20 de ago de 2015

Kit Black: Viajantes de Mundos

Terceiro capítulo: Remorso (parte II).

O avião pousou em um lago, perto do Arco Do Triunfo, e todos saíram juntos. Logo estavam andando pelas ruas movimentadas, os olhos sendo iluminados pelo sol e pelas fachadas de beleza rara ao seu redor.
Alyson abriu um sorriso de admiração enquanto passava, mas logo se controlou. Tinha coisas mais urgentes para pensar... Entre elas perguntas urgentes ainda sem resposta plausível.
-Vamos tentar não ficarmos muito tempo por aqui, crianças… -Dizia Crós, antes de ter sido interrompido por olhares ameaçadores. -Perdão, jovens. Ainda temos que procurar um amigo meu em Veneza, e pretendo que todos nós atravessemos o portal ainda hoje.
-Okay, já entendemos. -Replicou Cloe, ajeitando a boina em estilo parisiense.
Alyson tinha ficado mais atrás e, com um olhar assustado, viu uma sombra negra passar bem ao seu lado. Ela seguiu-a com o olhar e viu o ser virar uma esquina. Continuou observando pelo canto dos olhos, enquanto andava para frente. Ken, que vinha logo a sua frente, também sentiu algo e virou-se. Os dois se chocaram.
-Posso saber o que você pensa que está fazendo? -Perguntou Ken, olhando em volta, provavelmente em busca da fonte de energia maligna. A garota, que já se preparava para ir atrás da sombra antes da colisão, se desconcentrou e o encarou: -Eu? Foi você que virou do nada e ainda por cima sem avisar...
-Se estivesse olhando para frente em vez de para as vitrines isso não teria acontecido.
-Eu não estava olhando para as vitrines... –Ela protestou. -Espera ai, você não viu?
-Não vi o que?
-A sombra... Passou do nosso lado.
-Eu senti alguma coisa passar por mim. Apenas isso.
-Deixe-me adivinhar... Acha que estou louca?
-Vai começar... E você não disse que ia fingir que nunca me conheceu? Vamos logo, antes que o Crós fique reclamando.
-Francamente! Tenho certeza que não é com o Crós que está preocupado, não é?
-Francamente digo eu. Você está ficando paranoica!
-Eu discordo. Diria que está com medo.
-Com medo de que, sua fedelha desequilibrada? -Questionou Ken virando-se e apertando o passo para alcançar os outros. Alyson foi ao seu lado...
-Você gosta de mim, Ken, pode negar até para si mesmo o quanto quiser. Tem medo de que eu conheça aqui alguém muito melhor do que você, e que eu prefira ficar aqui com ele a ir contigo. Tem pavor de me perder. Negue, se puder.
Ken continuou calado, seu rosto impassível. Ela questionou: -É verdade, não é?
-Não, você está completamente enganada. -Era uma grande mentira, e ele estava ciente disso.
Alyson calou-se e ficou remoendo sua dor em silêncio. Então, tudo que ele lhe dissera depois de ela ter voltado à vida era mentira? Era complicado... Muito complicado. Eles se juntaram aos outros. Estavam à frente da Torre Eiffel. Um rapaz claro, de cabelos acaju e olhos claros estava sentado confortavelmente numa cadeira. Devia ter a idade de Ken. Na sua frente havia uma mesa e mais três cadeiras. Ele usava uma boina preta, um sobretudo marrom sobre uma camisa comum branca e calças jeans.
Em suas mãos repousava um falcão, de penas escuras e olhos tão aguçados como deviam ser as garras que se prendiam a mão do rapaz, sem machucá-lo. O pássaro era um exemplar dos menores, mas mesmo assim apresentava uma postura de dar medo, uma graciosidade digna de sua espécie e ar de indiferença, apesar de estar atento a tudo em seu redor.
A prova do ultimo item veio quando o grupo se aproximou: a ave piou alto e girou a cabeça para o rosto do dono, piando pela segunda vez, agora mais baixo. O rapaz pareceu entender o recado, porque logo olhou em direção ao grupo. Cloe sentiu um arrepio. Apesar de ser um olhar inocente, penetrava tão fundo como o do falcão. Era quase desconfortante. Parecia que ele poderia ler o que se passava na mente dela só com olhos.
Ela desviou os olhos e ele voltou a olhar para o magnífico monumento a sua frente. Seus lábios se contraíram levemente e ele disse, numa voz cristalina: -Merveilleux, non? -Mas notando o silêncio e a cara de “em? Eu não falo Francês” deles, repetiu em português: -Maravilhosa, não?
O grupo se entreolhou. De que ele estava falando?
Alyson, um pouco mais ligada agora, acotovelou Crós de leve e informou, de um modo que só eles pudessem ouvir: -A Torre Eiffel. Ele está falando da Torre Eiffel.
O feiticeiro ficou visivelmente constrangido e replicou, no mesmo tom: -Eu sabia.
-Sei, vou fingir que acredito. - Retornou a jovem, debochada. E se aproximando do desconhecido, respondeu, finalmente, a sua aclamação: -É, concordo com você.
Ele deu um sorriso satisfeito e fitou o grupo de novo. Principalmente, claro, a bela garota de cabelos negros e olhos castanho-esverdeados que o respondeu. -O que quatro brasileiros andam fazendo por aqui?
-Como sabe que viemos do Brasil? -Questionou Cloe.
-Vocês falam português mas não tem aquele sotaque forte de Portugal. E conheço um brasileiro quando vejo um. É uma questão de… Jeito de ser. -Ele respondeu. -A propósito, meu nome é Francis. E vocês, quem são? -Ele levantou-se, e o falcão alçou voo, indo pousar na Torre, mas sem desgrudar os olhos do dono.
-Me chamo Alyson. -E, fazendo um sinal vago, apresentou os outros, completando depois: -É um prazer conhecê-lo.
-Digo o mesmo, mademoiselle. -Alegou Francis, pegando a mão de Alyson e beijando-a, olhando em seus olhos, ardentemente.
Cloe olhou de imediato para Ken, que fitou o céu com ares de “eu não precisava ver isso” e pelas aparências, zangado. Sacha soergueu as sobrancelhas, e Crós sacudiu levemente a cabeça, replicando: -Jovens!
Alyson, sem jeito, tirou a mão das dele.
-Mas então, o que pessoas como vocês fazem aqui?
-Turismo. -Responderam todos, ao mesmo tempo (não deixava de ser uma verdade, em parte).
-Podem dizer a verdade. Sei bem o que vocês não estão aqui para ver maravilhas de arquitetura, ainda mais porque Crós está os acompanhando. Conheço esse feiticeiro de longa data. Não é, colega? -Alegou Francis, olhando para ele.
As meninas e Ken se viraram no mesmo instante para Crós que, sempre envolto em sua capa e seu capuz, não deixava ver a expressão de surpresa que havia em seu rosto. De repente pareceu lembrar-se, pois deu uns passos à frente e retirou o capuz, para a extrema surpresa dos seus acompanhantes. Isso porque seu rosto era a coisa mais surpreendente que os outros viram: os olhos amarelos, de gato. Duas grandes orelhas negras, um bigode felino, dentes afiados como de um vampiro. Ele tinha aparência de vinte e sete anos, mas poderia ter mais. Os cabelos eram negros lisos e compridos, presos em um rabo de cavalo pequeno. Parecia mais meio gato do que a Alyson transformada.
-Uau! -Deixou escapar Cloe, enquanto os dois se encontravam e davam um abraço camarada. -Você diria que ele é um gato, Alyson?
-Nem passou pela minha cabeça. -Confessou a garota, sem parar de olhar o feiticeiro. -Era por isso que ele andava sempre de capuz.
-Gato nos dois sentidos. Pena que é velho demais pra mim. -Contestou Sacha.
-Sacha! -Repreenderam os três.
-E se verem ele? -Questionou Ken. Crós devia ter escutado, pois voltou para ele o olhar e tranquilizou: -Fica frio. Tem uma barreira de proteção aqui em volta que nos torna invisíveis a olhares comuns. Porque não pensei nisso antes?
-Podem explicar essa confusão toda, vocês dois? -Retrucou Cloe.
-Simples. Francis é um feiticeiro de Diamante, como eu. É o guardião das pedras mágicas.
-Um guardião?
-Do outro mundo?
-Aqui?
-Pedras mágicas?
Ken, Alyson, Cloe e Sacha perguntaram, sem entender.
-É, um guardião. Que guarda algo. -Disse Francis, respondendo a pergunta de Ken.
-Sei o que significa. -Retrucou o rapaz, fechando a cara.
-Não foi isso que ele quis dizer, Ken. -Avisou Crós. -Retornando as explicações: Francis nasceu em Diamond, e é um viajante de mundos. Deveria estar em Veneza, mas isso não vem ao caso agora. Repetindo, ele é um feiticeiro poderosíssimo, como eu, e um guardião competente. Quanto às pedras mágicas, são pedras que são usadas para trancafiar um imortal. E a imortal em questão é Haradja.
-A assassina? -Perguntou Alyson, de imediato.
-A própria. Pois, para o nosso azar, ela é imortal. São sete pedras: rubi do fogo, quartzo do ar, topázio da terra, água-marinha da água, diamante de luz, Ametista das trevas e berilo das asas. Contida em cada uma delas está uma criatura mágica. Todas elas juntas formam a pedra da guerra, que pode prender Haradja em seu interior pelo tempo que a pessoa que estiver controlando-a desejar.
-Que ótimo. Tenho que deter uma assassina sanguinária, cruel e muito forte, e advinha: ela é imortal! -Enumerou Alyson, de mau humor, e completando, sarcástica: -Estou adorando isso!
-É melhor esfriar um pouco. -Ponderou Crós.
-É sério, Crós, como você espera que eu bata de frente com uma imortal? Não consegui nem vencer você!
O feiticeiro olhou-a de cima a baixo contrariado e alegou: -Vou considerar isso como um elogio.
-Não foi isso que eu quis dizer. -Ela se desculpou. -Se eu não consigo ganhar dos mortais, quem dirá de alguém que não pode morrer?
-Para isso serve as pedras. Acha que as temos só por esporte?
-Mas como vocês as conseguiram, falando nisso? -Questionou Ken, interrompendo Alyson, que ia responder, e muito mal.
-Com um pouco de sorte, eu acho. Essa história vai ficar para um outro dia. -Emendou o meio-gato, dando um bocejo. -Não podemos demorar muito por aqui. Não querem dar uma volta antes de partirmos?
-É uma boa... - Cloe foi interrompida por um pio agudo do falcão de Francis, que desceu do seu observatório suavemente e pousou no braço estendido do dono.
-O que foi, Hunter? -Interrogou Francis. A ave bateu furiosamente as asas por alguns segundos e piou outras vezes, tão agudamente que Alyson e Cloe precisaram tapar os ouvidos, por serem as duas com a audição mais sensível. Hunter finalmente calou-se, começando a movimentar a cabeça, fitando todas as direções possíveis.
Cloe destapou os ouvidos. -O que foi isso?
-Estamos sendo cercados. -Respondeu Francis, acariciando o passaro, para tentar acalmá-lo.
-Pelo quê, exatamente? -Perguntou Crós, vendo o colega puxar uma besta de uma grande mala, abaixo da mesa.
-Avantesmas. -Ele respondeu, completando: -Deixam os animais muito nervosos. Afinal, animais são... Muito sensíveis a presenças ruins.
-Avantesmas? -Questionou Cloe.
-Espectros... Das trevas. São comuns por aqui. Não são um problema muito grande. -Explicou Francis, colocando uma flecha prateada na besta e virando-se para os outros. Hunter, que repousava no ombro dele o tempo todo, alçou vôo e ficou rodeando o grupo, lá em cima.
-Estariam do lado de Haradja? -Crós perguntou, olhando para a tropa de avantesmas que chegava mais perto. Eram sombras que tomavam forma humana, de olhos vermelhos e cimitarras nas mãos. Alyson reconheceu prontamente o que era aquilo que passara ao seu lado minutos antes. Já Ken também reconheceu a sensação maligna tomar novamente conta de seu corpo.
-Se estiverem, aí sim estaremos com problemas sérios. -Disse Francis, finalmente respondendo a pergunta de Crós.
Alyson fez uma careta e, instintivamente segurou o cordão, dando um passo atrás e se transformando. Sentiu seu corpo ser tomado por expectativa. Como se a guerra a convoca-se. Um desejo latente e selvagem de lutar, de brandir uma espada, de despedaçar seus inimigos. Estava começando a libertar o felino que residia em seu interior.
Francis jogou para ela dois bastões metálicos de meio metro. A jovem pegou-os e olhou para ele, que deu um sorriso e alegou: -Para não despedaçarem o seu lindo rosto.
Ela franziu levemente as sobrancelhas. Como se precisasse. Agradeceu com um aceno de cabeça e rodou os bastões entre os dedos. Eles se abriram em dois leques, de pontas aguçadas, lados afiados e revestidos por prata. A garota se surpreendeu, parou o movimento e olhou para as armas, e depois para seu dono. Este devia estar se divertindo com a cara que ela fez, pois deu uma risadinha e garantiu: -É quase indestrutível. Palavra de escoteiro.
-E você foi escoteiro?
-Nos tempos remotos da minha existência. -Ele proferiu, como se estivesse decepcionado.
Ela se perguntou quantos anos ele teria e como deixar claro, sem o magoar, que não estava interessada.
E, como uma onda descomunal, como uma tempestade de areia... Os avantesmas atacaram. Foi o tempo de Ken puxar a espada e atacar o primeiro que ameaçou decepar sua cabeça. Mas verificou a pura e dura realidade. Por mais que cortasse aquela coisa, mais rápido ela se regenerava, e mais forte ficava. A espada só o defendia dos ataques das cimitarras. Grande coisa. Ia acabar morto, estraçalhado por aquelas coisas. Será que comiam carne humana?
Alyson já tinha vários corpos aos seus pés quando percebeu o problema de Ken. Também, ele era o único que estava a vista. Todos os outros estavam longe demais para serem distinguidos do lugar em que ela estava. Fitou o jovem por um longo momento enquanto evitava outro golpe. Tateou o interior do bolso do casaco que usava. Seus dedos tocaram algo como uma corrente. Ela puxou. Era uma corrente fina, de prata, com um pingente, do mesmo material, em forma de um gato. Imediatamente deu um grito: -Ken! Pega! -E atirou o cordão para ele. No mesmo instante os avantesmas que estavam ao redor dele se afastaram. Foi ai que Ken percebeu... Que a única coisa que eles temiam, e que poderia matá-los... Era a prata. Reconhecia aquele cordão. Foi o presente que ele deu para Alyson no seu aniversário de dezessete anos. Cloe tinha razão. Ele era, realmente, muito burro. Sorriu para a garota em retribuição e sentiu o sangue gelar quando um avantesma chegou atrás dela... E foi recebido com um soco no meio da cara. Ela estava mais atenta do que parecia. Ken deixou escapar um suspiro de alivio, e amarrou a corrente no punho, distribuindo socos eficazes para todos os lados.
Agora a jovem estava preocupada com os outros. Uma grande explosão abriu caminho para o seu lado esquerdo. Um susto tremendo, aliás. Devia ter sido Crós. As meninas deviam estar com ele, ela viu quando a tropa atacou e crós as puxou para trás de si. Droga. Desconcentrou-se pensando nisso, e logo outro avantesma fez um movimento com a cimitarra. Ela virou-se bem a tempo de ver uma mão prateada com grandes garras atravessar o peito da coisa, fazendo-a largar a cimitarra e despencar no chão. Qual não foi a surpresa de Alyson ao ver que a dona da mão era Cloe... Agora com duas orelhas pontudas de lobo e uma pequena cauda. E, para completar, um cordão pendurado no pescoço, com uma lua crescente e azulada como pingente.
-Como é que você...
-Não faz pergunta difícil agora não. -Retrucou Cloe, mostrando as mãos, cobertas por uma luva de prata. -Gostou da luva? Peguei no arsenal do Francis, acho que ele não vai se importar...
-E a Sacha?
-Já pedi para não fazer perguntas difíceis. Mas deve estar com o Crós.
-Bom saber. -Alegou Alyson, cortando a cabeça de um espectro, enquanto Cloe transpassava outro com suas garras (e a ajuda da luva de prata, claro).
Cloe olhou ao redor: -E o Ken?
-Também não posso responder perguntas difíceis agora. -Zombou a garota, completando: -Deve estar por ai, socando algum avantesma desprevenido...-Ela não terminou de falar. Algo bateu em sua cabeça com muita força, fazendo com que ela desmaia-se. A parte detrás de uma cimitarra, na realidade. Cloe amparou-a na queda, vendo suas próprias mãos sujas de sangue. Com certeza não era o sangue dos avantesmas que ela tinha matado, visto que este era vermelho vivo, e o das criaturas era preto como carvão.
-Droga. -Xingou Cloe, olhando ao redor, procurando ajuda. Procurando por Ken. Já não havia tantos avantesmas, mas os que restavam formavam um circulo em volta delas, enquanto os outros cercavam os amigos delas, o que dificultava a visão. O circulo foi se fechando, mas as coisas não atacavam. Esperavam as ordens de um mundo distante, para acabar com a raça daquelas duas. Uma ordem, talvez, de Haradja.
Cloe engoliu em seco. Não havia como sair dali. Se soltasse Alyson para atacar, matariam ela. Se ficasse ali parada, matariam as duas. Fechou os olhos, para pensar ou para não ver a cimitarra degolando-a, quem pode saber? Pois um avantesma ousou se rebelar contra as ordens, e levantou a arma para começar a chacina. A jovem ouviu um baque surdo e abriu os olhos, para ver o estrago que o seu salvador fez com um simples gancho de direita. Os outros seres que estavam ao redor tiveram o mesmo destino. Ken parou de pé na frente dela finalmente, transpirando, o rosto transbordando preocupação: -Você está bem? -E, agachando-se ao lado do corpo inconsciente de Alyson: -Ela está bem?
-Não sei, acertaram ela... Está sangrando. E muito.
A jovem voltou a si aos poucos e olhou de um para o outro, franzindo o cenho. -O que houve?
-Algum avantesma idiota acertou você. -Explicou Cloe. -Na cabeça.
-Percebe-se. -Retrucou, sentando-se com a ajuda dos dois e alegando: -Agora eu sei o que os gongos sentem quando batem neles.
-Você está bem?
-Estou, Ken, estou. A minha cabeça que está doendo e sem contar que estou vendo tudo girar, mas vou sobreviver.
Um outro estrondo abalou o lugar. Os últimos avantesmas foram destruídos por Francis e por Crós. Onde estaria Sacha?
A jovem gatinha, apoiada por Ken e Cloe, conseguiu se levantar. Seus olhos passaram pelo campo. Os corpos dos seres mortos estavam se desfazendo em uma poeira negra e agourenta. Ela avistou Francis e Crós mais a frente, curvados sobre o que parecia ser um fosso muito fundo. Sem entender, caminhou até lá, seguida de perto pelos outros dois amigos, que estavam atentos para o caso dela desmaiar outra vez.
O fosso era obra de uma das explosões de Crós. Este passava a mão pelos cabelos, agora soltos e bagunçados, e fitava o buraco. Francis buscava uma atitude impassível, mas de vez em quando fazia uma careta, que poderia ser tomada como sorriso por quem estivesse prestando atenção.
-O que houve? -Perguntou Cloe, quando os três se juntaram a eles. Alyson se aproximou do fosso, curiosa.
-Ela caiu. -Foi a resposta de Crós. Francis desistiu de segurar o riso e se afastou, por educação. Sacha estava dentro do fosso, coberta de lama, e completamente despenteada, fitando os outros com cara de poucos amigos. Os cabelos estavam mais escuros que o normal, asas de águia pequenas e delicadas saiam das suas costas e tinha uma cauda empenada típica daquela ave. Um cordão vermelho, em forma de flor de lotos, adornava seu pescoço, a retina dos seus olhos parecia ter aumentado, lembrando as de um falcão. Uma tiara de penas vermelho-fogo cintilavam em sua testa.
-Você também? -Retrucou Alyson, lá de cima.
Sacha afirmou com a cabeça levemente e choramingou. -Sou a metade de um passarinho ambulante!
-Tecnicamente, você é metade águia. -Gritou de volta Cloe, segurando o riso.
-Podem me tirar daqui?
Alyson olhou para Cloe. -Vou fingir que não ouvi isso.
-Idem.
-Vocês vão ficar ai batendo papo ou vão me ajudar?
-Sacha, sua besta cúbica, você tem asas. Use-as! -Explodiu Alyson, já começando a perder o resto de paciência que ainda tinha.
-Ora, não precisa ser tão grossa.
-Não estou sendo grossa. Você ainda não teve a oportunidade de me ver assim, ouviu? Agora sobe logo.
Sacha fez cara de contrariada e subiu como um raio. Chegando lá em cima, se transformou novamente em humana. -Sinistras aquelas coisas, não?
-Sinistras é apelido. -Comentou Alyson passando a mão pelo machucado recente e descobrindo, com amargura, que continuava a sangrar.
-Acho melhor ficarmos um pouco mais por aqui. Este corte está feio, Ly, e mesmo que eu consiga curar com magia você vai precisar de um pouco de repouso, antes de partirmos para a Inglaterra. -Optou Crós.
Alyson franziu as sobrancelhas. “Até tu, Brutos?”. -Mas você não estava com pressa?
-A sua saúde é o foco agora. Se for voar nestas condições isso pode evoluir para algo mais grave. As armas avantesmaris são terrivelmente tóxicas. E creio que vamos chegar encima da hora mesmo.
-Encima da hora para quê? -Questionou Ken.
-Para a prova de recrutamento da Equipe Black.
-Perdão, mas... Eu não entendi. -Alegou Alyson.
-Está ficando surda? -Perguntou Sacha. -Até eu entendi.
Ela percebeu o toque de zombaria na voz de Sacha e se defendeu. -Tem que dar um desconto, gente, eu acabei de levar uma pancada na cabeça, minhas faculdades mentais ainda estão meio embaralhadas.
-A Equipe Black estará fazendo uma prova amanhã para o recrutamento de mais guerreiros. -Crós parou, vendo a cara de Francis, que se juntava ao grupo. -Precisamos de ajuda, oras.
-A Iris, pedindo ajuda... Recrutando guerreiros por meio de uma prova? -Questionou Francis, pausadamente.
-Foi ideia dela... Eu acho.
-Da Iris?!
Crós respondeu afirmativamente com a cabeça, e Francis deu de ombros, comentando: -Eu sumo por cinco anos e as coisas ficam de pernas para o ar.
-Suponho que nós três não precisaremos fazer a prova para acompanhar a Alyson, certo?
-Suposição errada, Ken. Vocês terão que passar pela prova como todos os outros, mesmo sua amiga já sendo um membro honorário da Equipe.
-Eu sou, é? -Questionou a garota, passando as mãos pelos cabelos, como quem diz “não pode estar falando sério”.
-Digamos que sim. Mas não se preocupem com isso, a julgar pelas suas performances no campo de batalha, eu acredito que vão se dar bem.
-Sério? -Perguntou Cloe, vendo isso como um elogio.
-Tenho fé nisso, pelo menos. -Confessou o feiticeiro, fazendo os três trocarem olhares apreensivos entre si. Alyson olhou para eles de forma zangada e virou-se para Crós: -Suponho que eu possa dar um apoio, digamos... Moral, nessa prova.
-É... Não.
-Então eu vou ter que ver as minhas amigas e o meu namorado...
-Namorado, é? -Questionou Crós. A mesma pergunta passou pela cabeça de Ken, com uma leve esperança. Cloe fez uma cara de surpresa, Francis sentiu uma pontada de decepção e Sacha, que não estava prestando atenção na conversa, pensou em: “o que?”.
-...conhecido...-Ela corrigiu, antes que o estrago piora-se, continuando: -...se matando para passar numa prova...de braços cruzados?
-É bem por ai.
-Veremos. -Ela retrucou, com tom de desafio.
-Enfim. -Continuou Crós, sustentando o olhar. - Essa prova será amanhã. E eu preciso estar presente, pois vou coordená-la. Junto com Iris, claro.
-Quem é Iris, afinal? -Questionou Cloe.
-É a atual líder da Equipe Black. -Objetou Francis, levantando o braço. Hunter despencou das alturas e planou para pousar na mão estendida.

-Agora vem, fedelha, vou fazer um feitiço para curar esse ferimento, antes que você acabe indo parar no hospital por perda de sangue.

~Kit Black

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