27 de ago de 2015

Kit Black: Viajantes de Mundos.

Terceiro capítulo: Remorso (Parte IV).


Crós olhou para o céu. A noite começava a descer, e as primeiras estrelas apareciam à distância. Sentiu dor. Não era uma dor física, que podia ser curada à base de feitiço ou erva. Era muito pior que uma simples dor. Algo que ele experimentava raras vezes, em ocasiões mais raras ainda: solidão, impaciência e impotência. Receio, tormento e acusação. Devia ter dado ouvidos a ela. Devia ter andado rápido. Já deveria estar em Diamond ao seu lado. Ao lado daqueles que eram a família que nunca teve. Seres estava sofrendo, e isso é alarmante. Significa que algo muito ruim estava acontecendo, algo muito ruim. E, mais cedo ou mais tarde isso afetaria seus amigos. Iris e os outros estavam com problemas, ou quase lá, e talvez ele não chegaria a tempo.
Ele cobriu o rosto com as mãos, lutando para conter as lágrimas e respirou fundo. Viu as meninas voltando para o hidroavião, enquanto pensava que não podia perder tempo. -Graças aos Deuses! -Menos isso para se preocupar. Dirigiu-se para a máquina controlando a respiração, de passos firmes. Não podia mostrar a eles fraqueza. Daria a impressão de que iriam lutar por uma causa perdida, e isso era a ultima coisa que o mago queria. Primeiro porque ele ainda tinha fé, e segundo porque o desanimo custa caro. Caro demais para se arriscar.
Mas sempre chega uma hora em que a fé começa a enfraquecer, começa a falhar. E Crós sentiria isso, mais cedo do que podia imaginar.
Francis, venha rápido. Vou partir hoje à noite. Não há tempo. Traga as pedras”.Ele chamou em pensamento, e entrou no hidroavião, um pouco depois de Cloe e Sacha. Todos voltaram sua atenção para ele.
-Precisamos ir. -Declarou, firme, e completando: -Vou esperar Francis chegar para pegarmos as pedras mágicas e daremos no pé.
Alyson arqueou um pouquinho as sobrancelhas, se perguntando desde quando um feiticeiro dizia “daremos no pé”, mas preferiu ficar quieta. Recostou-se confortavelmente no banco e se obrigou a pensar num meio de dizer a Francis que não estava interessada nele, sem parecer convencida ou insensível.

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O imperador de Diamond estava bastante preocupado. E não era para menos. Aos seus pés, no salão principal do Palácio de Granito, Seres estava estendida, chorando desconsoladamente. O Senhor do Palácio de Granito adentrou no salão, aparentemente aflito. O manto negro que usava farfalhava a cada passo. Era um rapaz bonito, alto, de 27 anos, cabelos escuros e curtos, olhos castanho esverdeados e pele bronzeada. Não dava para divisar o seu corpo por causa do traje, mas ele tinha um corpo escultural, musculoso na medida certa.
Nicolas fez uma reverencia. O velho imperador, de olhos claros e penetrantes, expressão afável e cabelos grisalhos fez um sinal para que o rapaz levantasse e chegasse mais perto. Os olhos dele passaram por Seres. A Deusa da água se encolheu e olhou o recém-chegado. O rosto delicado estava vermelho e um pouco inchado por causa do choro. Os olhos, azuis claros, também estavam vermelhos. Os cabelos, de tom azulado, cacheados e compridos até os ombros, estavam molhados e embaraçados. Ela vestia um vestido branco, com decote em forma de V, babados e brocados nas mangas curtas e um corte meio aberto embaixo. Era raro vê-la desse jeito, pois Seres era uma sereia, e na maioria das vezes estava dentro d’água, com as pernas transformadas em uma calda azul-turquesa e usando um top da mesma cor.
-Oi, Nicolas. -Sussurrou a Deusa, controlando o choro.
-Majestade. -Ele cumprimentou, fazendo outra reverencia, e finalmente abaixando-se ao lado da Deusa, perguntou: -O que houve, Seres? Por que está chorando?
A divindade se ajoelhou no chão e tocou com o dedo indicador uma pequena poça, que tinha se formado com suas lagrimas, começando a falar: -Ela destruiu a Cidade que eu criei com minhas próprias mãos, com meu próprio sangue. A Cidade Das Águas foi destruída, agora só existe água suja de sangue e ruínas. Só a parte norte foi poupada, e isso porque Haradja quer utilizar o castelo que foi construído lá como estadia de verão. Ela conseguiu entrar lá, não sei como, e matou a maioria dos habitantes. -Enquanto Seres falava, na poça de água salgada apareciam imagens de destruição, guerra, ruínas, pessoas sendo mortas sem poderem sequer lutar. Quando a Deusa terminou, a poça que antes era límpida e cristalina se transformara em sangue.
Seres retirou o dedo e olhou para Nicolas e para o imperador, Erom. Novamente uma sombra de angústia passou pelo seu rosto, e seus olhos embaçaram. -Eu não pude fazer nada... Não posso fazer nada. Os deuses só tem permissão de intervir quando se confrontam com outros deuses.
-Não devia ter mostrado essas cenas para nós, majestade. Vai sofrer ainda mais desse jeito. -Comentou Erom, num fio de voz.
-E não queremos que sofra. -Complementou Nicolas. -Me desculpe, a culpa foi minha. Eu era o responsável por vigiar Haradja. Eu falhei... Mais uma vez. Com vocês dois, com os outros deuses, com Iris, com todo mundo... Principalmente com os habitantes da Cidade das Águas, deixando-os a mercê de algo contra o qual não poderiam lutar.
-Não se culpe, Nicolas. Nem nós, deuses, previmos isso. Ninguém poderia. Foi um ataque surpresa, bem arquitetado. Os vigias de Soledad foram pegos numa armadilha, para que ninguém pudesse nos informar do ataque. O que podemos fazer é nos concentrarmos nas outras cidades, principalmente aqui em Sybelle e em Farem, onde a maré vai bater mais forte... -Seres interrompeu-se, suspirando, e alegou: -Precisamos nos reunir com Folkes, Reidh e Hera, precisamos da garota, e precisamos avisar à Iris.
Nicolas parou para pensar por alguns momentos e bateu a mão na testa: -O teste... Ela vai tentar sabotar o teste. Quantas horas?
O imperador olhou para o grande relógio de pendulo que adornava o salão principal: -Meia noite e meia.
-Temos pouco tempo. O teste começa as oito em ponto. Imperador, preciso usar o computador principal... Se me dão licença... -Ele se curvou mais uma vez e saiu da sala, o mais rápido que o piso escorregadio deixava. Seus pés derraparam quando ele saiu do salão, rumo à sala do computador central, onde ele tinha recepção boa o suficiente para contatar Farem e Iris.
Ele ligou o computador e esperou-o carregar (o que demorava quase meia hora, pois à noite a carga de energia mandada pelo Palácio era bem maior que de dia.), rezando para que desse tempo. Se acontecesse algo com Iris ou com os outros, ele jamais se perdoaria.
O computador carregou-se completamente em exata meia hora, o que deixou o Senhor do Palácio de Granito desesperado. Mas a surpresa maior ainda estava para chegar. Nicolas descobriu, com desgosto, que a linha de comunicação com a Sede Black e todos os comunicadores estava cortada. Um presente de Haradja, e eles demorariam muito tempo para saber como ela tinha feito aquilo. Ou melhor... Sua sócia. O rapaz tentou de todos os meios possíveis estabelecer o contato, sendo frustrado em todas as suas tentativas.
Ele voltou para a sala principal, reencontrando-se com Seres e Erom: -Não consegui.
-Não conseguiu? -Questionaram os outros dois.
-As linhas de transmissão foram cortadas. Nenhum recado entra ou sai. Primeiro pensei que era só a Sede Black, mas não é. Tentei contatar guardas, vigias, sem sucesso.
-Haradja. -Murmurou Seres, levantando-se. -Alguém tem que avisá-los. Não podem estar desprevenidos contra um ataque de Haradja.
-Eu vou. -Alegou Nicolas.
-Sou mais rápida. -Contestou Seres.
-Não pode interferir, majestade. Sabe muito bem o que acontecerá se ir lá agora. Ainda mais nesse estado de espírito. Posso fazer isso. Eu fracassei uma vez, quero concertar o erro. Por favor, minha Deusa, deixe-me partir.
Seres olhou para aquele rapaz determinado e sentiu toda a sua vontade minar. Sabia o que aconteceria se interviesse. Ficaria confinada no seu elemento por trinta dias. Era muito tempo para um reino ameaçado. Poderia ser mais útil essa intervenção em outro momento. Seres era a mais calma e racional dos cinco grandes Deuses. Ela sabia que ainda não era hora de arriscar a pele. Ainda não. Teria que confiar em Nicolas mais uma vez.
-Vá. Mas procure primeiro a Sede, e depois o Caminho da Ilusão. Se houver um ataque, pegará os dois. Com certeza ao mesmo tempo. -Disse Seres, se conformando.
-Obrigado, majestades. -Ele agradeceu, e se virou para sair do salão.
-Nicolas. -Chamou a deusa. Ele a olhou.
-Você daria um ótimo imperador.
Nicolas deu um sorriso e meneou a cabeça. Já ia se virar de novo quando Seres o confrontou novamente. -Nicolas... Tome cuidado. E boa sorte.
Ele fez outra reverencia e saiu da sala. Seres virou-se para Erom e perguntou: -Já pensou em quem vai ser seu sucessor?
-Já. Nicolas será um bom imperador. A menos, é claro, que ele não queira e que haja alguém melhor para ficar no seu lugar.
-Vou considerar isso na hora em que formos promover a sucessão. -Prometeu Seres. -Mas ainda vai demorar. Ainda está firme e forte, senhor. Ainda vai viver muitos anos. O suficiente para ver Nicolas amadurecer um pouco mais.
-Quem sabe.
-É, quem sabe.
A deusa do destino é ardilosa. Nenhum deles poderia prever o futuro que os aguardava. Nesse instante, Nicolas embainhava a sua espada e subia em sua moto. Em instantes estaria na estrada. Precisava de tempo... E essa era a única coisa que ele não tinha.

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Francis chegou à frente do hidroavião e o observou de cima a baixo. Crós saiu da maquina, junto com os outros. O olhar do rapaz caiu sobre Alyson, e um sorriso encantador brotou em seus lábios.
Ken notou, e olhou para a garota ao seu lado. Ela tentou retribuir com um sorrisinho cínico, retrucando, entre dentes: -Vai ser mais difícil do que pensei.
-Eu queria muito poder te ajudar, mas não posso. -Comentou o rapaz, carinhosamente.
-Concordo plenamente.
-O que vai dizer para ele?
-Isso é problema meu, não acha?
-Ta, não precisa ser rude. Só pega leve com ele.
-Por quê?
-Levar um fora de uma garota linda como você pode ser prejudicial. Eu ficaria muito mal.
-Sei disso. -Ela riu, enquanto via Francis se aproximar deles. Ele chegou perto de Alyson e beijou sua mão, novamente. Ken pensou em agarrá-la e lhe dar um beijo bem na frente daquele guardião sei lá do que, ou talvez gritar: “Ela é minha namorada, eu vi ela primeiro!, e “Dá para tirar o olho da minha garota?”, mas achou que isso seria grosseria, sem falar de muito imaturo.
Alyson viu que Ken não estava muito feliz com isso tudo e retirou a mão. Deixaria Crós resolver seus problemas e diria a ele... O que ia dizer a ele mesmo???
-Bem, Francis... Trouxe as pedras? -Crós perguntou, educadamente. O outro tirou do bolso da jaqueta uma caixinha toda ornamentada, com um dragão em alto relevo na tampa, e vários símbolos estranhos espalhados pela sua superfície. Ele abriu a caixa, com muito cuidado. Dentro dela havia quatro pedras, menores que uma bolinha de gude. Um quartzo, um topázio, um berilo e uma água-marinha. Respectivamente as pedras do ar, da terra, das asas e da água.
A jovem olhou para as pedras com admiração, mas, subitamente, declarou: -Estão faltando três.
-Creio que cabe a você achá-las. -Afirmou Francis.
-A mim? –Ela questionou, de queixo caído.
Crós mais do que depressa cortou o assunto: -Falamos nisso depois. -Por que você não estava em Veneza, afinal de contas?
-Tive problemas com os avantesmas seguidores de Haradja por lá. Resolvi despistá-los, só isso. Pena que não funcionou de nada.
-Queriam as pedras?
-Querem as pedras. E, pelo visto, a Alyson também. Estamos com um problemão. E vocês tem que sair daqui o quanto antes... A derrota pode ter sido humilhante, mas não quer dizer que eles vão deixar de voltar. Fora que já era para estarem em Diamond à essas horas...
-Muito obrigado, amigo. -Agradeceu Crós.
-Eu faço o que tenho que fazer, e só. Não precisa agradecer.
-Bem, vou ligar o hidroavião. Não demorem. -O mago replicou, dando um adeus para Francis com a mão. Alyson sentiu que a frase tinha sido para ela. Ken seguiu Crós, também dando um tchau com a mão (no caso dele, até nunca mais). Sacha tentou jogar um charminho, mas não adiantou de muita coisa. Acabou que ele só apertou a mão dela, o que a deixou frustrada. Cloe, que não queria encarar, pois se sentia desconfortável, e porque queria parecer educada, também apertou a mão dele, desviando o olhar rápido e voltando para o hidroavião junto com Sacha. Sobraram só Alyson e ele. Os dois se encararam.
-Olha, Francis... -Começou ela. -Eu gosto muito de você... Mesmo. Mas, só como um amigo. -Ela viu o rapaz “murchar”. Talvez tenha sido direta demais. Ia ter que concertar o erro. -Me desculpe por ter feito você alimentar falsas esperanças. Essa não era a minha intenção...
-Você gosta daquele rapaz, não é?
Ela inconscientemente fez uma careta. Será que estava tão na cara assim? Sem prestar atenção, respondeu: -As vezes ele é um idiota... Mas mesmo assim não posso deixar de pensar nele.
-Acho que estou com inveja... Nunca senti isso em anos de existência. É estranho. Queria que você olhasse para mim como olha para ele.
É, tava mesmo na cara. Ela suspirou fundo. Por que estava sendo tão difícil? -Sinto muito... Mas não posso ficar com você. Não sabendo que estaria fazendo isso por compaixão... Ou amizade.
-Eu entendo. Cheguei tarde. -Ele a encarou com tristeza no olhar.
-Talvez fosse tudo diferente... -Ela parou para pensar e percebeu, que se Ken não estivesse em sua vida, seria fácil se apaixonar por aquele jeito encantador de Francis. Porém, o cupido tinha feito a sua parte, há muito tempo, e ela teria que partir o coração de alguém. Alguém que a amava demais, mesmo só a conhecendo por algumas horas. Alguém que poderia ter sido um amigo maravilhoso.
-Talvez. -Ele concordou. -Espero que seja feliz. Que tenha êxito em sua missão. Que viva o suficiente para conhecer o meu mundo. Ver como ele é em tempos de paz.
Isso era um adeus. A garota sentiu-se um monstro por um instante. Deu uma vontade enorme de chorar, de abraçá-lo, de dizer que estava tudo bem, que ele ficaria bem, que acharia uma garota que merecesse o seu amor. Uma alma gêmea, para acompanhá-lo pela vida confusa de feiticeiro.
Sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas. Ela olhou aquele rosto e se perguntou se estava fazendo a coisa certa. Hesitava. Tomou coragem, uma coragem saída de nem se sabe onde. -Não quero que sofra por mim. Você deve ter vivido tempo o suficiente para saber que há uma pessoa certa para cada um de nós. Espero que encontre a sua, de coração.
Ele sorriu (uma poeira de felicidade num mar de desespero), e disse, docemente: -Vou me esforçar.
-Promete pra mim que não vai fazer nenhuma besteira?
-Juro pela minha alma. E por você.
Alyson puxou os leques que Francis havia dado do cinto que os prendia e estendeu-os para ele.
-Fique com eles... Para se lembrar que em algum lugar do Mundo Real existe alguém que gosta muito de você.
Ela o abraçou bem forte. -Se cuida.
-Você também.

E os dois se separaram, para nunca mais se encontrarem novamente. Pelo menos, era o que ela achava. Alyson subiu no hidroavião, e deu um sinal de adeus. A máquina decolou, ganhando o céu estrelado, sem uma nuvem. Francis viu-a sumir da sua vista. Caiu de joelhos no pasto verdejante, e chorou até as lágrimas secarem. Muitos parisienses disseram terem ouvido um falcão cantar até o amanhecer, uma melodia triste que parecia chorosa aos ouvidos mortais. Era muito mais que isso. A ave cantava, para aqueles que podiam ouvir, uma história de amor que nunca havia começado. Cantava a dor de um feiticeiro que, em vários anos de vida, se apaixonara por alguém que nunca poderia ter, e que sofreria a sua falta até o fim dos seus dias.

~Kit Black

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