outro jeito.
-Queria dizer que não, mas a escolha é sua.
O meio gato fitou o céu, com esparsas nuvens brancas a romper o azul. –Mas… se quiser saber de uma coisa… Eu adoraria ter você como aprendiz. Acho que me divertiria mais. E sou da opinião que não se pode desistir sem tentar.
-É… Concordo. O que você ia me ensinar mesmo?
-Acho melhor começarmos do básico. A teoria…

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-Caramba…
Kira deu um tapinha no ombro do irmão: -Pois é. E então, Sabe Tudo, como saímos?
O rapaz deu uma volta completa em torno de si mesmo antes de responder: -Não sei.
-Seu senso de direção é terrível, Ken. Agora estamos perdidos. –Alegou Cloe, olhando em volta.
-Perdidos num lugar estranho cheio de seres terríveis que estão doidos pra nos comer no café da manhã. –Completou Sacha.
-Nós não estamos perdidos…
-Estamos o que, então, procurando uma lanchonete?
Ele se absteve de responder a irmã e voltou a procurar o caminho certo. Estavam em umas das muitas encruzilhadas de trilhas que se abriam no meio da mata. Deviam estar pra lá de perdidos. Aliás, era bem capaz de estarem perto do lugar onde Judas perdeu as cuecas, por que ele já não teria mais nada pra perder…
-Em frente.
-Tem certeza?
-Não, porque estamos perdidos. –Ken respondeu, mal-humorado.
Todos o seguiram, entretanto, pela trilha que seguia em frente, se embrenhando mais e mais entre as grandes árvores. Agora já não se podia ver o céu, e quase nenhuma luz chegava a eles. Sons desagradáveis saiam das sombras, sugerindo algo sinistro escondido em algum lugar por perto.
-Ah, gente?
-O que foi, Sacha?
-Aquela árvore não estava ali a um segundo atrás.
Realmente, aparecera uma grande árvore tampando a passagem. Para contorná-la, teriam que sair da trilha.
-Não estou gostando disso. –Disse Cloe.
-Nem eu. –Kira abriu bem os olhos, tentando ver algo suspeito, mas a semiobscuridade só deixava ver a árvore no meio do caminho.
-Já se passou uma hora?
-Não sei, acho que não.
-Bem, estamos ouvindo gente gritar desde que passamos da areia movediça. –Cloe contou.
-Kira arriscou um palpite: -Talvez tenham sido os vikings. Disseram uma vez que eles não eram conhecidos por seu intelecto.
Ela estava certa. Areia movediça… Cortesia de um feiticeiro meio gato. Como Crós disse, eles não passaram nem dos primeiros metros.
-Enquanto Hiei e Mitaray não nos encontram, temos que nos virar… É um teste, esqueceram?
-Esqueceu que no nosso grupo temos duas garotas com um conhecimento quase nulo de luta? –Atacou Kira, o que fez Ken pensar melhor e se calar. Parecia que a pedra em sua testa estava fazendo um pouco de efeito, afinal.
Olharam novamente para a árvore. Agora seus galhos se estendiam na direção deles, como garras afiadas e mortais.
-Ela estava assim há alguns segundos?
-Não…
Ken parou de falar e se esquivou a tempo de burlar uma verdadeira “galhada”. Lançou os olhos verdes à frente. Não era mais uma árvore só. Agora era uma parte da floresta que se recusava a deixá-los seguir.
-Presos por vegetais? Ninguém merece! –Resmungou Kira, se desviando também. –Não vou perder para seres sem inteligência e fotossintetizantes.
Cloe pediu em pensamento. Suas orelhas e todos os outros atributos lupinos surgiram imediatamente. Estalou o chicote contra o galho mais perto, que tentava agarrá-la. Não que isso tenha ajudado muito. Numa fração de segundos ela já estava enrolada.
Por sua vez, a contragosto, Sacha seguiu o exemplo da amiga. A única vantagem nisso é que, sendo um pássaro, ela conseguia desviar das investidas muito fácil. Ao pousar num galho, usou os olhos de retinas grandes feito as de um falcão para mirar na árvore que mantinha Cloe em cativeiro. Uma dúzia de flechas saídas com uma velocidade incrível do seu arco cortaram os galhos, e Cloe já podia se mexer novamente.
A garota olhou pasma para Sacha, antes de murmurar um “valeu” e desfiar com as garras um outro ramo que ameaçava prendê-la novamente.
Ken parou um instante para pensar. Subitamente, depois de esquivar-se de um golpe quase fatal, gritou a primeira pessoa que veio na sua cabeça.
-Kira!
-Que que é?
-Ainda tem aquele isqueiro que ganhou do seu último namorado esquisito?
-Ele não era… Tenho.
-Me dê.
Ela desceu velozmente pelos galhos da árvore que ameaçava destruí-la e atirou para o irmão um pequeno cilindro prateado. Ken o agarrou em pleno ar, e puxou de um dos bolsos da calça um vidrinho transparente, com um pó negro e estranho dentro.
-Pólvora!? –Cloe murmurou, perguntando logo depois: -De onde você tirou isso?
-Peguei na grande tenda. Tinha um monte desses potinhos, bem num canto. Quase imperceptíveis.
-Espertinho, você…
O rapaz coçou desconfortavelmente a cabeça, com um sorriso amarelo nos lábios.
-Kit ficaria admirada. –Gritou a garota, abaixando sob uma das árvores, que foi atingida em cheio pelas garras da irmã. –Mas é melhor andar logo com isso, não temos muito tempo.
-Melhor vocês tomarem distancia, porque vai ser uma explosão dos diabos.
Quase que imediatamente, cada uma das três garotas foi para um lado diferente. Ken olhou bem, certificando-se que elas estavam longe o suficiente, e abriu o pote, dispersando o pó no meio das árvores. Tomou distância, acendeu o isqueiro e o atirou em direção à pólvora, correndo logo em seguida. Um clarão vermelho e laranja surgiu, junto com um estrondoso barulho de explosão. Para quem estava fora, no campo verdejante que ficava fora do Caminho da Ilusão (Kit, Iris e Crós), dava pra ver uma nuvem de fumaça sair de dentro das árvores e se perder no céu. Não pela última vez.
Os quatro se levantaram juntos, sacudindo a poeira das roupas. Os vegetais que a pouco tempo queriam matá-los jaziam sem vida, encobertos por chamas. Logo as chamas também se extinguiriam.
-Temos que continuar. –Argumento Kira.
-É, temos. –O irmão dela concordou, se espreguiçando e apontando para frente. –Parece que achamos novamente nosso caminho.
Uma trilha se estendia a frente deles, parecendo não ter fim.
-Já estava na hora, Senhor GPS.
-Muito engraçado.
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-O que diabos foi isso? –Questionou Kit.
Crós olhou vagamente por cima dos ombros. –Parece que alguém achou os potes com pólvora.
-Pelo menos tem alguém inteligente ali no meio… -Resmungou Iris, enquanto carregava de volta o último dos Vikings. Com uma porrada violenta, fez com que ele parasse de gemer e atirou-o junto aos companheiros. Com desagrado, Kit reparou que era o mesmo que olhara pra ela na tenda.
-Crós, consegue fazer uma magia para mandá-los direto pra o Hospital Central?
A jovem garota lançou um olhar penalizado para os guerreiros caídos. Afinal, ser teleportado por Crós era quase suicídio, e ela descobrira há pouco tempo isso. Ela poderia não admitir, mas ficaria traumatizada pelo resto da vida por causa disso.
-… Depois os mandamos de volta para o lugar de onde vieram… -Iris continuou. A semi-fada fitou o mago de esguelha. –E Crós… Mande-os para o hospital, não pro cemitério.
Ele respondeu com um olhar cético e uma ruga de contrariedade na face. Murmurou algumas palavras ininteligíveis (as quais Kit não sabia se eram xingamentos ou parte do feitiço). Mas ao ver algo como um círculo mágico envolver os feridos e fazer com que desaparecessem, ela teve certeza que era um feitiço.
Crós lançou outro dos seus olhares céticos. –Quer ligar pra ver se chegaram?
-É impossível, nossas linhas de comunicação estão cortadas.
-Que seja…
A mulher de olhos castanhos avermelhados girou nos calcanhares. A sensação de que aconteceria algo ruim não a abandonava. E Crós também estava desconfortável. Algo estava fora do normal…
Encarou o rolo de fumaça escura que subia do meio do Caminho da Ilusão. Quem havia conseguido achar a pólvora era inteligente, sem dúvida. Muitos provavelmente passaram por ela e nem notaram. Sorriu pra si mesma. Aquela garota trouxera com ela gente interessante…
-Me parece que agora vamos ter de ficar duas vezes mais alertas, minha amiga.
-Quanto mais ao fundo do Caminho eles entrarem, mas difícil será sair sem a ajuda de fora. –A semi-fada argumentou. –Em compensação, quanto mais fundo chegarem, mas prestigio terão e mais perto da vitória estarão.
-Isso se sobreviverem.
-É pra isso que estou aqui.
-Acha mesmo, minha cara, que é somente a vida que eles correm o risco de perder lá dentro?
Iris não respondeu. Sabia muito bem o que ele tinha a dizer. Talvez para reafirmar, ou por que Kit estava lá, Crós continuou: -Eles correm o risco de perderem a razão. De enlouquecerem.
-Sei disso.
-Eu sei que sabe. –E, virando-se para kit, que já empalidecera totalmente: -Não faça essa cara. Já te disse, tenha fé. E além, do mais…
-Além do mais?
-Agora que vai começar a diversão…
Ela não tinha gostado nadinha daquela afirmação.

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Nicolas parou sua motocicleta em frente à Sede Black. Um silêncio agourento pairava no ar, como a calmaria que precede uma tempestade. Ele trilhou pelo caminho que levava a mansão. Chegou à porta, tocou a campainha… Nada. Ninguém o recebera. Nem mesmo Dayana, com seu sorriso elétrico, quase nocivo, e sua hiperatividade natural. Ela sempre estava lá para abrir-lhe a porta.
Ele procurou em seus bolsos e puxou um velho cartão. Um cartão negro, com um dragão vermelho gravado, assim como aquele que estava no comunicador de Iris. Há muito tempo que ele não precisava usá-lo. Ao lado da porta, na parede, uma pequena fenda se mostrava aberta, e foi nela que o Senhor do Palácio de Granito passou o cartão. Quem olhasse de relance não veria nada mais que um buraco na parede, mas assim que ele enfiou o cartão, um barulho sucessivo de trancas se abrindo foi ouvido, e a porta se escancarou, deixando livre o caminho.
Sua primeira atitude foi gritar o nome de todos eles, mas, não obtendo resposta, ideias obscuras começaram a passar pela sua cabeça. Seus passos ecoavam sinistramente pelos corredores vazios, enquanto ele se dirigia inconscientemente para o subsolo. Para a sala de treinamento…
Um desespero foi brotando lentamente em seu peito. Algo estava errado. Muito errado. Quando ele se aproximou da porta da sala de treinamento, sentiu um cheiro. Um cheiro forte e acre, que só poderia ser uma coisa… sangue. Muito sangue.

Ele abriu a porta, e o que viu quase fez seu coração parar. E ao cair de joelhos, com os olhos cegos de lágrimas, viu tudo aquilo que ele acreditava ruir aos seus pés.

~Kit Black

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