8 de jan de 2016

Kit Black: Viajantes de Mundos

Quinto capítulo: Escamas e muito fogo! (parte II).


Kit deveria saber que aquela não era uma boa ideia. Quer dizer, quando mandam você buscar escamas de dragão para uma poção de QUASE invulnerabilidade, e quando você tem que pegá-las de um dragão VIVO, cercado por seus parentes e que provavelmente vai querer devorá-lo inteiro, o mais inteligente a se fazer é negar. Mas Kit era uma boa aprendiz de feiticeiro, e como toda boa aprendiz não pensou duas vezes antes de resolver ir buscar o que seu mestre mandou. Na teoria era até fácil. Ir para Dragon, matar um dragão, arrancar as escamas e voltar. Simples.
Ela deveria ter aprendido que, quando se tratava de Crós, NADA era simples.
-Dragões são criaturas fascinantes… -Começou Mitaray, enquanto saia do jato mais amado (e utilizado) da Equipe Black. O Jato Fênix era o meio de transporte mais rápido e prático para ir a qualquer lugar, e todos usavam e abusavam dele quando tinham chance.
-Fascinantes, com certeza. É fascinante como eles podem engolir a gente numa só bocada. Também é fascinante o jeito que eles têm de nos pisotear ou arrancar pedaços. Realmente, Mitaray, dragões são fascinantes. –Hiei irônico como sempre, agora descia do jato, depois de abandonar a cadeira de piloto.
Mitaray o ignorou. Lançou os olhos cinzas a sua frente, avaliando o local. Tinham pousado nos limites de Dragon, onde não havia a ocorrência de dragões. Abriu um sorriso cínico. –Vamos, Kit. Temos um local para analisar.
A garota meneou a cabeça. Vestia uma calça, blusa e uma capa, todas as peças de roupa vermelhas e manchadas de preto e marrom, de modo que poderia simplesmente se confundir com a paisagem vulcânica a sua volta se ficasse parada. Como batedores, ela e Mitaray tinham a função de ir à frente e analisar a situação, antes que os outros pudessem seguir. Basicamente, num termo mais moderno, espionagem. O essencial seria que eles não fossem descobertos. Caso fossem, seria um tanto quanto… Desastroso.
Na realidade, os quatro usavam de cores dos mesmos tons em suas roupas, tentando manter-se o mais sutis que fosse possível. Aquela situação já era bem desagradável sem ninguém morrer. Manteriam suas peles guardadas para bater de frente com Haradja.
Kit começava a achar que não era mesmo uma boa ideia. Salem não poderia simplesmente buscar escamas de dragão numa loja de feitiçaria qualquer? Deveria haver um lugar daqueles por lá. Diamond era tão grande e tão… Fora do comum.
-Tenho de aprender a dizer não para as pessoas. –Ela resmungou consigo mesma, invocando sua forma felina.
-Realmente, estamos aqui por sua causa Se virarmos desjejum de dragão, a culpa é toda sua. –Alegou Hiei. Aparentemente ele não estava nada feliz com aquela missão.
Ela abaixou as orelhas de gato, exasperada. –Minha culpa? Não fui eu que entrei no laboratório sem permissão e acabou derrubando uma garrafa com mais de um litro de poção de invulnerabilidade.
-QUASE invulnerabilidade. –Ele fez questão de frisar. –E não fui só eu. Quem você acha que abriu a porta?
Kit lançou um olhar acusador para Kensuke. O rapaz estava mexendo em um notebook, tentando fazer contato com a Sede. Não contente com a conversa (e muito menos com o fato de ainda não conseguir contatar nem a irmã nem Cloe), contestou em resposta: -Ele me obrigou. –E, mudando de posição e de assunto, avisou: -Ainda não consegui contatar as garotas, mas posso receber informações de vocês dois.
Mitaray revirou os olhos: -Vamos logo, Kit, quanto mais cedo começarmos, mais cedo terminamos. E o humor dos dragões não deve ser melhor a noite do que de dia.
Ela não pareceu gostar da sugestão de piada, mas o acompanhou mesmo assim. Puxou o capuz de modo que cobrisse uma boa parte do rosto e escalou uma pequena escarpa, de modo que durante toda a expedição pudesse ficar uns bons metros acima de Mitaray. O fato de ter um instinto felino tornara quase desgostoso ficar muito tempo perto do chão.
Dragon era uma, como já foi dito, cidade basicamente vulcânica. A terra que lhe servia de base era vermelha, e aglomerados gigantescos de obsidiana se formavam aqui e ali, principalmente nos vales, resultado de erupções constantes. Uma cordilheira de picos escarpados cor de sangue formava um semicírculo, cuja abertura era voltada para o continente. Qualquer embarcação que viesse do oceano encontraria um fim horrível, pois além do paredão intransponível, ainda teriam que ultrapassar um recife que percorria todo o mar ao longo da costa. No centro dessa fortaleza natural, montanhas menores se aglomeravam, formando algo como um ninho, onde se abriam buracos e grutas. Esse projeto de “colmeia” era conhecido em todo lugar como Berço das Chamas. Os dragões se amontoavam naquele lugar exatamente como abelhas, a serviço de um rei. E o rei tinha paciência zero quando se tratava de humanos.
Havia ainda aqueles que se mantinham longe do Berço de Chamas, que perambulavam ou guardavam a “entrada da muralha”, com um apetite mordaz e um grande desejo de devorar carne humana. Uns poucos saiam para caçar.
É fato que a maioria dos dragões não se alimenta de nada além de lava quente, para manter seu fogo queimando enquanto viver (e dragões tem vida muito longa), mas alguns experimentam carne, e nesse sentido provam do peixe ao ser humano, sem muita preocupação. Raros “cuspidores de fogo” ousam mais e mantêm sua dieta a base de vegetais. A esses não existe lugar em Dragon. Lá não cresce nada, nem um musgo sequer. É uma terra estéril e infértil, cuja única coisa que prospera é o fogo.
Kit deixou-se escorregar numa encosta, se escondendo atrás de uma rocha qualquer, bem a tempo de evitar ser vista por uma coisa que, para ela, que vivera toda uma vida num Mundo Real, ainda parecia fantástica. Um dragão vermelho fogo atravessara seu caminho, voando. A garota se perguntava como aquelas asas, que pareciam tão frágeis, conseguiam suportar um peso tão grande. Decidiu que não era da sua conta. Olhou de esguelha para onde estava Mitaray. O rapaz permanecia tão imóvel que parecia parte da paisagem. Como ela queria ser tão boa assim…
Certificou-se que o monstro já havia passado e fez sinal a Mitaray, que já a procurava, questionando se ela estava bem.
-Essa foi por pouco… -Ela comentou, pondo-se a subir novamente. Algumas pedras rolaram, e Kit acabou escorregando para dentro da pequena fresta mais uma vez.
-Kit? Você está bem? –A garota ouviu o amigo questionar, de onde estava. Ela tentou manter-se sempre acima dele, mas agora podia notar, pelo ângulo de onde vinha a voz, que Mitaray estava num nível acima dela. Xingou uma imprecaução para si mesma. Detestava ficar presa. –Estou.
-Consegue sair?
-Ah… Talvez. –Chegou para trás, sem ver um novo fosso que se abria ali. Mas pedras rolaram, e dessa vez ela literalmente caiu. Tentou se segurar em uma rocha, que se soltou ao seu toque. Tentou cravar as garras no chão, sem muito resultado. Só caía, sem nada para deter a queda. Por um instante, pensou que ia encontrar Dona Morte mais cedo do que imaginava. Foi salva desse destino por uma pontuda reentrância, que viu surgir na montanha a frente daquela por onde deslizava.
Pense como um gato, Kit”.
Mais uma vez aquela voz… Mas ela não tinha tempo pra bater papo consigo mesma dessa vez. Pense como um gato, Kit. Era isso que ela era, em parte…
Ela saltou, impulsionando-se com as pernas e usando a própria encosta como base. Por milésimos de segundos ficou suspensa no vazio, e suas grandes garras se cravaram na reentrância. Agora, finalmente, tinha conseguido se firmar. Jogou o peso do corpo para cima, e entrou no buraco. Ia se lembrar de nunca mais voltar àquele lugar. Respirou fundo. Tirando as costas cheias de arranhões e a roupa, agora em farrapos, estava se sentindo bem.
Foi quando notou que, dentro da reentrância, havia coisas estranhas: ovos maiores do que qualquer outro que já tinha visto, com uma casca que parecia ser feita de escamas, e sobre o fogo. Sim, sobre o fogo, embora ela não soubesse como aquilo tinha ido parar ali, ou imaginasse quem estaria a fim de comer omelete por aquelas bandas. Apenas um estava inteiro. Os outros tinham sido destruídos. Pelas coisas que tinham dentro ou por algum fator externo, ela não sabia ao certo.
Sua calda estalou como chicote, inconscientemente. Não estava gostando daquilo. Um crack medonho fez eco na pequena caverna. O ovo estava rachando…
   
-Nicolas, Nicolas. Quando era uma criança de dez anos, você tinha mais bom-senso.
O Senhor do Palácio de Granito lançou ao seu conviva um olhar vazio. –Se não tem nada pra me dizer de útil, Aldeon, espero contar com o seu silêncio.
Aldeon ignorou o comentário. Era um homem aparentemente frágil, de no máximo 45 anos. Seus cabelos começavam a ficar grisalhos, e tinham um tom meio rubro e quente, que fazia contraste com os olhos, cor de gelo. O rosto começava a mostrar sinais de velhice, mas ainda era estranhamente belo. A boca era uma linha tênue e nada sutil, feita para sorrir. E seus sorrisos costumavam ser gentis e compreensivos.
Foi um desses sorrisos que ele mostrou para Nicolas, enquanto afiava a lâmina de sua espada. Era uma arma larga e temível. Dizia-se que sua cor mudava de acordo com o humor do dono. Agora, exibia uma cor acinzentada, o que queria dizer que ou ele estava muito triste, ou desagradavelmente cansado. Como eram duas coisas que não faziam parte do seu humor normal, as pessoas começaram a perguntar…
A espada tinha o punho em formato de uma cabeça de dragão, mesclando o azul gelo e o vermelho, e sua lâmina era denteada e implacavelmente afiada. Ele a chamava, amigavelmente, Dente de Dragão, mas havia quem a chamasse de Lâmina Maldita de Gelo e Fogo. Se isso chegou aos ouvidos de Aldeon, ele não pareceu se importar.
Era um cavaleiro do Palácio de Granito desde que se conhecia como gente. Tinha crescido ali, aprendido a lutar ali, evoluído ali. E era ali que vira Nicolas pela primeira vez, e tinha se disposto a treiná-lo. Porém, aquilo acontecera há tempos. Nicolas crescera, e acabara de perder tudo. Não, ele perdera QUASE tudo.
-Você não pode ficar assim pelo resto da vida, garoto. É o Senhor do Palácio de Granito ainda, ou estou enganado?
Nicolas chiou baixo, e de mau humor respondeu: -Sou um homem, não um garoto.
-Sem sombra de dúvida o é na idade, mas será que o é na cabeça?
Ele se dignou a balançar a cabeça em resposta. Ao ver os seus amigos massacrados, mortos como se fossem pouco mais que nada, tinha sido tomado por uma tristeza atroz, que parecia nunca chegar ao fim. Logo a tristeza deu lugar à culpa. Depois ao ódio e ao desejo de vingança. E pela impossibilidade de poder se vingar, agora não havia nada a não ser amargura e dor. Estava, sem sombra de dúvida, no fundo do posso.
-Nick, meu garoto. Você precisa superar. Ficar trancado no palácio não irá lhe fazer bem, muito pelo contrário… -Aldeon parou o que estava fazendo e olhou o antigo aprendiz de relance. –Afinal, é inútil ficar aqui, se não faz seu trabalho direito. O imperador diz que está constantemente alheio ao que se passa ao seu redor, e os Deuses declaram que o seu humor anda terrível.
-Os Deuses?
-Reidh e Hera, na realidade… Mas os outros dois também comentaram algo obre a sua paciência ter encurtado…
-E dai?
-Você esquece-se de quem é filho, Nicolas? Esquece-se do lema de sua família?
-“Vencedores de batalhas impossíveis”. –Nicolas entoou, mais para si mesmo do que para Aldeon.
-Acho que não está tão perdido assim, nobre rapaz.
-Eu ainda estou combatendo.
-Não me parece. Aliás, parece mais que você desistiu. E que usa uma semi-inconsciência e um escudo de amargura pra manter-se a salvo da dor. Não pode fugir pela eternidade. Você não é imortal.
-Felizmente. Quando o meu dia chegar, não precisarei mais fugir.
Aldeon assumiu um esgar de irritação. –Tola criança. E ainda se autoproclama um homem! –ele desceu Dente de Dragão com toda a força. Nicolas precisou sair do seu estado de letargia para não ser partido em dois. Ele puxou sua própria espada, com seu nome gravado em letras azuis na lâmina, e parou a estocada do mestre. Saltou para trás, evitando um segundo golpe e um terceiro. Um quarto golpe, dado em suas pernas com a parte cega da espada, o fez cair. Aldeon deu um daqueles seus sorrisos fáceis e apontou a ponta de sua espada para o pescoço de Nicolas. Este arfou, exasperado. Não esperava aquilo. Ainda estava tentando entender.
-Por quê…?
-Porque você tem de voltar pra guerra, Nicolas. Ou seus amigos terão morrido em vão. Precisa lembrar que ainda há pessoas com as quais se importa, e elas ainda estão vivas. Deve fazer justiça, e retornar ao trabalho.
-Acho que não consigo…
Aldeon guardou a espada e lhe ofereceu a mão para ajudá-lo a se levantar. –É obvio que consegue. Você chegou até aqui, indo contra todas as probabilidades.
-Isso foi diferente.
-Quem sabe…
-Você mesmo disse que eu tinha mais bom-senso naquela época.
Aldeon apontou um dedo fino e ágil no nariz de Nicolas, alegando: -Não ouse usar minhas palavras contra mim, garoto. Ainda sou seu mestre.
Ele deu uma volta na sala, pegou a capa azul-claro que costumava jogar nos ombros, e conduziu-se a saída do aposento. Nicolas estava na biblioteca, embora não tivesse paciência para ler coisa alguma ou estômago para analisar as atrocidades que Haradja cometera ao longo do mês. Era óbvio que sua intenção era ilhar Sybelle, a capital de Diamante, onde se encontrava o Palácio de Granito. Suas forças marchavam, saindo de Soledad e começando a atacar todas as cidades ao seu alcance. Aldeon passou os olhos pelo último relatório, que estava em cima da mesa, intocado. Criatura esperta, aquela Haradja. Esperta e cruel demais para o bem de todos aqueles que lutavam contra ela.
Suspirou fundo e finalmente saiu do extenso cômodo. Antes de fechar a porta atrás de si, afirmou: -Eu nunca desisti de você, Nick, e não vou fazê-lo agora. Levante a cabeça e lute! E, se cair, levante-se! Se achar que não consegue, tente outra vez! Você pode vencer essa batalha impossível, é só querer.
O rapaz ainda ficou olhando muito tempo naquela direção, mesmo depois de Aldeon já ter ido embora. Seus dedos roçaram o relatório. Ele tinha razão, afinal. Estava sendo infantil, parecia mesmo um garotinho assustado. Sentou-se a mesa e obrigou-se a olhar o pedaço de papel. Haradja separara seu exército em duas frentes: uma seguia pelo leste, a comando de Gaia, o esqueleto vivo. Outra marchava a oeste, sob a bandeira de Mid Night, o pirata demoníaco, e sua corja de assassinos. Passou a mão pelos cabelos negros. Por Ajax! Onde estava com a cabeça? Tinha que fazer algo, e já…
Agora podia ver a tênue luz da manhã passar pelas janelas. Luz… Não se sentia mais tão no fundo do posso. Ele ainda estava lá em baixo, mas agora podia voltar superfície. Vamos, Nicolas, escale…
Abriu um mapa sobre a mesa. Prevendo táticas de guerra, estratégias para barrar o avanço da imortal. Não poderia fazer isso sozinho… Lançou um olhar para Farem, onde um pequeno pontinho negro feito à caneta marcava o exato local da Sede Black. Iris o ajudaria. E a garota estava lá… Quase se esquecera disso. Tapado, idiota… A garota tinha sido o motivo daquilo tudo, e ele a esquecera. Sentia-se horrível por isso. Abandoná-la não era opção. Nunca tinha sido.
Vamos, Nicolas, reaja e suba…
Aldeon fizera bem em lembrá-lo. Ainda havia pessoas as quais ele daria a vida para salvar. Era nisso que ele se apoiaria.
Vamos, Nicolas, você consegue!
Uma revoada de plumas tirou sua concentração. Conhecia bem aquelas plumas. Retirou uma que havia caído sobre o seu nariz e saldou o recém-chegado…
-Majestade…
-Nick. Parece que seu humor melhorou consideravelmente…
-Acredito que seja agradável o suficiente agora, certo, Reidh?
O Deus fez um leve aceno com a cabeça e lhe ofereceu um sorriso juvenil. –Sem dúvida.
-Alguma notícia da Sede Black?
Reidh farfalhou as asas, desconfortavelmente. –Me parece que Iris mandou os novatos em sua primeira missão, hoje.
Nicolas franziu as sobrancelhas. –Que tipo de missão?
O elfo se deslocou pela sala, mudando de assunto: -Me disseram que ficou aqui direto nos últimos dias. Não sei como consegue. É fechado e abafado. Parece uma gaiola.
É. Parecia mesmo. E Reidh sabia disso muito bem, já que detestava lugares fechados, perto do chão, ou pequenos. “Um Deus do Ar tem que ser livre pra ir onde quiser. Precisa ser como seu elemento”, O Deus lhe dissera certa vez, e foi nesse dia que ele chegou a conclusão que Reidh estava onde deveria estar. Entretanto, isso significava que o Deus dos rumores sempre estaria por perto, quando ele quisesse ou não, lhe contando ou roubando-lhe histórias para passar adiante. Ele era mais confiável e mais correto que qualquer jornalista… Mas isso não o tornava menos inconveniente…
-Você não respondeu a minha pergunta, Deus da Fofoca. –Nick ousou afrontar. Ele viu quando Reidh baixou as orelhas pontudas, com uma profunda irritação e respondia, enquanto girava uma pena alva entre os dedos. –Deus dos RUMORES. E, se te interessa tanto saber, Kit foi para Dragon. Procurar por escamas de dragão.
Nicolas sentiu como se tivesse escorregado ao subir a parede do posso que se esforçava tanto para deixar. Não seja tolo, Nicolas, você não cairá…
-Dragon?! Iris mandou ela para… -Ele começou, atônito, logo passando para o modo “vou matar alguém”: -Qual é o problema daquela mulher?!
-Não faço ideia. –Reidh disse, sem se importar se o Senhor havia lhe escutado ou não. –Mas gostaria imensamente de saber…
-Deuses, olhem por mim…
-Ah, nós já olhamos por você desde o seu nascimento, e acredite, pelo menos pra mim só me deu dores de cabeça.
Nicolas observou-o de esguelha. –Estava sendo retórico. Força do habito.
-Claro, claro. Aqui, se quiser que eu olhe pela garota também eu posso ir…
-Pra ter outra história pra espalhar? Não, obrigado. E além do mais, você não pode interferir diretamente…
-Não, mas posso interferir indiretamente.
-Não, Reidh. Deixe-a em paz. Ela vai se dar bem.
-Será?
-Esqueceu de quem ela é filha? –Questionou Nick, ao que o Deus objetou com uma gargalhada.
-O sangue que corre nas veias não faz o herói, meu caro.
-Não. Mas a fé faz.
Reidh sorriu-lhe uma última vez. –Espero que a fé de todos seja bem forte… Até mais, Nick.
-Até…
Ele desapareceu em outra revoada de plumas, deixando Nicolas só e com muitas penas espalhadas pelo chão. Pouco a pouco essas foram desaparecendo, até não sobrar nenhuma. O rapaz fitou novamente o mapa, destampando uma caneta qualquer que estava à vista e fazendo um círculo, vermelho, sobre o território de Dragon. Tamborilou os dedos no tampo da mesa, um tanto quanto aflito. O que Iris pensaria? Tentou deixar esse assunto para depois. Não podia se meter, por enquanto…
Por enquanto.

Vamos, Nicolas. Você deixou o poço. É hora de combater…


~Kit Black

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